Raul Pompeia - O Ateneu - 04 / 12









O Ateneu, de Raul Pompéia


IV


Período sereno da minha vida moral, capitulo a escrever sobre uma banqueta de altar, ou com

o alfabeto azul que delineia o fumo do incenso no ar tranqüilo, inolvidáveis tréguas de íntimo sossego em toda a minha juventude, eis em que se tornou a minha amarga descida ao fundo descrédito escolar.

A astronomia, como os céus do salmo, levou-me à contemplação. O mal na terra, descrito pelo Sanches com uma perícia de conhecedor e praticante, tomou vulto no seio das minhas cogitações. A incredulidade primeira acabou em meu espírito, reconhecendo o descalabro deste val de lágrimas em que vivemos. Ao tempo que devia consagrar à minha reabilitação nos estudos, pus-me a estudar, como Inácio de Loiola, talvez na mesma idade, a reabilitação do mundo.

Encarnei o pecado na figura de Sanches e carreguei. Nutria talvez no intimo o ambicioso interesse de um dia reformar os homens com o meu exemplo pontifical de virtudes no sólio de Roma; mas a verdade é que me dediquei conscienciosamente ao santo empenho de merecer essa exaltação, preparando-me com tempo. Perdido o ideal cenográfico de trabalho e fraternidade, que eu quisera que fosse a escola, tinha que soltar para outras bandas os pombos da imaginação. Viveiro seguro era o céu. Ficava-me a vendagem da eterna felicidade, que se não contava.

Acresce que predispunha ao enlevo a tristeza opressa de discípulo mau em que eu jazia. E como aos pequenos esforços que tentava para me reerguer ninguém dava atenção, deixei-me ficar insensível, resignado, como em desmaio sob um desmoronamento. Tinha a consciência em paz, a consciência que é o espetáculo de Deus. Servia-me a crença como um colchão brando de malandrice consoladora. Note-se de passagem que apesar dos anseios de bem-aventurança, eu ia mal no catecismo como no resto.

A mais terrível das instituições do Ateneu não era a famosa justiça do arbítrio, não era ainda a cafua, asilo das trevas e do soluço, sanção das culpas enormes. Era o Livro das notas.

Todas as manhãs, infalivelmente, perante o colégio em peso, congregado para o primeiro almoço, às oito horas, o diretor aparecia a uma porta, com a solenidade tarda das aparições, e abria o memorial das partes.

Um livro de lembranças comprido e grosso, capa de couro, rótulo vermelho na capa, ângulos do mesmo sangue. Na véspera cada professor, na ordem do horário, deixava ali a observação relativa à diligência dos seus discípulos. Era o nosso jornalismo. Do livro aberto, como as sombras das caixas encantadas dos contos de maravilha, nascia, surgia, avultava, impunha-se a opinião do Ateneu. Rainha caprichosa e incerta, tiranizava essa opinião sem corretivo como os tribunais supremos. O temível noticiário, redigido ao saber da justiça suspeita de professores, muita vez despedidos por violentos, ignorantes, odiosos, imorais, erigia-se em censura irremissível de reputações. O julgador podia ser posto fora por uma evidenciação concludente dos seus defeitos; a difamação estampada era irrevogavél.

E pior é que lavrava o contágio da convicção e surpreendia-se cada um consecutivamente de não haver reparado que era mesmo tão ordinário tal discípulo, tal colega, reforçando-se passivamente o conceito, até consumar-se a obra de vilipêndio quando, por último, o condenado, sem mais uma sugestão de revolta, achava aquilo justo e baixava a cabeça. A opinião é um adversário infernal que conta com a cumplicidade, enfim, da própria vitima.

Com exceção dos privilegiados, os vigilantes, os amigos do peito, os que dormiam à sombra de uma reputação habilmente arranjada por um justo conchavo de trabalho e cativante doçura, havia para todos uma expectativa de terror antes da leitura das notas. O livro era um mistério.

À medida que se desenrolava a gazetilha, as ânsias iam serenando. Os vitimados fugiam, acabrunhados de vergonha, oprimidos sob o castigo incalculável de trezentas carinhas de ironia superior ou compaixão de ultraje. Passavam junto de Aristarco ao sair para a tarefa penal de escrita. O diretor, arrepiando uma das cóleras olímpicas que de um momento para outro sabia fabricar, descarregava com o livro às costas do condenado, agravante de injúria e escárnio à pena de difamação. O desgraçado sumia-se no corredor, cambaleando.

Quando a coisa não dava para cóleras, Aristarco limitava-se a sublinhar com uma ponderação qualquer a sentença catedrática; ora uma exclamativa de espanto, ora uma ameaça, ora um insulto vivo e breve, ora um conselho amortalhado em fúnebre dó.

Às vezes enlaçava com dois dedos o menino pela nuca e o voltava, fremente e submisso, para

o colégio atento, oferecendo-o às bofetadas da opinião: “Vejam esta cara!...”

A criança, lívida, fechava os olhos.

Em compensação, não havia expressa mente punições corporais.

