Raul Pompeia - O Ateneu - 06 / 12









O Ateneu, de Raul Pompéia


VI


O futuro tinha reservado para Nearco um feixe de melhores palmas, uma galhada de louros mais legítimos como tempero de vitória.

O Grêmio Literário Amor ao Saber, instituição recente, seria o verdadeiro teatro dos seus soberbos alcances.

Duas vezes ao mês congregavam-se os amigos das letras, numa das salas de cima; a mesma das lições astronômicas de Aristarco. Havia ainda para iluminar as sessões pedaços de matéria cósmica pelos cantos, esfrangalhada pela análise do mestre. Não quer dizer que merecesse as eternas luminárias da ironia a benemérita associação.

Às suas reuniões comparecia eu timidamente, para nada mais que simplesmente abusar, por excessivo consumo, de um direito dos estatutos: podiam os alunos, todos do Ateneu, em silêncio humilde, mariscar o que fossem deixando os segadores do trigal das literaturas.

Assistente infalível, saia cheio com a retórica espigada, que ia espalmar, prensando no dicionário, conservas de espírito, relíquia inapreciável do Belo.

A dificuldade que encontrava um estudante para forrar-se ao privilégio de gremista, fazia-me mais a fundo venerá-lo.

Nearco não teve o menor embaraço. Entrara para o estabelecimento muito adiantado. Foi imediatamente proposto, aceito e empossado. À primeira sessão, depois do triunfo ao trapézio, tive ocasião de apreciá-lo à ginástica do verbo.

Debatia-se este problema, dos inesgotáveis das agremiações congêneres. Quem foi maior, Alexandre ou César? indagação histórica difícil evidentemente de levar a cabo sem o auxilio da trena.

Nearco arranjou a coisa a olho e distinguiu-se com a esperada galhardia. Falou durante hora e meia com uma fluência que lhe angariava para sempre o epíteto de facundo. Justapôs com o primor de um varejista de fazendas — César sobre Alexandre. César protestou contra a maneira, de barriga para o ar, que nada tinha de artística; além disso espetava-o a armadura de Alexandre. Aquilo faria rir a Pompeu no armário das legendas e a maledicência do senado, comprometendo-se a seriedade secular do homem que foi, viu e venceu... Nearco manteve-o inexoravelmente durante o percurso do paralelo critico. César não podia contar com os legionários do bom tempo; ali esteve a fazer caretas na sujeição inerme, anima vilis dos documentos. Alexandre, que afora o capacete, via-se ainda maiorzinho que o outro, teve mais paciência, deixando-se medir até à peroração, com a boa vontade de um defunto. Venceu com efeito. Nearco proclamou-o magno dos magnos, diversas polegadas maior que o temerário do Rubicon.

O Grêmio esclarecido rejubilou. A discussão encerrou-se, não havendo mais quem falasse. Também havia cinco sessões que eram os pobres guerreiros tratados a metro.

Por este memorável dia arvorou-se Nearco em notabilidade firmada. Esqueceram todos que ele fora matriculado sob o quase compromisso de não dar um passo que não fosse um salto-mortal, não descansar senão de pernas para cima em cadeiras equilibradas sobre garrafas, não ter outro recreio que não fosse a corda bamba, por não destoar da percorrida fama. Ficou em olvido a estréia acrobática. O Grêmio Amor ao Saber tomou-o a si, em posse exclusiva, como um orgulho.

Não faltavam, entretanto, poetas, jornalistas, polemistas, romancistas, críticos, folhetinistas. A sociedade tinha o seu órgão, O Grêmio, impresso no Lombaerts, de que podiam ser canudos à vontade os sócios quites e ainda, por maior riqueza de harmonias, os honorários.

Entre os honorários figurava Aristarco, presidente, colaborando sempre no periódico com a transcrição em avulso das máximas de parede, e mandando sempre para a quarta página um anúncio garrafal do Ateneu, que pagava para auxiliar à empresa. Na interessante publicação apareciam quadrinhas místicas do Ribas e sonetos lúbricos do Sanches. Barreto publicava meditações, espécie de harpa do crente em prosa arrebentada.

O rodapé-romance era uma imitação d’O Guarani, emplumada de vocábulos indígenas e assinada — Aimbiré.

Nearco atirou-se à especialidade dos paralelos. Começou logo por dois de pancada: Cila e Mário, Tito e Nero. No expediente prometia-se um terceiro curiosíssimo: Plutarco e os beócios.

Esta queda para as linhas eqüidistantes, talento aliás de carril urbano e anexos muares, foi mais uma razão de prestigio para o extraordinário rapaz.

