Machado de Assis - Crônica



Machado de Assis - A semana



1896


5 de janeiro


Quisera dizer alguma coisa a este ano de 1896, mas não acho nada tão novo como ele. Pode responder-nos a todos que não faremos mais que repetir os amores contados aos que passaram, iguais esperanças e as mesmas cortesias. “Não me iludis, — dirá 1896, — sei que me não amais desinteressadamente; egoístas eternos, quereis que eu vos dê saúde e dinheiro, festas, amores, votos e o mais que não cabe neste pequeno discurso. Direis mal de 1895, vós que o adulastes do mesmo modo quando ele apareceu; direis o mesmo mal de mim, quando vier o meu sucessor.”

Para não ouvir tais injúrias, limito-me a dizer deste ano que ninguém sabe como ele acabará, não porque traga em si algum sinal meigo ou terrível, mas porque é assim com todos eles. Daí a inveja que tenho às palavras dos homens públicos. Agora mesmo o presidente da República Francesa declarou, na recepção do Ano-Bom, que a política da França é pacífica; declaração que, segundo a Agência Havas, causou a mais agradável impressão e segurança a toda a Europa. Oh! por que não nasci eu assaz político para entender que palavras dessas podem suster os acontecimentos, ou que um país, ainda que premedite uma guerra, venha denunciá-la no primeiro dia do ano, avisando os adversários e assustando o comércio e os neutros! Pela minha falta de entendimento, neste particular, declarações tais não me comovem, menos ainda se saem da boca de um presidente como o da República Francesa, que é um simples rei constitucional, sem direito de opinião.

Napoleão III tinha efetivamente a Europa pendente dos lábios no dia 1 de janeiro; mas esse, pela Constituição imperial, era o único responsável do governo, e, se prometia paz, todos cantavam a paz, sem deixar de espiar para os lados da França, creio eu. Um dia, declarou ele que os tratados de 1815 tinham deixado de existir, e tal foi o tumulto por aquele mundo todo, que ainda cá nos chegou o eco. Um socialista, Proudhon, respondeu-lhe perguntando, em folheto, se os tratados de 1815 podiam deixar de existir, sem tirar à Europa o direito público. Nesse dia, tive um vislumbre de política, porque entendi o rumor e as suas causas, sem negar, entretanto, que os anos trazem, com o seu horário, o seu roteiro.

Não sabemos dos acontecimentos que este nos trará, mas já sabemos que nos trouxe a lembrança de um, — o centenário do sino grande de São Francisco de Paula. Na véspera do dia 1 deste mês, ao passar pelo largo, dei com algumas pessoas olhando para a torre da igreja. Não entendendo o que era, fui adiante; no dia seguinte, li que se ia festejar o centenário do sino grande. Não me disseram o sentido da celebração, se era arqueológico, se metalúrgico, se religioso, se simplesmente atrativo da gente amiga de festejar alguma coisa. Cheguei a supor que era uma loteria nova, tantas são as que surgem, todos os dias. Loterias há impossíveis de entender pelo título, e nem por isso são menos afreguesadas, pois nunca faltam Champollions aos hieróglifos da velha Fortuna.

Isto ou aquilo, o velho sino merece as simpatias públicas. Em primeiro lugar, é sino, é não devemos esquecer o delicioso capítulo que sobre este instrumento da igreja escreveu Chateaubriand. Em segundo lugar, deu bons espetáculos à gente que ia ver cá de baixo o sineiro agarrado a ele. Um dia, é certo, o sineiro voou da torre e veio morrer em pedaços nas pedras do largo; morreu no seu posto.

Aquela igreja tem uma história interessante. Vês ali na sacristia, entre os retratos de corretores, um velho Siqueira, calção e meia, sapatos de fivela, cabeleira postiça, e chapéu de três bicos na mão? Foi um dos maiores serviçais daquela casa. Síndico durante trinta e um anos, morreu em 1811, merecendo que vá ao fim do primeiro século e entre pelo segundo. O que mais me interessa nele, é a pia fraude que empregava para recolher dinheiro e continuar as obras da igreja. Aos que desanimavam, respondia que contassem com algum milagre do patriarca. De noite, ia ele próprio ao adro da igreja, chegava-se à caixa das esmolas e metia-lhe todo o dinheiro que levava, de maneira que, aos sábados, aberta a caixa, davam com ela pejada do necessário para saldar as dívidas. As rondas seriam poucas, a iluminação escassa, fazia-se o milagre e com ele a igreja. Não digo que os Siqueiras morressem; mas, tendo crescido a polícia e paralelamente a virtude, o dinheiro é dado diretamente às corporações, e dali a notícia às folhas públicas.