O Professor Mânlio, sempre considerando a recomendação, polpou-me longamente ao castigo formidável das partes. Perdeu por fim a paciência e fulminou-me.

No dia seguinte ao almoço, amargava eu, sem açúcar que me bastasse, o resto do café quinado da expectativa (porque Mânlio tinha-me prevenido), quando ouvi Aristarco, alargando pausas dramáticas de comoção, ler, claro, severo: “O Sr. Sérgio tem degenerado...”

Eu havia figurado já na gazetilha do Ateneu com algumas notas de louvor; guardou-se a sensação para a nota má. O diretor olhou-me sombrio.

No fundo do silêncio comum do refeitório, cavou-se um silêncio mais fundo, como um poço depois de um abismo. Senti-me devorado por este silêncio hiante. A congregação justiceira dos colegas voltou-se para mim, contra mim. Os vizinhos de lagar à mesa afastaram-se dos dois lados, para que eu melhor fosse visto. De longe, da copa, chegava um ruído argentino, horrível, de colheres à lavagem; os tamarineiros no parque ciciavam ao vento.

Aristarco foi clemente. Era a primeira vez, perdoou.

A pior hipótese do sistema do pelourinho era quando o estudante ganhava o calo da habitualidade, um assassinato do pudor, como sucedia com o Franco.

Dias depois da terrível nota, voltava eu a figurar com outra má, menos filosoficamente redigida, porém agravada de reincidência. Aristarco não perdoou mais. Houve ainda terceira, quarta, por diante. Cada uma delas doía-me intensamente; contudo não me indignavam. Aquele sofrimento eu o desejava, na humildade devota da minha disposição atual. Chorava à noite, em segredo, no dormitório; mas colhia as lágrimas numa taça, como fazem os mártires das estampas bentas, e oferecia ao céu, em remissão dos meus pobres pecados, com as notas más boiando.

No recreio, andava só e calado como um monge. Depois do Sanches não me aproximava de nenhum colega, senão incidentemente, por palavras indispensáveis. Rebelo tentou atrair-me; eu desviava. Sanches, rancoroso, perseguia-me como um demônio. Dizia coisas imundas. “Deixa estar, jurava entre dentes, que ainda hei de tirar-te a vergonha.” Na qualidade de vigilante levava-me brutalmente à espada. Eu tinha as pernas roxas dos golpes; as canelas me incharam. Se Barbalho se lembra de vingar a bofetada, creio que me submetia à letra evangélica 1S

Durante este período de depressão contemplativa uma coisa apenas magoava-me: não tinha o ar angélico do Ribas, não cantava tão bem como ele. Que faria se morresse. entre os anjos, sem saber cantar?

Ribas, quinze anos, era feio, magro, linfático. Boca sem lábios, de velha carpideira, desenhada em angústia — a súplica feita boca, a prece perene rasgada em beiços sobre dentes; o queixo fugia-lhe pelo rosto, infinitamente, como uma gota de cera pelo fuste de um círio...

Mas, quando, na capela, mãos postas ao peito, de joelhos, voltava os olhos para o medalhão azul do teto, que sentimento! Que doloroso encanto! que piedade! um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que subia, que furava o céu como a extrema agulha de um templo gótico!

E depois cantava as orações com a doçura feminina de uma virgem aos pés de Maria, alto, trêmulo, aéreo, como aquele prodígio celeste de garganteio da freira Virgínia em um romance do conselheiro Bastos.

Oh! não ser eu angélico como o Ribas! Lembro-me bem de o ver ao banho: tinha as omoplatas magras para fora, como duas asas!

E eu era feliz nesse tempo, quando invejava o Ribas.

Havia na minha febre religiosa certo número de reservas, que pareciam o germe de futuro libertino, como dizem os padres mineiros; eu não admitia a confissão, não pensava em comunhão, estranhava os exageros do culto público, votava antipatia aos homens de batina. Santa Rosália era a minha devoção.

Por que Santa Rosália? Não havia motivo: era uma pequena imagem em cartão, gravara de aço e aguadas de fino colorido, lembrança que me dera uma prima, então morta, e eu guardava em memória amável.

Era boa a priminha. Mais velha do que eu três anos, carinhosa, maternal comigo. Brincava pouco, velava pelos irmãos, pela ordem da casa, como uma senhora. Tinha os olhos grandes, grandes, que pareciam crescer ainda quando fitavam, negros, animados de um movimento suave de nuvem sobre céu macio; o semblante claro, branco, puro, de marmórea pureza, coando uma transparência de sangue a cada face. Raro falava; desconhecia a agitação, ignorava a impaciência. Sabia talvez que ia morrer. Ao vê-la passar, sem rumor, como os espectros femininos do sonhador americano — leve na terra como o rogar da veste de um anjo, sentia-se com aperto de coração que não pertencia ao mundo aquela criança: buscava, errante na vida, buscava apenas o repouso da forma, sob a campa, em sitio calmo, de muito sol, onde chorassem as rosas pela manhã — e a liberdade etérea do sentimento.