A eloqüência representava-se no Grêmio por uma porção de categorias. Cícero tragédia — voz cavernosa, gestos de punhal, que parece clamar de dentro do túmulo, que arrepia os cabelos ao auditório, franzindo com fereza o sobrolho, que, se a retórica fosse suscetível de assinatura, acrescentaria ao fim de cada discurso pesadamente: a mão do finado; Cícero modéstia — formulando excelentes coisas, atrapalhadamente, no embaraço de um perpétuo début, desculpando-se muito em todos os exórdios e ainda mais em todas as confirmações, lágrimas na voz, dificuldade no modo, seleto e engasgado; Cícero circunspecção — enunciando-se por frases cortadas como quem encarreira tijolos, homem da regra e da legalidade, calcando os que e os CUJO, longo, demorado, caprichoso em mostrar-se mais raso do que o muito que realmente é, amigo dos períodos quadrados e vazios como caixões, atenuando mais em cada conceito a atenuante do conceito anterior, conservador e ultramontano, porque as coisas estabelecidas dispensam de pensar, apologista ferrenho de Quintiliano, retardando com intervalos o discurso impossível para provar que divide bem a sua elocução, com todos os requisitos da oratória, pureza, clareza, correção, precisão, menos uma coisa — a idéia; Cícero tempestade — verborrágico, por paus e por pedras, precipitando-se pela fluência como escadas abaixo, acumulando avalanches como uma liquidação boreal do inverno, anulando o efeito de assombroso destampatório pelo assombro do destampatório seguinte, eloqüência suada, ofegante, desgrenhada, ensurdecedora, pontuada a murros como uma cena de pugilato; Cícero franqueza — positivo, indispensável para o encerramento das discussões, dizendo a coisa em duas palavras, em geral grosseiro e malfalante, pronto para oferecer ao adversário o encontro em qualquer terreno, espécie perigosa nas assembléias; Cícero sacerdócio — sacerdotal, solene, orando em trêmulo, alçando a testa como uma mitra, pedindo uma catedral para cada proposição, calçando aos pés dois púlpitos em vez de sapatos, espécie venerada e acatada.

Nearco introduziu o tipo ausente do Cícero penetração — incisivo, fanhoso e implicante, gesticulando com a mãozinha à altura da cara e o indicador em croque, marcando precisamente no ar, no soalho, na palma da outra mão o lugar de cada coisa que diz, mesmo que se não perceba, pasmando de não ser entendido, impacientando-se até ao desejo de vazar os olhos ao público com as pontas da sua clareza, ou derreando-se em frouxos de compaixão pela desgraça de nos não compreendermos, porcos e pérolas.

O gesto incisivo, mais a facúndia desimpedida, mais o talento histórico dos paralelos, consagrou a primazia do gremista.

O presidente efetivo da sociedade era o Dr. Cláudio, professor da casa, homem de capacidade, benévolo para os desgarros de tolice da juventude, que teria desgosto para uma semana, se imaginassem que faltara a uma sessão por menosprezo. Esta constância do chefe era o grande elemento de prosperidade do Amor ao Saber. O Dr. Cláudio conduzia os trabalhos com verdadeira perícia de automedonte, esclarecia os imbróglios, forjava adjetivos de encômio que ia dando a cada um por sua vez e a todos os estimáveis consócios, propunha algumas teses e achava graça em outras. Nas sessões solenes pronunciava o discurso oficial.

A maior utilidade do Grêmio para mim era a biblioteca. Uma coleção de quinhentos a seiscentos volumes de variado texto, zelados pela vigilância cerberesca do Bento Alves, bibliotecário, eleito de voto unânime.

Alves era da associação como quase todos os alunos do curso superior. Filiava-se ao grupo simpático dos silenciosos, usufruindo os lucros da circunstância de não ser do regimento a taramela obrigatória. Fora da biblioteca, os seus serviços aos intuitos do Grêmio resumiam-se no apoiado! consciencioso e firme, à disposição sempre da melhor idéia em questões elevadas, e do mais sábio alvitre em questões de ordem.

Alguns rapazes, não do Grêmio, e que não houvessem, nas letras, manifestado gramaticalmente notável jeito para a conjugação sub-reptícia do verbo adquirir, podiam obter do presidente o direito de ingresso na sala dos livros. Eu, como amigo que era das bonitas páginas impressas, apresentei candidatura. E como não divertia bastante o jogo da barra ao sol, nem o rapa-tira-deixa-põe das penas de aço e das carrapetas, nem o correr à panelinha das bolas de vidro espiraladas de cores, fez-se-me a biblioteca a recreação habitual.

Esta freqüência angariou-me dois amigos, dois saudosos amigos — Bento Alves e Júlio Verne.

Ao famoso contador do Tour du Monde devo uma multidão numerosa dos amáveis fantasmas da primeira imaginação, excêntricos como Fogg, Paganel, Thomas Black, alegres como Joe, Passepartout, o negro Nab, nobres como Glenarvan Letourneur, Paulina Barnett, atraentes como Aouda, Mary Grant. Sobre todos, grande como um semideus, barba nitente, luminosa como a neblina dos sonhos, o lendário Nemo da Ilha Misteriosa, taciturno da lembrança das justiças de vingador, esperando que um cataclismo lhe cavasse um jazigo no seio do Oceano, seu vassalo, seu cúmplice, seu domínio, pátria sombria do expatriado.

Possuía minha literatura completa de tesouros de meninos, contos de Schmidt; visitara uma por uma no meu burrinho as feiras da sabedoria de Simão de Nântua; estudara profundamente pelas aventuras de Gulliver as vacilações da vida, onde, mal acabamos de zombar da pequenez extrema, vem sobre nós o ludibrio da extrema grandeza, espécie de Pascal de mamadeira entre Liliput e Brobdingnak; chegara à perfeição de duvidar das empresas de Münchhausen. Isto tudo sem falar nos Lusíadas do Sanches, no reverendo Bernardes, na refinada pilhéria do Bertoldo e no Testamento do Galo, símbolo aliás muito filosófico da odiosidade das sucessões, que por ventura do herdeiro autoriza o destripamento do galináceo como a tortura skakespeariana de Lear.