Não faltará quem pergunte como é que tal milagre, feito às escondidas, veio a saber-se tão miudamente que anda em livros. Não sei responder; provavelmente houve espiões, se é que o amor da contabilidade exata não levou o velho Siqueira a inscrever em cadernos os donativos que fazia. Há outro costume dele que justifica esta minha suposição. Siqueira possuía navios; simulava (sempre a simulação!) ter neles um marinheiro chamado Francisco de Paula, e pagava à igreja o ordenado correspondente. O donativo era assim ostensivo por amor da contabilidade.

A contabilidade podia trazer-me a coisas mais modernas, se me sobrasse tempo; mas o tempo é quase nenhum. Resta-me o preciso para dizer que também fez o seu aniversário, esta semana, a inauguração do Panorama do Rio de Janeiro, na Praça Quinze de novembro. Foi em 1891; há apenas cinco anos, mas os centenários não são blocos inteiros, fazem-se de pedaços. As pirâmides tiveram o mesmo processo. A arte não nasceu toda nem junta. O Panorama resistiu, notai bem, às balas da revolta. Certa casa próxima, onde eu ia por obrigação, foi mais uma vez marcada por elas; na própria sala em que me achei, caíram duas. Conservo ainda, ao pé de algumas relíquias romanas, uma que lá caiu na segunda-feira 2 de outubro de 1893. O Panorama do Rio de Janeiro não recebeu nenhuma, ou resistiu-lhes por um prodígio só explicável à vista dos fins artísticos da construção. Que as paixões políticas lutem entre si, mas respeitem as artes, ainda nas suas aparências.

Adeus. O sol arde, as cigarras cantam, um cão late, passam um bond. Consolemo-nos com a idéia de que um dia, de todos estes fenômenos, — nem o sol existirá. É banal, mas o calor não dá idéias novas. Adeus.

12 de janeiro

Quando li o relatório da polícia acerca do Jardim Zoológico, tive uma comoção tão grande, que ainda agora mal posso pegar na pena. Vou dizer por quê. Sabeis que

o jogo dos bichos acabou ali há muito tempo. Carneiro, macaco, elefante, porco, tudo fugiu do Jardim Zoológico e espalhou-se pelas ruas. Este fenômeno é igual a atos que se dão na organização das cidades. A principio, os moradores é que vão buscar a água às fontes; mais tarde, o encanamento é que a leva aos moradores. Dá-se com os bichos a mesma coisa. Não há casa, não há cozinha, e raro haverá sala que não possua uma pia, onde vá ter a água de Vila Isabel. Há tal armarinho, onde entre o aperto de mão e a compra das agulhas a conversação não tem outro assunto.

— Eu, Sr. Maciel, diz a moça examinando as agulhas, sempre tive confiança no cavalo.

Ele, debruçando-se:

— Creia, D. Mariquinhas, que é animal seguro. O burro não é menos; mas o cavalo é muito mais. As agulhas servem?

Talvez o leitor não entenda bem esse esclarecimento. D. Mariquinhas entende; dá dois dedos de palestra, cinco em despedida, e vai direita mandar comprar no cavalo.

Uma empresa lembrou-se de substituir no Jardim Zoológico o jogo dos animais pelo dos divertimentos. Não foi mal imaginado; cada bilhete de entrada leva a indicação de um jogo lícito, desde o bilhar, que é o primeiro da lista, até o... Aqui vem a causa da minha comoção. Que pensais, vós que não lestes o relatório da polícia, que jogo pensais que é o último, o 25° da lista? É o xadrez. Que vai fazer nessa galera o grave xadrez? É licito, não há dúvida, nem há coisa mais lícita que ele; mas o gamão também o é, e não vejo lá o gamão.

Quis enganar-me. Quis supor que era um aviso aquela palavra posta no fim da lista, como se dissesse: apos tantos divertimentos, tudo acaba no xadrez da polícia. Mas certamente a empresa não levaria a paixão do trocadilho até o ponto de espantar os fregueses, conquanto esta paixão seja das mais violentas que podem afligir um homem. Também não creio que fosse ironia pura, um modo de dizer que não há perigo; seria descrer de uma coisa certa. Podem escapar alguns criminosos, como em toda a parte do mundo, mas alguns não são todos. Aí esta, para não ir mais longe, o caso do desfalque municipal; é possível que e não ache o dinheiro, por esta velha regra que o desfalque, uma vez descoberto, põe logo umas barbas, e embarca ou finge que embarca; mas o culpado recebera o castigo, é o principal para a moral publica.