Um dia, não sei se do pranto que tinha nos olhos, vi animar-se o rosto à pequenina gravura. Eu pensava na prima; descobri na imagem uma identidade comovente de traços fisionômicos com a pequenina morta. Guardei então, como um retrato, Santa Rosália?

Com a evolução de misticismo era natural completar-se a consagração da estampa, canonizada triunfalmente no concilio ecumênico dos meus mais íntimos votos.

Era a sala geral do estudo, à beira do pátio central, uma peça incomensurável, muito mais extensa do que larga. De uma das extremidades, quem não tivesse extraordinária vista custaria a reconhecer outra pessoa na extremidade oposta. A um lado, encarreiravam-se quatro ordens de carteiras de pau envernizado e os bancos. À parede, em frente, perfilavam-se grandes armários de portas numeradas, correspondentes a compartimentos fundos; depósito de livros. Livros é o que menos se guardava em muitos compartimentos. O dono pregava um cadeado à portinha e formava um interior à vontade. Uns, os futuros sportmen, criavam ratinhos, cuidadosamente desdentados a tesoura, que se atrelavam a pequenos carros de papelão; outros, os políticos futuros, criavam cameleões e lagartixas, declarando-se-lhes precoce a propensão pelo viver de rastos e pela cambiante das peles; outros, entomologistas, enchiam de casulos dormentes a estante e vinham espiar a eflorescência das borboletas; os colecionadores, Ladislaus Netos um dia, fingiam museus mineralógicos, museus botânicos, onde abundavam as delicadas rendas secas de filamentos das folhas descarnadas; outros davam-se à zoologia e tinham caveiras de passarinhos, ovos vazados, cobras em cachaça. Um destes últimos sofreu uma decepção. Guardava preciosamente o crânio de não sei que fenomenal quadrúpede encontrado em escavações de uma horta, quando verificou-se que era uma carcaça de galinha!

Eu tive a idéia de armar em capela o compartimento do meu número. Havia compartimentos enfeitados de cromos e desenhos: o meu seria um bosque de flores, e eu acharia uma lâmpada minúscula para conservar li dentro acesa. Ao fundo, em dourado passe-partout alojaria Santa Rosália, a padroeira.

O projeto caiu pela dificuldade das flores. Pagando a um criado, mal conseguia um bogari, um botão qualquer por dia. Tive de acomodar a gravura na gaveta do móvel que possuíamos ao dormitório, perto da cama, para as escovas e os pentes.

E todos os dias, sobre o papel, testemunho de assídua veneração, depositava uma flor, mantendo na gaveta o clima tépido dos meus fervores, simbolizados num tributo de perfume.

Quando, no dia primeiro, sorriram as rosas místicas de maio, saudei-as enternecido do alto das janelas do salão azul, como as mensageiras do amor de Maria.

Iam começar os hinos pela manhã no oratório do Ateneu. Abençoados momentos de contrição e ternura, em que à disposição venturosa do corpo, depois do banho, vivia um pouco o recolhimento da poesia cristã, no magnífico salão, guardando ainda, como os vapores matinais das escarpas, as ultimas sombras da noite por entre os crespos do estuque.

O sol vinha também à capela e colava de fora a fronte às vidraças, brando ainda do despertar recente, fresco da toilette da aurora, com medo de entrar, corado da vergonha de não rezar, pobre astro ateu. Pelas janelas abertas, esgalhavam-se para dentro frondosas ramas de jasmineiro, como uma invasão de floresta; e os jasmins da véspera, cansados, debulhavam-se conchinhas de nácar pelo soalho, mortos, expirando no ambiente a alma livre do aroma.

Nós, ajoelhados, ressentidos da influência moral do cenário, orávamos sinceramente. Não havia muito mal a colher nos corações daquela mocidade, naquele instante, repousando na trégua da oração das miseriazinhas da hora comum.

Eu não olhava para o altar. Li estava rica, no trono iluminado, sobre três ordens de palmas, a imagem da Senhora da Conceição imaculada, alteando à fronte a coroa de prata, onde engastavam pedraria os reflexos das luzes. A minha contrição, o meu canto pertenciam a Santa Rosália, ao querido cartão singelo que eu trazia dentro da blusa de brim, que comprimia ao peito com a mão, exacerbando o êxtase da fé pelo magnetismo do santo contato.

O mês de maio foi a culminação do período anagógico de crença. Coincidiu com essa época levarem-no ao leito os incômodos de meu pai, impedindo-lhe as visitas do costume ao Ateneu. Eu pensava nos seus sofrimentos, e era isto mais um tema para as variações do misticismo.

A neblina de melancolia, baixada sobre o colégio da altura da cordilheira, repercussão da tristeza verde das matas, pesava-me aos ombros como a loba de um seminarista, como o voto de um frade; eu passeava na circunscrição do recreio como num claustro, olhando as paredes, brancas como túmulos caiados, limitando as preocupações do espírito à minha humilhação diante de Deus, sem olhar para cima, na modéstia curvada dos brutos — anulando-me a mim mesmo na angústia do pensamento religioso, como no saco de pano bicudo, preto, do farricoco.