Júlio Verne foi festejado como uma migração de novidade. Onde quer que me levasse o Forward ou o Duncan, o Nautilus ou o balão Vitória, a columbíada da Florida ou criptograma de Saknussen, lá ia eu, esfaimado de desenlaces, prazenteiro, ávido como os três dias de Colombo antes da América, respirando no cheiro das encadernações as variantes climatéri-cas da leitura, desde as areias africanas ate aos campos de cristal do Ártico, desde os grandes frios siderais até à aventura do Stromboli.

A amizade do Bento Alves por mim, e a que nutri por ele, me faz pensar que, mesmo sem o caráter de abatimento que tanto indignava ao Rebelo, certa efeminação pode existir como um período de constituição moral. Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse animo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse dele os meus olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro de educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquela timidez, em vez de alertar, enternecia-me, a mim que aliás devia estar prevenido contra escaldos de água fria. interessante é que vago elemento de materialidade havia nesta afeição de criança, tal qual se nota em amor, prazer do contato fortuito, de um aperto de mãos, da emanação da roupa, como se absorvêssemos um pouco do objeto simpático.

Na biblioteca, Bento Alves escolhia-me as obras: imaginava as que me podiam interessar; e propunha a compra, ou as comprava e oferecia ao Grêmio, para dispensar-se de mas dar diretamente. No recreio não andávamos juntos; mas eu via de longe o amigo, atento, seguindo-me o seu olhar como um cão de guarda.

Soube depois que ameaçava torcer o pescoço a quem pensasse apenas em me ofender; seu irmão adotivo! confirmava.

Eu, que desde muito assumira entre os colegas um belo ar de impávida altania, modificava-me com o amigo, e me sentia bem na submissão voluntária, como se fosse artificial a bravura, à maneira da conhecida petulância feminina.

A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo de represália do Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicência, digna deles.

Às vezes na biblioteca, enquanto eu lia, Alves olhava-me do outro lado da mesa central de pano verde, com a mão à fronte e os dedos mergulhados nos cabelos. Olhava-me e eu o sentia sem levantar a vista, compreendendo no mais fino refolho de ninada vaidade que aquela contemplação traduzia o horror do ridículo, proverbial em Bento Alves, manietando-lhe rijamente uma demonstração efusiva. Não fosse a critica uma criatura do tempo, eu poderia achar cômica a situação dos personagens desta cena de platonismo. Não havendo a critica para falsear a psicologia por desdobramento, limitava-me a ser sincero, como o pobre amigo. Às vezes vinha-lhe a pálpebra uma lágrima sem origem.

No movimento geral da existência do internato, desvelava-se caprichosamente; sabia ser, de modo inexprimível, fraternal, paternal, quase digo amante, tanta era a minudência dos seus cuidados. Não havia regalo, dessas mesquinhas coisas de preço enorme na carestia perpétua da prisão escolar, de que se não privasse o Alves, em meu proveito, desesperando-se, a fazer pena, se eu tentava recusar. À conversa, falava da família no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs; falava delas, do tempo passado que não as via, muito claras, de belos olhos, uma de quinze anos, outra de doze; ele tinha dezoito. Falava de cuidados higiênicos meus, mudar de cama no salão azul, que estava muito perto das janelas, e isto havia de ser nocivo... Outras ninharias, em tom de sentida brandura, como se desejasse decrescer das proporções sólidas de sua conformação para reduzir-se à exigüidade balbuciante de uma carcaçazinha de avó, minguada de velhice, animada, ainda e apenas, pela febre do último alento, pela necessidade de carregar ainda alguns dias um coração, um afeto.

Os estatutos do Grêmio marcavam duas ocasiões de solenidades: as festas anuais de abertura e do encerramento dos trabalhos. Além destas, as sessões comemorativas que a casa resolvesse.

Para as festas literárias, levava-se ao pavilhão do recreio um grande estrado, três mesas que se alinhavam para a diretoria, sob um rico pano cor de vinho, de ramagens negras que lembravam tinteiros entornados de mau agouro, e uma tribuna familiarmente apelidada caranguejola.

Esta caranguejola, enorme e pesada, que parecia protestar, a cada solavanco, contra o caráter de móvel que lhe queriam à força impingir, fazia figura em todas as salas do Ateneu, conforme as exigências da retórica. Localizada a conferência, a preleção, a prática solene, abalava-se a mísera e punha-se em caminho, aos encontrões, seguindo o fadário de mostrador ambulante de eloqüência. Nestas circunstâncias não era uma simples tribuna, era um verdadeiro prognóstico. Em se movendo a caranguejola, discurseira iminente. Teve um dia de razoável orgulho: dela serviu-se no Ateneu o Professor Hartt, para uma conferência de antropologia.

Quando a vimos andar um dia e soubemos que aquilo significava a instalação do Amor ao Saber, congregou-se o Ateneu, unificado no mesmo impulso de entusiasmo, e pela primeira vez a tribuna marchou sem o ceri-monial das topadas. Despedimos os criados. tomamo-la nós aos ombros: levamo-la em ovação.

A festa inaugural esteve animada. Mais do que se esperava, infelizmente.

Encheu-se de bancos e cadeiras austríacas o vastíssimo salão. Ao centro, em frente, a mesa da diretoria; à esquerda, os convidados; à direita, os outros alunos, o resto, como se diz das maiorias, sem voz ativa.

Sobre o pano avinhado de ramagens, abria-se a pasta do secretário; sobre a tribuna cintilava cristalino o copo das urgências instantes.

