O Diário de Anne Frank


Terça-feira, 6 de junho de 1944


Querida Kitty


"Este é o Dia D." A notícia chegou através do programa inglês e foi confirmada. "This is the day." [26] Começou a invasão.

Os ingleses deram a notícia às oito da manhã: Calais, Boulogne, Havre, Cherbourg e também Pas-de-Calais (como de costume) foram severamente bombardeados. Além disso, como medida de segurança para os territórios ocupados, as pessoas que vivem num raio de trinta e cinco quilômetros da costa foram avisadas para estarem preparadas para bombardeios. Se possível, os ingleses deixarão cair panfletos com uma hora de antecedência.

Segundo notícias alemãs, tropas de pára-quedistas aterrissaram na costa francesa; segundo a BBC, tropas inglesas para desembarque estão em luta com a marinha alemã.

Às nove horas, durante a primeira refeição do Anexo Secreto, discutimos este ponto: será um desembarque de experiência como o de Dieppe, há dois anos?

Irradiação inglesa às dez horas, em alemão, holandês, francês e outras línguas: — Começou a invasão! — quer dizer, a invasão de verdade. Irradiação inglesa, em alemão, às onze horas: discurso do comandante supremo, general Dwight Eisenhower.

Notícias inglesas à meia-noite, em inglês: — Este é o Dia D. O general Eisenhower disse ao povo francês: "Lutas árduas virão agora, mas, depois disso, a vitória. O ano de 1944 é o ano da vitória completa. Boa sorte" [27].

Notícias inglesas em inglês, à uma hora (traduzidas): onze aviões de prontidão, voando ininterruptamente, desembarcando tropas e atacando por trás das fileiras; quatro mil lanchas de desembarque e outros barcos menores desembarcaram tropas e material entre Cherbourg e o Havre, sem cessar. Tropas inglesas e americanas já estão empenhadas em árduas lutas. Discursos de Gerbrandy, do primeiro-ministro da Bélgica, do rei Haakon, da Noruega, de De Gaulle, da França, do rei da Inglaterra e, por último, porém talvez o mais importante, de Churchill.

Reina grande emoção no Anexo Secreto. Estaria mesmo próxima a libertação tão longamente esperada e que ainda parece maravilhosa demais, semelhante demais a um conto de fadas? A vitória seria nossa neste ano de 1944? Nada sabemos ainda, mas dentro de nós renasceu a esperança; ela nos dá novo alento, nos torna fortes outra vez. E como agora temos que suportar com bravura os temores, as privações e os sofrimentos, o importante será conservar a firmeza e a calma. Agora, mais do que nunca, precisamos cerrar os dentes, não gritar. A França, a Rússia, a Itália e mesmo a Alemanha podem gritar e dar vazão à sua angústia, mas nós não temos ainda esse direito!

Sabe, Kitty, para mim, o melhor da invasão é o sentimento de que são amigos que se aproximam. Há tanto tempo vimos sendo oprimidos por esses horríveis alemães, há tanto tempo estamos com a faca no pescoço, que a idéia de amigos e libertação nos enche de confiança!

Agora já não se trata mais somente dos judeus, trata-se da Holanda e de toda a Europa ocupada. Talvez, como diz Margot, eu possa voltar à escola em setembro ou outubro.


Sua Anne. P. S. Mantê-la-ei informada sobre as últimas novidades.




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