O céu, que a imaginação buscara dantes, como os cânticos buscam os zimbórios, cala agora sobre mim como um solidéu de bronze.

Triste e feliz.

Ninguém sabia dos sonhos e atribuíam à excentricidade o meu amor à solidão e ao sossego.

Durante o hino do anjo da guarda, no recreio abrigado, ao meio-dia, os estudantes, afogueados e transpirando ainda dos folguedos, paletós empa-puçados sobre a cinta de couro, cabelos revoltos, não tomavam o rito a sério, e era a dureza dos vigilantes que os constrangia ao respeito daqueles dez minutos de religião. Só o Ribas e eu... e se não diminuíam as aflições da terra e os nossos apertos, não é que o não pedíssemos ao Anjo...

Cantávamos a primeira estrofe (o Ribas marcava o diapasão) e as seguintes, ate à última, que acabavam todas por uma longa nota esfusiada em foguete, cantávamos com um esforço de adoração que bem compensaria, em caso de balanço, a leviandade irreverente de todos os colegas.

O diapasão do Ribas era uma deliciosa nota, tratada a pastilhas, guardada a cachenê nos dias frios, furto sem dúvida ao tesouro de gorjeios de algum sabiá descuidado. Aristarco adorava esta nota. Às vezes, na aula de música chamava o Ribas e pedia-lhe aquela, aquela... a do hino...

Ribas candidamente, por agradar ao diretor, punha de fora a mimosa nota, como uma balinha de parto, cor de âmbar, na ponta da língua. Ao meio-dia era o momento. Ribas volvia os olhos e deixava partir, primeiro que todos, o preciso som. O colégio entoava depois, e as vozes iam todas, as nossas, em perseguição da primeira. Baldado esforço; que a do Ribas recolhia-se aos coros celestiais, festejada na cordialidade fraternal dos harmônicos, ao passo que as nossas, desenganadas, voltavam da investida num retrocesso icário, desmembradas, desengonçadas, espaços a baixo como um bando de garças tontas. A distancia, o conjunto podia passar por um cântico.

Uma hora de oração que aborrecia era a da noite, antes do recolher.

O movimento do dia sobrecarregava-nos com uma reação irresistível de fadiga. O sono chumbava-nos as pestanas como linhas de tarrafa. O harmônio da capela, dedilhado pelo Sampaio, hoje médico parteiro, e aplicado a extrair vagidos como outrora extraía os acordes

— produzia vagarosamente roncos de soneira da sesta de um tigre, fungados sonoros da digestão dormida de um abade. Alguns meninos cantavam cabeceando, desmaiando a voz em vastos bocejos. Nas primeiras linhas, dos pequenos, estavam muitos de olhos fechados, bem longe dos cuidados da prece. Eu gozava o prazer da mortificação, sustendo-me fervoroso durante a reza noturna.

Para isso, levava no bolso um punhado de pedrinhas, com que formava no soalho um genuflexório despertador, fitando arregaladamente os olhos, ardidos de sono, na lingüeta tiritante do fogo das velas...

Aludi várias vezes ao revestimento exterior de divindade com que se apresentava habitualmente Aristarco.

Era um manto transparente, da natureza daquele tecido leve de brisas trancadas de Gautier, manto sobrenatural que Aristarco passava aos ombros, revelando do estofo nada mais que o predicado de majestade, geralmente estranho à indústria pouco abstrata dos tecelões e à trama concreta das lançadeiras.

Ninguém conseguiria tocar com o dedo a misteriosa púrpura. Sentia-se, porém, o influxo da realeza impalpável.

Assim é que um simples olhar do diretor imobilizava o colégio fulminantemente, como se levasse no brilho ameaças de todo um despotismo cruento.

O diretor manobrava este talento de império com a perícia do corredor sobre o pur sang sensível.

A sala geral do estudo tinha inúmeras portas. Aristarco fazia aparições, de súbito, a qualquer das portas, nos momentos em que menos se podia contar com ele.

Levava as aparições às aulas, surpreendendo professores e discípulos. Por meio deste processo de vigilância de inopinados, mantinha no estabelecimento por toda a parte o risco perpétuo do flagrante como uma atmosfera de susto. Fazia mais com isso que a espionagem de todos os bedéis. Chegava o capricho a ponto de deixar algumas janelas ou portas como votadas a fechamento para sempre, com o fim único de um belo dia abri-las bruscamente sobre qualquer maquinação clandestina da vadiagem. Sorria então no intimo, do efeito pavoroso das armadilhas, e cofiava os majestosos bigodes brancos de marechal, pausadamente, como lambe o jaguar ao focinho a pregustação de um repasto de sangue.

Nos momentos de ira e de exaltações eloqüentes é que sabia fazer-se em verdade divino. Era mais que uma revelação temerosa do Olimpo; era como se Júpiter mandasse Mercúrio catar à terra os raios já disparados e os unisse ao estoque inavaliável dos arsenais do Etna, para soltar tudo, de uma só vez, de uma só cólera, num só trovão, aniquilando a natureza sob a bombarda onipotente.