Poucos oradores. Aristarco, presidente honorário, abriu a sessão com a chave do peregrino verbo, recomendando a nova associação como um tentame honroso e de muito fruto para os moços aplicados, que teriam ensejo de se dar ao cultivo da oratória e das belas-letras.

Subiu em seguida à tribuna o presidente efetivo.

Com a facilidade da sua elocução, fez o Dr. Cláudio a critica geral da literatura brasileira: a galhofa de Gregório de Matos e Antônio José, a epopéia de Durão, o idílio da escola mineira, a unção de Sousa Caldas e S. Carlos, a influência de Magalhães, os ensaios do romance nacional, a glória de Gonçalves Dias e José de Alencar.

E passou a estudar a atualidade.

O auditório que escutava, interessado, mas tranqüilo, começou a agitar-se.

O orador representava a nação como um charco de vinte províncias estagnadas na modorra peludosa da mais desgraçada indiferença. Os germes da vida perdem-se na vasa profunda; à superfície de coágulos de putrefação, borbulha, espaçadamente, o hálito mefítico do miasma, fermentado ao sol, subindo a denegrir o céu, com a vaporização da morte. Os pássaros calados fogem; as poucas árvores próximas no ar parado, debruçam-se uniformes sobre si mesmas num desanimo vegetativo, que parece crescer, descendo, — prosperidade melancólica de salgueiros. O horizonte limpo, remato, desfere golpes de luz oblíqua, reptil, que resvalam, espelhando faixas paralelas, imóveis, sobre o dormir da lama.

Por entre os raros caniços, emergem olhos de sapo, meditando a vantagem daquela paz sombria, indolência negra, em que chega a ser vigor de vontade estrebuchar quatro arrancos através da onda grossa em busca da fêmea. A arte significa a alegria do movimento, ou um grito de suprema dor nas sociedades que sofrem. Entre nós, a alegria é um cadáver. Ao menos se sofrêssemos... A condição da alma é a prostração comatosa de uma inércia mórbida. Quem nos dera a tonicidade letal de uma vasca. Trituramos a vida por igual como um osso; roemos o dia, pacientes, de rojo, sobre o ventre, como cães ao pasto. Fosse manjar o crânio de Rogério, ao menos teríamos a tragédia... Nada! A condição é o descanso ininterrupto do aniquilamento no plano infinito da monotonia. E não é o teto de brasa dos estios tropicais que nos oprime.

Ah! como é profundo o céu do nosso clima material! Que irradiação de escapadas para o pensamento a direção dos nossos astros! O pântano das almas é a fábrica imensa de um grande empresário, organização de artifício, tão longamente elaborada, que dir-se-ia o empenho madrepórico de muitos séculos, dessorando em vez de construir. É a obra moralizadora de um reinado longo, é o transvasamento de um caráter, alargando a perder de vista a superfície moral de um império — o desmancho nauseabundo, esplanado, da tirania mole de um tirano de sebo!...

Calculem agora que estava entre os convidados o Dr. Zé Loto, pai de um aluno, devoto jurado e confirmado das instituições, irmão de não sei quantas ordens terceiras, primo de todos os conventos, advogado de causas religiosas, conservador em suma, enraivado e militante. O sebo da tirania caiu-lhe nos melindres como um pingo de vela benta.

“Protesto!” rugiu, rubro e rouquenho, dilacerando as barbas e erguendo o punho. Não podia admitir que viessem à sua vista ensebar as instituições! Por maior desgraça estava também presente o Senador Rubim, avó de outro aluno, senador de maus bofes, um pai da pátria padrasto, sem considerações nem papas na língua.

“Quem protesta contra o sebo da tirania é barro! “ redargüiu ao apartista com a pachorra temível dos velhos insolentes.

— Burro, não! clamou o outro, empalidecendo sob a vergasta da injúria, nervoso, perturbado pela atenção da sala inteira que o encarava. Burro, não! tais expressões são indignas de V. Ex.a, um senador e um velho!...

— Burro, sim!... repetia o outro vagarosamente, com um arreganho enfastiado de insulto. Burro, sim!...

Aristarco conservava-se a presidência, na pasmaceira de pau dos ídolos afrontados. O salão enorme, alunos e convidados, tumultuava em vagalhões, fragmentado em partidos opostos, uns pelo senador e pela anarquia, outros pelo advogado e pela ordem pública. Muitos gesticulavam de pé; havia estudantes gritando em cima dos bancos. Os insultos voavam como pelouros; os protestos rangiam como escudos feridos; havia mãos pelo ar que pediam espadas.

Aproveitando-se do escarcéu, o advogado ousara arremessar uns desaforos ao senador. O outro, sem ouvir bem, ia replicando com a impertinência do seu estribilho: “Burro, sim”, até que, impaciente, pôs remate à polêmica com as cinco letras da energia popular que Waterloo fez heróicas, Vítor Hugo fez épicas e Zola fez clássicas.

Sob o peso da conclusão, Zé Loto cedeu.

Aristarco achou que era tempo de funcionar a presidência e sacudiu sobre o tumulto o badalo da ordem.

O orador na tribuna, ereto e calmo, promontório sobre a tormenta, esperava que o alvoroço chegasse a termo. Apenas viu arrefecer o furor dos impropérios: “Corramos um véu sobre o cenário desolador”, continuou; “venha em socorro a esperança de um renascimento”. E por ai habilidosamente conduzindo a oração, acabou por um quadro de futuro, armado em aurora sobre a tribuna, pórtico de luz, jorrando um deslumbramento que extasiou os ouvintes com o encanto dos vaticínios felizes, levando o sopro da viração matutina as nuvens do desanimo esfumadas antes sobre o panorama.

