O Diário de Anne Frank


Sábado, 15 de janeiro de 1944


Querida Kitty


Não vejo razão para lhe contar, todas as vezes, detalhes de nossas brigas e discussões. Basta dizer que agora dividimos muita coisa — como carne e manteiga — e que fritamos nossas próprias batatas. Já faz algum tempo que comemos pão integral às refeições, porque às quatro horas da tarde já estamos com tanta fome que mal podemos controlar nossos estômagos roncadores.

Aproxima-se rapidamente o aniversário de mamãe. Ela ganhou de Kraler algum açúcar extra, forte motivo de inveja por parte dos Van Daan, pois a sra. Van Daan não recebera presente semelhante em seu aniversário. Mas, de que adianta nos aborrecermos ainda mais com palavras ofensivas, lágrimas e desabafos cheios de raiva? De uma coisa você pode ter certeza, Kitty: é que estamos ainda mais fartos deles. Mamãe disse que seu maior desejo — que não pode ser realizado agora — é não ver os Van Daan durante quinze dias.

Não canso de me perguntar se os problemas não seriam os mesmos, fossem outras as pessoas a partilhar conosco a mesma casa. Ou fomos excepcionalmente infelizes? Será que a maioria das pessoas é mesmo egoísta e avarenta? Acho muito bom que se aprenda a conhecer os seres humanos, mas creio que já tivemos o suficiente. A guerra continua do mesmo modo, briguemos ou não, desejemos ar fresco e liberdade, ou não; melhor, portanto, seria tornar nossa estada aqui a mais agradável possível. Não estou fazendo sermão, mas receio que, se ficar muito tempo aqui, acabe ressecada como uma passa. E eu queria tanto me transformar em uma verdadeira mulherzinha!


Sua Anne.




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