Mas não somente parodiava ele os furores olímpicos Aquela alma dúctil de artista sabia decair até à blandícia, até à lágrima a propósito.

Júpiter guardava para a oportunidade a carícia de edredom, o gesto flexuoso do soberano cisne. Expandia-se às vezes sobre o Ateneu em rompimento de amor paterno, tão derramado, tão jeitosamente sincero, que não tínhamos remédio senão replicar no mesmo tom, por um madrigal de enternecimento de filhos.

E admirávamos.

A hora solene do meio-dia Aristarco aproveitava para distribuir uma merenda de conselhos, depois do canto e antes de outra de fatias, incomparavelmente mais bem recebida. Muitas vezes não eram só conselhos. Também reprimendas em massa por culpas coletivas, arrecadações de cigarros, ou pequenos processos sumários em que se averiguava a autoria de delitos importantes, como encher de papel picado uma sala, cuspir às paredes, molhar a privada, e mesmo muito mais graves, como num episódio do Franco, que se prende ao período beato das minhas reminiscências.

Assistia o Mestre com atenção do costume à reza cantada, fazendo girar nos dedos uma medalha do relógio sobre o colete, na abertura do fraque. Ao final, depois de um intervalo preparatório, aperitivo de emoções, tomou a palavra num tom solene de revelação e referiu, com toda a grandeza de que era suscetível, a hipótese, reclamando a indignação vingadora do Ateneu.

Franco, no domingo da véspera, aproveitando a largura da vigilância no dia vago, fora vadiar ao jardim. E para tomar água de um poço aí existente, cuja bomba não funcionava em regra, deliberou, imaginem! umedecer a bucha aspiradora com um líquido que Moisés seria capaz de obter no árido deserto, sem milagre mesmo e sem Horeb. Agora considerem que o referido poço fornecia água para a lavagem dos pratos.

Um murmúrio de horror elevou-se das alas de estudantes.

“Adianta-te, Franco”, mandou Aristarco.

Com a insensibilidade pétrea que o encouraçava para as humilhações, saiu Franco do lugar e de cabeça baixa, como um cão, foi parar no centro da sala. Ali esteve por alguns segundos, exposto, no meio do enorme quadrado de alunos. Os olhares caiam-lhe em cima, como os projéteis de um fuzilamento.

O que mais indignava, era pensar que se havia comido em pratos lavados depois da profanação irremediável da linfa. Passado este efeito, com que contava para a punição moral,

o diretor concluiu o libelo. Ficássemos tranqüilos, estavam puros os lábios. Franco tinha sido surpreendido por um copeiro que o prendera, e fora a bomba incontinenti declarada — interdita.

Muita gente duvidou da oportunidade da interdição. Limpavam com asco a língua no lenço, esfregavam a boca até esfolar.

“O porco!” bramia Aristarco. “O grandíssimo porco!” repetia como um deus fora de si. Em redor todos apoiavam a energia da corrigenda. Resolveu-se, porém, deixar com vida o criminoso.

Aristarco marcou apenas dez páginas de castigo escrito à noite, e passar de joelhos as horas de recreio, a começar da presente.

Formulado o veredicto, Franco caiu de rótulas no soalho com estampido, como se repentinamente se lhe houvesse estalado às pernas uma mola.

“Ai não! aqui, tratante! “ gritou o diretor, indicando a porta do salão. Cantava-se a oração do meio-dia, como sabem, na casa das recreações em dia de chuva, que alargava três boas portas para o pátio central. Aristarco estava perto da do meio.

De joelhos neste ponto, Franco, ao pelourinho: diante das chufas dos maus e da alegria livre de todos. Como esta porta era caminho dos rapazes até as bandejas onde se elevavam as pilhas sedutoras da merenda, ficava ainda o condenado com um reforçozinho de pena. Passando por ele, os mais enfurecidos deram empurrões, beliscaram-lhe os braços, injuriaram-no. Franco respondia a meia voz, por uma palavrinha porca, repetida rapidamente, e cuspia-lhes, sujando a todos com o arremesso dos únicos recursos da sua posição.

Até que um grande, mais estouvado, fê-lo cair contra o portal, ferindo a cabeça. A este, Franco não respondeu; pôs-se a chorar.

Os inspetores fiscalizavam o serviço do pão, prevenindo espertezas inconvenientes.

Escaparam-lhes os maus tratos.

As desventuras do pobre rapaz e as minhas próprias haviam-me levado para o Franco. Eu me constituíra para ele um quase amigo. Franco era silencioso, como arreceado de todos, tristonho, de uma melancolia parente da imbecilidade; tinha acessos refreados de raiva, queixas que não sabia formular. Os livros, causa primeira de seus desgostos, faziam-lhe horror. A necessidade de escrever por castigo promovera nele a habilidade dos galés: adquirira um desembaraço pasmoso na faina de encher de garranchos páginas e páginas. Esta interminável escrita fizera-lhe calos ao canto das unhas: meus dedos perderam o brio, dizia ele nos momentos de amargo humor, em que improvisava sarcasmos contra si mesmo.