Tiveram a palavra, ainda, dois estudantes, que moeram uma quantidade profusa de frases comuns a propósito de letras e literatos. O filho do diretor, o republicanozinho que conhecem, tinha no bolso dez tiras, dez brulotes de eloqüência incendiária, que resolveu sufocar depois do escândalo colossal do sebo.

A segunda sessão solene do Grêmio, conquanto mais pacifica, não foi menos importante.

Realizou-se em princípios de outubro, pelas imediações das férias. A concorrência foi maior, compareceram senhoras em grande número, o que não sucedera na de instalação; houve mais capricho de ornatos nas salas; forrou-se a tribuna de verde e amarelo; inscreveram-se os mais aproveitados campeões da oratória do Amor ao Saber. O colégio compareceu fardado; a diretoria, de casaca.

A conferência do Dr. Cláudio foi subversiva, mas em sentido diverso da primeira. Versou não mais sobre a literatura no Brasil, porém sobre a arte em geral:

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Arte, estética, estesia é a educação do instinto sexual.

A manutenção da existência indivídua tem a razão de ser no instinto de vitalidade da espécie. O momento presente das gerações nada mais é que a ligação prolífica do passado com a posteridade. E a razão de ser das espécies? A indagação não perscruta.

Para que o indivíduo perdure, momento genésico da existência especifica no tempo, é indispensável adaptar-se as imposições do meio universal. O rio a correr não despreza o detalhe do mais insignificante remanso, nem pode sofismar o obstáculo do menor rochedo no alvéu. O critério inconsciente do instinto é o guia da adaptação.

O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até o movimento do enfermo, no leito de agonia, buscando uma posição mais cômoda para morrer, é a seleção do agradável. Os sentidos são como as antenas salvadoras do inseto titubeante; vão ao encontro das impressões, avisadores oportunos e cautelosos.

A cada mundo de sensações notáveis corresponde um sentido. Os sentidos, teoricamente delimitados, são cinco, múltipla transformação de processo de um único — o tato, exatamente

o sentido rudimentar das antenas.

Faz-se, tateando instintivamente à procura dos agradáveis: agradável visual, agradável gustativo, agradável tangível, em suma. O agradável é essencialmente vital; se é às vezes funesto, é porque o instinto pode ser atraiçoado pelas ilusões.

A perfectibilidade evolutiva dos organismos em função, manifestando. se prodigiosamente complexa, no tipo humano, corresponde à revelação, na ordem animal, do misterioso fenômeno personalidade, capaz de fazer a critica do instinto, como o instinto faz a critica da sensação.

A informação de reportagem de cada sentido não desperta, portanto, no homem a atividade cerebral dos impulsos de preferência, de repugnância, simplesmente, como nos outros animais; mas amplia, pela psicologia inteira dos fenômenos espirituais, a variedade infinita das comparações, permutadas de mil modos na unidade do espírito como as peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo pano.

Duas são as representações elementares do agradável realizado: nutrição e amor.

Os animais inferiores, não favorecidos por um razoável coeficiente de progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade; olham, tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrúpulo e devoram grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.

O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução histórica da humanidade.

A nutrição reclamou a caçada fácil — inventaram-se as armas; o amor pediu um abrigo, ergueram-se as cabanas. A digestão tranqüila e a perfilhação sem sobressaltos precisaram de proteção contra os elementos, contra os monstros, contra os malfeitores, — os homens tacitamente se contrataram para o seguro mútuo, pela força maior da união: nasceu a sociedade, nasceu a linguagem, nasceu a primeira paz e a primeira contemplação. E os pastores viram pela vez primeira que havia no céu a estrela Vésper, expandida e pálida como

o suspiro.

Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos leões, e que houvesse marfim, metais luzentes, pedraria, sobre a alvura láctea da carne amada, que não bastavam beijos para vestir; era preciso deliciar a gustação, como requinte das estranhezas. E os homens levaram a conquista aos reis da floresta, ao ventre do solo; foram colher aos ares os íncolas mais raros, emplumados de luz como criações canoras do sol; e foram buscar às ondas os mais esquivos viajores do abismo, singrando céleres, fantásticos, na sombra azul, em cauda um reflexo vago de escamas, — para morder-lhes a vida.

Urgiu ainda a fome, urgiu mais o amor e veio a guerra, a violência, a invasão. Curvaram-se os cativos ao látego vencedor e foram abatidas as escravas sob a garra da lascívia sanguinária, faminta de membros avulsos, olhos sem alma, lábios sem palavra, formas sem vontade, pretexto miserável de espasmos. Formaram-se os ódios de raça, as opressões de classe, as corrupções vingadoras e demolidoras.

Mas a cisma evoluiu também, aquela cisma poética da pastoral primeva que buscara os astros no céu para adereço dos idílios. O fundo tranqüilo e obscuro das almas, aonde não chega o tumultuar de vagas da superfície inflamou-se de fosforescências; geraram-se as auréolas dos deuses, coalharam-se os discos das glórias olímpicas: as religiões nasceram.

Mas era preciso que fosse palpável o espectro da divindade; as rochas descascaram-se em estátuas, os metais se fizeram carne e houve cultos, houve leis, vieram profetas e pontífices ambiciosos. E esta evolução da cisma que fora amante, feita instrumento da tirania, deu lagar às práticas do terror, aos apostolados do morticínio.

