O Diário de Anne Frank


Quarta-feira, 3 de maio de 1944


Querida Kitty


Antes de mais nada, as novidades da semana. Estamos de férias políticas; não há nada, absolutamente nada que anunciar. Eu também estou começando a acreditar na invasão. Afinal, eles não vão consentir em que os russos façam a limpeza geral; e por falar nisso, eles também, no momento, não estão fazendo nada.

O sr. Koophuis já aparece no escritório todas as manhãs. Arranjou molas novas para o divã de Peter; ele terá, portanto, que bancar o estofador, coisa que não o animou muito.

Já contei que Moffi desapareceu? Simplesmente sumiu. Não deu o menor sinal de vida desde quinta-feira passada. Espero que tenha ido para o céu dos gatos, enquanto algum apreciador de carne de gato se delicia com suculenta refeição à custa dele. Talvez alguma meninazinha receba um gorro da pele dele. Peter está inconsolável com o desaparecimento.

Desde sábado que fizemos uma modificação, almoçando sempre às onze e meia. Assim podemos nos agüentar com uma xícara de mingau; isso poupa uma refeição. Verdura ainda é difícil de se obter, e hoje à tarde tivemos alface cozida. Alface crua, espinafre e alface cozida é tudo quanto há. Acompanhando, come-se batata "passada" e dá uma combinação deliciosa!

Você bem pode imaginar que não são poucas as vezes que nos perguntamos, desesperados: "De que adianta esta guerra? Por que não se pode viver em comum e em paz?

Para que essa destruição?"

A pergunta é compreensível, mas ainda não encontramos resposta que nos satisfaça. Sim, para que fabricar aviões cada vez mais gigantescos, bombas ainda mais poderosas e, ao mesmo tempo, casas pré-fabricadas, para reconstrução? Por que gastar milhões, diariamente, na guerra, enquanto ninguém dispõe de um centavo para serviços médicos, para auxiliar artistas e gente pobre?

Por que existe gente morrendo à míngua enquanto apodrecem excedentes em outras partes do mundo? Oh, por que os homens são tão malucos?

Não acredito que somente os grandes, os políticos e os capitalistas, sejam responsáveis pela guerra. Oh, não! O homem comum é tão culpado quanto eles, senão os povos do mundo já se teriam insurgido, revoltados. Simplesmente, existe nas criaturas uma verdadeira sanha de destruir, de matar, assassinar, e até que a humanidade inteira sofra uma grande transformação, explodirão novas guerras e tudo o que foi construído, cultivado e plantado será novamente destruído e desfigurado. Aí, então, a humanidade terá que recomeçar tudo outra vez.

Já estive desanimada; desesperada, nunca. Considero o fato de estarmos escondidos como uma aventura perigosa, romântica e interessante ao mesmo tempo. Em meu diário, encaro as privações sob aspectos engraçados. Tomei a decisão de levar vida diferente das de outras meninas e, quando for mais velha, das de outras donas-de-casa. Meu ponto de partida tem sido tão cheio de interesse que já é uma razão para eu descobrir o lado humorístico nos momentos mais difíceis.

Sou jovem e possuo muitas qualidades ocultas; sou jovem, forte e estou vivendo uma grande aventura; estou ainda no meio dessa aventura e não devo reclamar o dia inteiro. Recebi muita coisa: um gênio bom, muita alegria e muita força. Todos os dias sinto que estou me desenvolvendo interiormente, que a libertação está cada vez mais próxima, que a natureza é bela, que as pessoas que me cercam são boas e que minha aventura é interessante. Por que desesperar?


Sua Anne.




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