A principio fugia de mim, resmungando coisas indecifráveis. Depois aceitou-me. Mas não excediam as suas confidências o restritíssimo limite de uns grunhidos de aversão, histórias de desastres pândegos que sabia, ingênuas observações a respeito de assuntos infantis, referências de ódio aos superiores.

Uma vez recebeu carta da província, uma das poucas que lhe chegavam por ano. Depois da leitura percebi que tinha lágrimas nos olhos. O pranto era-lhe um acontecimento na fisionomia, invariavelmente de uma pasmaceira de máscara de arame. Interessei-me por aquele sofrimento; ele deu-me a carta a ler. O pai do Franco era um pobre desembargador desterrado nos confins de Mato Grosso, com oito filhos. Uma carta dolorosa. Fora entregue diretamente pelo caixeiro do correspondente, escapando à curiosidade do diretor, que gostava de espiar a correspondência dos alunos. Falava em vir à corte no fim do ano, com todos os sacrifícios, falava em encontrar o filho bom menino, educado, estudioso. Contava depois, entre exclamações consternadas, que uma filha, a mais velha, desaparecera do colégio onde estava, em companhia de um professor de piano, homem casado, sendo encontrada três ou quatro dias depois ao abandono. Em vão tinham feito perguntas à infeliz no interesse da punição do culpado; sepultara-se a mocinha num mutismo desolador, como se houvesse perdido a voz, recusando alimento, não tirando do chão os olhos desvairados, escravos da contemplação demente da vergonha.

— Como tem descido Sérgio, lastimavam os inspetores, palestrando a ordem do dia com o diretor, é o intimo do Franco.

Ainda que isso não fosse rigorosamente exato, não foi surpresa para mim ver o excomungado convidar-me para uma extraordinária empresa à noite. “Vingar-me da corja!” murmurava, gargarejando um riso incompleto e azedo. Isto à tardinha, depois da ginástica, no mesmo dia do processo da bomba.

Conseguira no lusco-fusco escapar à sala onde o haviam encerrado para a tarefa das páginas. E juntos eu e ele, porque eu lhe aceitara o convite com uma facilidade que ainda hoje não compreendo, galgamos um canto de muro que havia no pátio e saltamos para o jardim florestal.

Embaixo das árvores era já noite espessa. Demos uma volta no escuro acompanhando a curva de uma alameda. O Franco ia adiante calado, andando leve e rápido como uma sombra no ar. Eu o seguia irresistivelmente como sonhando, num sonho de curiosidade e de espanto. Que ia fazer o Franco? Aonde ia ele? Chegamos ao capinzal, a um de cujos lados extremos ficava a natação. Logo ao portão de ingresso nesse terreno, havia um depósito de lixo, onde os jardineiros acumulavam as varreduras da chácara, negrejando putrefatas, virando estrume ao tempo.

Franco deteve-se junto ao monturo. Sempre em silêncio e ativamente, como para não perder aquele raro estimulo de vontade que o impelia, foi examinando o lixo com o pé.

A um canto, entre tocos de bambu, tiniram garrafas. Franco abaixou-se e como em ação mecânica, sem se voltar, apanhou uma garrafa, outra e outra; foi-me dando, sobraçou ainda outras e prosseguimos, o Franco adiante, leve e rápido, sempre no seu andar de sombra, como suspenso e difuso na névoa quase lúcida do campo aberto.

Atravessamos o capinzal quase sumidos entre as altas bandas de capim-d’angola, cuja escura vastidão se constelava de vaga-lumes e vibrava da grita intensa dos grilos e do clamor dos sapos. Diante da natação o Franco parou e me fez parar. “A minha vingança!” disse entre dentes, e me indicou a toalha d’água do grande tanque. A massa liquida, imóvel, na calma da noite, tinha o aspecto de lustrosa calçada de azeviche; algumas estrelas repetiam-se na superfície negra com uma nitidez perfeita.

Com o mesmo modo atarefado de todo aquele singular empreendimento, o Franco acercou-se de mim, tirou-me as garrafas que me dera e desapareceu da minha vista.

Eu ouvi que ele quebrava as garrafas uma por uma. Daí pouco reaparecia, trazendo as abas da blusa em regaço. E começou a lançar então com o maior sossego ao tanque, para todos os lados, aqui, ali, dispersamente, como semeando, as lascas do vidro que partira. Um breve rumor de mergulho borbulhava à flor d’água, abrindo-se em círculos concêntricos os reflexos do céu. Eu vi muitas vezes contra o albor mais claro do muro fronteiro, passando, repassando, a sombra do sinistro semeador.

“A minha vingança!” repetiu-me ainda o Franco. “Para o sangue, sangue, acrescentou com o risinho seco. Amanhã rirei da corja!... Trouxe-te aqui para que alguém soubesse que eu me vingo!”

Ao falar mostrava-me o lenço que enxugara o sangue do golpe à testa.