Mas uma lira ficara da geração primeira de cismadores, e as cordas cantavam ainda e os sons falaram no ar as epopéias do Oriente e da Grécia. Roubou-se aos sacerdotes tiranos o monopólio dos deuses para jungi-los à atrelagem do metro; que levassem através dos séculos,

o carro triunfal da estrofe, onda sonora de vibrações imortais.

E os esculpidores dos ídolos legaram o segredo da fábrica revelando que vinham de um molde de barro aquelas arrogâncias de bronze, que se fazem deuses como as ânforas. E os artistas modernos recomeçaram, chamando a religião ao atelier, como um modelo de hora paga; e gravaram em tinta, pelos muros, as visões místicas da crença.

A nitidez artística das formas fizera crer aos homens que morava realmente um espírito sagrado na porosidade do mármore, e que realmente havia em proporções infinitas uma tela de olimpos e paraísos, onde as cores do antropoformismo artístico viviam soberanas, olhando

o mundo lá embaixo, vazando a urna providencial das penas e das alegrias.

Decaídas as fantasias sentimentais, reformou-se o aspecto do mundo. Os deuses foram banidos como efeitos importunos do sonho. Depois da ordem em nome do Alto proclamou-se a ordem positivamente em nome do Ventre. A fatalidade nutrição foi erigida em principio: chamou-se indústria, chamou-se economia política, chamou-se militarismo. Morte aos fracos! Alcançando a bandeira negra do darwinismo espartano, a civilização marcha para o futuro, impávida, temerária, calcando aos pés o preconceito artístico da religião e da moralidade.

Sobrevive, porém, o poema consolador e supremo, a eterna lira...

Reinou primeiro o mármore e a forma; reinaram as cores e o contorno, reinam agora os sons,

— a música e a palavra. Humanizou-se o ideal. O hino dos poetas do mármore, do colorido, que remontava ao firmamento, fala agora aos homens, advogado enérgico do sentimento.

Sonho, sentimento artístico ou contemplação, é o prazer atento da harmonia, da simetria, do ritmo, do acordo das impressões, com a vibração da sensibilidade nervosa. É a sensação transformada.

A história do desenvolvimento humano nada mais é do que uma disciplina longa de sensações. A obra de arte é a manifestação do sentimento.

Dividindo-se as sensações em cinco espécies de sentidos, devem os sentimentos corresponder a cinco espécies e igualmente as obras de arte.

Da sensação acústica vem a estesia acústica: sentimento nos sons, nas palavras — eloqüência e música; da sensação da vista, a estesia visual, o sentimento na forma, no traço e no colorido,

— escultura, arquitetura, pintura; da sensação palatal e olfativa nasce o sentimento do gosto e do perfume, — artes menos consideradas pela relativa inferioridade dos seus efeitos. A sensação do tato, secundada por todas as outras, dá lugar ao sentimento complexo do amor, arte das artes, arte matriz, razão de ser de todas as espécies de estesia.

O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da estética, no gozo visual das linhas da formosura, na delicie auditiva de uma expressão inarticulada, que fosse emitida com expressão, na comoção de um contato, na aspiração inebriante do aroma indefinido da carne. A obra d’arte do amor é a prole; o instrumento é o desejo.

Depois da arte primitiva e fundamental do tato, a arte do ouvido. A obra de arte é a frase sentida, hábil para produzir emoção; o instrumento é a linguagem.

Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloqüência propriamente e poesia popular, graças à aproximação híbrida de terceira arte, do ouvido, a música.

Com o progresso humano, o sentimento artístico da simetria e da harmonia destacou-se analiticamente da arte de amar. E, depois da arte primordial, descendente imediata do instinto erótico, da qual se desprendera, sob a forma selvagem das interjeições primitivas, a arte da eloqüência; e em seguida, sob a forma de expressões homométricas, a poesia popular e a primeira música; nasceram as artes intencionais, de imitação, da escultura, da arquitetura, do desenho. Depois da poesia popular, amorosa ou heróica, veio a rapsódia.

Ainda mais, segundo um traçado naturalíssimo de filiação, o sentimento da simetria, trasladado para a esfera das relações sociais, serviu de plano à organização das religiões, filhas do pavor, e das moralidades, invenção das maiorias de fracos. Com o predomínio insensato das religiões, o amor deixou de ser um fenômeno, passou a ser um ridículo ou uma coisa obscena.

Por um raciocínio de retrocesso, se ponderarmos que a moralidade é a organização simétrica da fraqueza comum, que a religião é a organização simétrica do terror, que a simetria, isto é, harmonia e proporção, é a norma artística das imitações plásticas da ingênua admiração da criatura primitiva, e que esta admiração prazenteira, testemunhada por uma tentativa de desenho ou de estátua, por um canto popular ou por uma interjeição veemente, nada mais é do que um modo acentuado de um esforço de atenção, e que a primeira atenção dos homens do principio, — a lenda de Adão que o diga, — devia ser do indivíduo de um sexo para o indivíduo de outro sexo, teremos averiguado o aforismo paradoxal de que a arte subjetivamente, o sentimento artístico nas suas mais elevadas, mais etéreas manifestações, é simplesmente — a evolução secular do instinto da espécie.

Esta é a sua grandeza, e por isso vai zombando, através das idades, das vicissitudes tempestuosas do combate pela nutrição, dos próprios exasperos homicidas do amor.

A arte é primeiro espontânea, depois intencional.

Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento, e faz o amor concreto, a interjeição, a eloqüência rudimentar, a poesia primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde, progressivamente, por efeitos de cálculo e meditação e dá o epos, a eloqüência culta, a música desenvolvida, o desenho, a escultura, a arquitetura, a pintura, os sistemas religiosos, os sistemas morais, as ambições de síntese, as metafísicas, até as formas literárias modernas, o romance, feição atual do poema no mundo.

As manifestações espontâneas são coevas de todas as sociedades; a poesia popular, por exemplo, não desaparece, nem a eloqüência, ainda menos o amor. As manifestações intencionais, ampliações, aperfeiçoamentos do modo primitivo de expressão sentimental, sujeitam-se aos movimentos e vacilações de tudo que progride.

O coração é o pêndulo universal dos ritmos. O movimento isócrono do músculo é como o aferidor natural das vibrações harmônicas, nervosas, luminosas, sonoras. Graduam-se pela mesma escala os sentimentos e as impressões do mundo. Há estados d’alma que correspondem à cor azul, ou às notas graves da música; há sons brilhantes como a luz vermelha, que se harmonizam no sentimento com a mais vivida animação.

A representação dos sentimentos efetua-se de acordo com estas repercussões.

O estudo da linguagem demonstra.

A vogal, símbolo gráfico da interjeição primitiva, nascida espontaneamente e instintivamente do sentimento, sujeita-se à variedade cromática do timbre como os sons dos instrumentos de música. Gradua-se, em escala ascendente u, o, a, e, i, possuindo uma variedade infinita de sons intermediários, que o sentimento da eloqüência sugere aos lábios, que se não registram, mas que vivem vida real nas palavras e fazem viver a expressão, sensivelmente enérgica, emancipada do preceito pedagógico, de improviso, quase inventada pelo momento.

Há ainda na linguagem o ritmo de cada expressão. Quando o sentimento fala, a linguagem não se fragmenta por vocábulos, como nos dicionários. É a emissão de um som prolongado, a crepitar de consoantes, alteando-se ou baixando, conforme o timbre vogal.

O que move o ouvinte é uma impressão de conjunto. O sentimento de uma frase penetra-nos, mesmo enunciado em desconhecido idioma.

O timbre da vogal, o ritmo da frase dão alma à elocução. O timbre é o colorido, o ritmo é a linha e o contorno. A lei da eloqüência domina na música, colorido e linha, seriação de notas e andamentos; domina na escultura, na arquitetura, na pintura: ainda a linha e o colorido.

Na sua qualidade de representação primária do sentimento, depois do fato do amor, a eloqüência é a mais elevada das artes. Daí a supremacia das artes literárias, — eloqüência escrita.

A eloqüência foi a principio livre, fiel ao ritmo do sentimento; influenciada pela música monótona dos mais antigos tempos, cadenciou-se em metro regular e monótono como a música. Aproveitada como recurso mnemônico, libertou-se da música, guardando, porém, a forma do metro igual e da quantidade equivalente, que havia de ser um dia a metrificação da sílaba, que havia de dar em resultado a monstruosidade da rima, o calembur feito milagre de perfeição.

A música seguiu à parte a sua evolução.

Na arte da eloqüência da atualidade acentua-se uma reação poderosa contra o metro clássico; a critica espera que dentro de alguns anos o metro convencional e postiço terá desaparecido das oficinas da literatura. O sentimento encarna-se na eloqüência, livre como a nudez dos gladiadores e poderoso. O estilo derribou o verso. As estrofes medem-se pelos fôlegos do espírito, não com o polegar da gramática.

Hoje, que não há deuses nem estátuas, que não há templos nem arquitetura, que não há dies iroe nem Miguel Ângelo; hoje que a mnemônica é inútil, o estilo triunfa, e triunfa pela forma primitiva, pela sinceridade veemente, como nos bons tempos em que o coração para bem amar e o dizer não precisava crucificar a ternura as quatro dificuldades de um soneto.

Qual a missão da arte? Originaria da propensão erótica fora do amor, a arte é inútil, — inútil como o esplendor corado das pétalas sobre a fecundidade do ovário. Qual a missão das pétalas coradas? De que nos serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar das aves? A arte é uma consequência e não um preparativo. Nasce do entusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o atesta. Agrada sempre, porque o entusiasmo é contagioso como o incêndio. A alma do poeta invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não tem por fim agradar.

E, depois, reclamar títulos de utilidade às divagações graciosas de uma energia da alma, que significa em primeira manifestação a própria perpetuidade da espécie?!

Além de inútil, a arte é imoral. A moral é o sistema artístico da harmonia transplantado para as relações de coletividade. Arte sui generis. Se é possível eficazmente o regime social das simetrias da justiça e da fraternidade, o futuro há de provar. Em todo caso é arte diferente e as artes não se combinam senão em produtos falsos, de convenção.

Poema intencionalmente moral é o mesmo que estátua polícroma ou pintura em relevo. Apenas uma coisa possível, nada mais; há também quem faça flores, com asas de barata e pernas.

A verdadeira arte, a arte natural, não conhece moralidade. Existe para o indivíduo sem atender à existência de outro indivíduo. Pode ser obscena na opinião da moralidade: Leda; pode ser cruel: Roma em chamas, que espetáculo!

Basta que seja artística.

Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana — acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige; embriaga como a orgia e como o êxtase.