O justo terror da aventura, em lugar vedado, por aquelas horas, só me assaltou quando, a pular

o muro do pátio, fui cair entre as mãos do Silvino. Nos aparos da alhada, mal vi o Franco seguro pelo pescoço, como um ladrão em flagrante.

Em presença do diretor, no escritório inquisitorial improvisei uma mentira. Fôramos colher sapotis, afirmei explicando à tremenda argüição a estranheza da surtida. O diretor marcou a pena de oito páginas. Franco, que andava com um déficit de vinte pelo menos, teve de acrescentar mais estas ao passivo insolvável. Pela vergonha da tentativa de furto e no sistema dos castigos morais, adicionou-se a observação suplementar: passaríamos, os delinqüentes, no outro dia, as horas do almoço e do jantar, ao refeitório, de pé carregando em cada mão quantos sapotis coubessem.

Todo o requinte de punição não me deu cuidado; pelo contrário, estava nas condições do meu programa de pequeno mártir ad majorem gloriam. Ao deixar o escritório outra coisa preocupava-me. Ardia de remorsos; tinha cacos de garrafa na consciência. A armadilha sanguinária de Franco obsedava-me como um delito meu.

Depois das horas do serão de estudo, quando se retiravam os estudantes para os dormitórios, fiquei com o Franco a trabalhar. Tive que suspender, ao fim de quatro páginas. Devorava-me

o remorso como uma febre; aterrava-me a idéia do banho na manhã seguinte, os rapazes atirando-se à vingança pérfida, a água toldada de rubro. Impossível fazer mais uma linha. Deixei o companheiro e fugi para o salão dos médios.

A excitação recrudesceu; eu rolava na cama sobre um tormento de lascas cortantes. Que fazer? Denunciar o Franco de madrugada? Correr, às escuras, e abrir o escoadouro ao tanque? Prevenir aos colegas pedindo que espalhassem? A controvérsia avultava-me no crânio como uma inchação de meninges. Dar-se-ia caso que Franco, possuído de arrependimento, fosse apresentar cedinho aos inspetores a delação do próprio feito? Cheguei a tentar o engodo da consciência com a ponderação de que talvez não saltassem ao tanque muitos de uma vez, e o primeiro ferido salvaria os outros. Mas a febre vencia, com a perspectiva do sangue. Dez, vinte, trinta rapazes, à borda, gemendo, extraindo dificilmente da carne as lascas encravadas! E eu, cúmplice, que o permitira, e maior culpado, que me não cegava a razão, em suma, de justa desforra...

Ergui-me da cama, e descalço nas tábuas frias, para ver se me acalmava o mal-estar, errei pelos salões adormecidos.

Os colegas, tranqüilos, na linha dos leitos, afundavam a face nas almofadas, palejante da anemia de um repouso sem sonhos. Alguns afetavam um esboço comovedor de sorriso ao lábio; alguns, a expressão desanimada dos falecidos, boca entreaberta, pálpebras entrecerradas, mostrando dentro a ternura embaciada da morte. De espaço a espaço, os lençóis alvos ondeavam do hausto mais forte do peito, aliviando-se depois por um desses longos suspiros da adolescência, gerados, no dormir da vigília inconsciente do coração. Os menores, mais crianças, conservavam uma das mãos ao peito, outra a pender da cama, guardando no abandono do descanso uma atitude ideal de vôo. Os mais velhos, contorcidos no espasmo de aspirações precoces, vergavam a cabeça e envolviam o travesseiro num enlace de carícias. O ar de fora chegava pelas janelas abertas, fresco, temperado da exalação noturna das árvores; ouvia-se o grito compassado de um sapo, martelando os segundos, as horas, a pancadas de tanoeiro; outros e outros, mais longe. O gás, frouxamente, nas arandelas de vidro fosco, bracejando dos balões de asa de mosca, dispersava-se igual sobre as camas. doçura dispersa de um olhar de mãe.

Que venturosa segurança naquele museu de sono! E amanhã, pobres colegas! o banho, a volta, pés ensangüentados, listrando de vestígios vermelhos o caminho!

Voltei ao meu salão. Tirei da gaveta a imagem de Santa Rosália; beijei-a com lágrimas, pedi conselho como um filho. A inquietação não passava. Atravessei ainda os dormitórios, devagarinho, que me não ouvisse o Margal, acomodado num biombo a um dos ângulos do salão azul. Uma crepitação dos ossos do tornozelo esteve a ponto de me comprometer. Dentro do biombo, tossiram; parei um momento; curou-se a tosse; prossegui.

Desci ao primeiro andar do edifício; entrei na capela.

A capela em trevas, de um negrume absoluto de merinó preto. A escuridão dava-lhe uma amplitude de subterrâneo, misteriosamente sentida no espaço. Não tive medo. Fui até ao altar. Tropecei no estrado. Ajoelhei-me no chão e descansei a testa nos braços a um dos ângulos do estrado do oratório. Rezei.

Na qualidade de mau estudante não sabia até ao fim nenhuma oração. Rogava por minha conta, improvisando súplicas, veementes, angustiosas, que deviam forçar a ombro a porta de São Pedro. Implorava de Deus diretamente, sem o intermediário empenho da minha padroeira. Até que, não posso dizer como, adormeci.