E desdenha dos séculos efêmeros.

À vista da tranqüilidade do auditório, subentende-se que não estavam presentes os dois heróis da primeira sessão solene: o Dr. Zé Lobo não viera, para não encontrar o Senador; o Senador Rubim não viera, para não encontrar o Dr. Zé Loto: impulsos equivalentes em sentido contrário anulam-se.

Havia na sala diversos ouvintes que se distraiam de perseguir com atenção a galopada de hipógrifo, em que se elevava a eloqüência do orador.

Bento Alves, um; outro o Malheiro, moreno, nervoso, carrancudo, o primeiro ginasta; outro, Barbalho.

A preocupação de Bento Alves era uma injúria. Entre ele e Malheiro havia rixa de velha de emulação. Malheiro não lhe perdoava a culpa de ser bravo. Os próprios prodígios da força e agilidade, aplaudidos e proclamados pelo Ateneu, não davam para saciar a vaidade. De que valia ser forte, se era impossível a aplicação do seu esforço para afrouxar uma fibra à musculatura do Bento? Ah! não ser possível por sugestão desfiar uma a uma aquelas meadas de arame, reduzir a infantilidade débil aquela corpulência odiosa! Por que não iriam os desejos da inveja, como vampiros, sorver o sangue àquela força, a vida, gota a gota, àquele vigor de ferro?

Bento Alves não dava mostras de perceber a rivalidade. Malheiro evitava-o. Era impossível conservar-se um momento perto do colega, que lhe não dessem ímpetos de assaltá-lo.

A façanha da prisão efetuada pelo rival definitivamente retirava-lhe a glória de valoroso único. Malheiro entrou em melancolia trancada. O rosto moreno amorenou-se mais; a animação de um brilho não lhe chegava à janela do olhar; o sorriso nos lábios não abria a porta. Dir-se-ia um frontispício de luto.

Ficou a ruminar o projeto de um encontro.

O meu bom amigo, exagerado em mostrar-se melhor, sempre receoso de importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova surpresa e agrado. Chegara ao excesso das flores. A principio, pétalas de magnólia seca com uma data e uma assinatura, que eu encontrava entre folhas de compêndio. As pétalas começaram a aparecer mais frescas e mais vezes; vieram as flores completas. Um dia, abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudência de um ramalhete. Santa Rosália da minha parte nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as flores, muito agradecido, e escondi-as antes que vissem.

Mas o Barbalho espiava, ultimamente constituído fiscal oculto dos meus passos.

As circunstâncias o tinham aproximado do Malheiro, e o açafroado caolho pretendia manejar a rivalidade dos dois maiores: um conflito entre Malheiro e Bento podia ser a vergonha para mim.

O Malheiro, com o vozeirão grave de contrabaixo, começou a infernizar-me por epigramas. Queria incomodar o Alves mortificando-me, julgando que me queixasse. Eu devorava as afrontas do marmanjo sem desco-brir o meio de tirar correta desforra. Barbalho lembrou-se de tomar as dores. Depois de incitar o Malheiro contra mim, incitou o Bento contra o Malheiro. Procurou-o misteriosamente e informou: “o Malheiro não passa pelo Sérgio que não pergunte quando é o casamento... é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas. O Sérgio esta desesperado”.

O furor do Alves não se descreve, furor poderoso dos calados. Uma onda de apoplexia ruborizou-lhe as faces. Por único movimento de indignação contraiu os dedos, como estrangulando. Procurou o Malheiro e com a voz talvez alterada, mas sem ódio, fez intimação: “amanhã é a sessão de encerramento; em meio da festa salmos ambos; preciso falar-lhe das bodas”.

Malheiro percebeu: era o sonhado encontro!

Apenas desceu da tribuna o presidente efetivo do Grêmio, os adversários deixaram as cadeiras. Barbalho saiu pouco depois. Notei o movimento e adivinhei mais ou menos.

Quando saímos do pavilhão, finda a solenidade, um criado entregou-me um envelope, uma carta do Alves, a lápis. “Estou preso; antes que te digam que por alguma indignidade, previno: por ter dado uma lição ao Malheiro.”

Minutos depois, Franco, muito satisfeito, contava a todos: “tinham lutado no jardim o Malheiro e o Alves; que briga dos dois brutos!” Alves saíra ferido com um golpe no braço, acreditam que de navalha; Malheiro estava no dormitório. Avisados pelo Alves, os criados tinham ido buscá-lo sem sentidos, ao fundo de um bosquete no parque. “Sem sentidos!” garantia o Franco; “que pândega! que sopapos! ora o Malheiro malhado!”

Soube-se que Barbalho espreitara o combate através dos arbustos. Antes de o ver acabado, correra ativo, e concentrando a vesgueira numa só atenção de intrigante, preparara as coisas de modo que, ao voltar do jardim, Bento Alves foi surpreendido por uma ordem de prisão do diretor.

Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no colégio. Os contendores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou o braço a exame e a curativo; Malheiro, em panos de sal, fingindo-se muito prostrado, oferecia o mais impenetrável silêncio às indagações de Aristarco e protestava esborrachar as ventas a quem caísse na asneira de insinuar o bedelho no que não era da sua conta.

“Ora o malhado!...” resmungavam os colegas; mas tratavam de esquecer o caso.

Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas romanceiras, montando guarda de suspiros à janela gradeada de um cárcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim único de propor assunto às trovas e aos trovadores medievos.








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