Uma palmada acordou-me. Era dia. Ergui-me vexado, de camisola, diante do Margal e de uma porção de colegas que miravam. “É sonâmbulo, é sonâmbulo”, explicavam.

Esta saída dispensava-me de dizer a que fora ali; encampei a explicação, concordando. “Que horas são?” perguntei. “Seis horas, responderam. Chegamos agora mesmo do banho.” Tinham os cabelos empastados sobre os olhos. “E os cacos?!” gritei espavorido. Examinei os pés dos companheiros. Nas chinelas com que desciam ao banho não via sangue! Esclarecia-se: houvera ordem de banhos de chuva no competente banheiro, alojado em um dos cômodos baixos do Ateneu, pelo motivo de ter servido seis vezes a água da natação. Graças ao Senhor! Vinha-me do céu esta solução de águas sujas, alcançada pela minha prece. Dilatou-se-me a alma em ditoso alívio.

À minha interjeição explosiva de cacos, os colegas supuseram tontura de sono. Não assim o inspetor, que me chamou a indagar. Nova mentira: durante a escapada dos sapotis, uma garrafa, que arremessei de mau jeito, fizera-se em cacos contra o muro, sobre o tanque. Providenciou-se. O criado encarregado de varrer o tanque, com o zelo da domesticidade, chamou atenção para o número dos fragmentos; tão extraordinária era a hipótese da intenção perversa que não pegou.

No mesmo dia estive com o Franco, durante os recreios, a completar a pena. Não me disse palavra acerca da decepção da sua vingança. Julgando-se comprometido, concentrava-se na insensibilidade de carapaça que o defendia, esperando tudo, a minha delação, uma trovoada de doestos, a cafua, um acréscimo ao déficit permanente da divida penal. Aborrecia-se, porém, da necessidade de ser punido por um fiasco de tentativa.

Quanto ao requinte da exposição no refeitório, mãos cheias de sapotis, não houve meio de obrigar-me Aristarco. Concordara em ficar de pé; não era pouco. Franco naturalmente submeteu-se e lá esteve, braços abertos, a fazer de fruteira no interesse do sistema das punições morais. Tanto melhor para o sistema.

À vista da relutância, calculou-se em páginas de escrita quanto podiam valer dois punhados de sapotis; redução difícil, que a justiça colegial alcançou matematicamente, pronunciando uma condenação que me daria que fazer até mais de meia-noite.

Este rasgo de vigor mentia ao meu religioso papel de submissão e sofrimento. Foi o repentino prenúncio de próxima reforma no interior espiritual. E, como as evoluções da vontade sabem extrair de qualquer fato a hermenêutica do determinismo, deu-se imediatamente uma ocorrência que ponderou muito na transformação.

De noite, novamente ao lado do Franco, a fatigar-me na tarefa das páginas, tive que ficar até tarde numa das salas do primeiro andar. Pelas dez e meia, o diretor, antes de sair para casa, veio ver-nos. “Ainda escrevem... estes peraltas?...” disse-nos de enorme altura, à guisa de boas-noites, e desapareceu confiando-nos ao amável João Numa, bácoro, inspetor das salas de cima. Na sua qualidade de gorducho, o João não era diligente. Apenas viu parar Aristarco, trancou a última porta do Ateneu e foi dormir.

Acabrunhado pela noitada anterior, estava eu de sono que mal podia erguer a cabeça. De uma vez que cedi ao cansaço fui despertado por sentir que me alisavam a mão. Adormecera sobre

o braço direito contra a carteira, pousando o rosto na tinta do castigo, deixando cair o braço esquerdo para o banco. Um instante depois estava fora da sala, de um pulo, como se tivesse reconhecido em sonhos que o Franco era um monstro.

Ao dia imediato saí da cama como de uma metamorfose. Imaginei, generalizando errado, que a contemplação era um mal, que o misticismo andava traidoramente a degradar-me: a convivência fácil com o Franco era a prova. O Ateneu honrava-me, por esse tempo, com um conceito que só depois avaliei. Eu não me julgava assim tão apeado, mas supus-me diretamente a caminho de um mergulho. Se a alma tivesse cabelos, eu registraria neste ponto um fenômeno de horripilação moral.

Fiquei perplexo.

O triunfo na escola podia ser o Sanches; em compensação, a humildade vencida era o Franco. Entre os dois extremos repugnantes, revelavam-se-me três amostras típicas à linha do bem viver: Rebelo, um ancião; Ribas, um angélico; Mata, o corcunda, um policia secreta. Para angélico decididamente não tinha jeito, estava provado, nem omoplatas magras; para ancião, não tinha idade, nem óculos azuis, nem mau hálito; para ser o Mata, faltava-me o justo caráter e a corcova... Onde estava o dever? Na cartilha? Na opinião de Aristarco? Na misantropia senil dos óculos azuis?

Salteou-me nisto, às avessas, o relâmpago de Damasco: independência.








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