Meu bom xadrez, meu querido xadrez, que és o jogo dos silenciosos, como podes tu dar naquele tumulto de freqüentadores? Quero crer que ninguém te joga, nem será possível fazê-lo. Basta saber que há uma hora certa, às seis da tarde, em que sai de dentro de um tubo de ferro uma bandeira com o nome de um jogo. Como podes tu correr a ver o nome da bandeira, se tens de defender o teu rei, — branco ou preto, — ou atacar o contrário, preto ou branco? Outra coisa que deve impedir que te joguem, é a vozeria que, segundo o relatório da polícia, se levanta logo que a bandeira é hasteada. A autoridade explica a vozeria pelo fato de uns perderem e outros ganharem; mas a explicação da empresa é mais lógica. Diz ela que o nome do jogo hasteado não quer dizer senão que tal jogo será gratuito dessa hora em diante para todos os freqüentadores do jardim; para os outros será preciso comprar bilhete. Creio; mas o que não creio, é que dois verdadeiros jogadores do xadrez, aplicados ao ataque e a defesa, possam consentir em deixar tão nobre ação para ir ao pau de sebo ou qualquer outra recreação gratuita.

Li tudo, li os autos de perguntas feitas a vários cidadãos. Um destes, por nome Maia, carpinteiro de ofício, declarou que, com os tristes dez tostões de cada bilhete que paga à porta do Jardim Zoológico, tem já ganho um conto e quatrocentos mil réis. Não disse em que prazo, mas podendo comprar cinco ou mais bilhetes por dia, e sendo a empresa nova, é provável que tenha ajuntado aquele pecúlio em poucas semanas. Em verdade, se um homem pode ganhar tanto dinheiro passeando às tardes, entre plantas, à espera que a bandeira seja hasteada, é caso para seduzir outras pessoas que não sobem dos quatro ou cinco mil réis por dia com a simples enxó; e os que não têm enxó nem nada?

Tudo pode ser, contanto que me salvem o xadrez. A polícia, — ou para não confundir este jogo com o nome vulgar da sua prisão, ou porque efetivamente queira restituir cada um ao seu ofício, mandou que os bilhetes não tragam nenhum nome de divertimento. A opinião dos interrogados é que, sem isto, todo o fervor bucólico se perde. Não conhecendo a força inventiva da empresa, não sei o que ela fará. Suponhamos que manda imprimir os bilhetes sem nenhum dizer delituoso, mas os faz de cores diferentes. Às mesmas seis horas da tarde, sobe uma bandeira da cor que deve ganhar; aí está o mesmo processo sem palavras. É difícil impedir que os bilhetes sejam de todas as cores nem que as bandeiras subam ao ar na ponta de um pau. A polícia só tem um recurso, é a publicação que faço aqui, antecipadamente, de maneira que a empresa pode já empregar este sistema sem se desmascarar.

Nem sempre os jardins escondem jogos ilícitos. Vede o Jardim Botânico; está publicada a estatística das pessoas que lá foram no ano passado: 45.086, isto é, mais 10.427 que o ano de 1894. Notai que dos estrangeiros em trânsito o número, que em 1894 foi de 929, subiu no ano passado a 3.622. No total do mesmo ano estão inclusas 8.188 crianças. Não abuso dos algarismos; eu próprio não me dou muito com eles, mas os que aí vão, sempre consolam alguma coisa, no tocante à nossa vocação bucólica.

Outro jardim — é o ultimo — abriu domingo passado as portas. Entrava-se com bilhete e havia bandeiras hasteadas. A presença do Sr. chefe de polícia podia fazer desconfiar; mas a circunstância de serem os bilhetes distribuídos pelo próprio Sr. presidente da República tranqüilizou a todos, e, com pouco, reconhecemos que o Ginásio Nacional não encobre nenhuma loteria. Os premiados houveram-se sem jactância nem acanhamento e os bacharelandos prestaram o compromisso regulamentar, modestos e direitos. Um deles fez o discurso do estilo; o Sr. Dr. Paula Lopes falou gravemente em nome da corporação docente, até que o diretor do externato, o Sr. Dr. José Veríssimo, encerrou a cerimônia com um discurso que acabou convidando os jovens bacharéis a serem homens.

Eu não quero acrescentar aqui tudo o que penso do Sr. Dr. José Veríssimo. Seria levado naturalmente a elogiar a Revista Brasileira, que ele dirige, e a parecer que faço um reclamo, quando não faço mais que publicar a minha opinião, a saber, que a revista é ótima.

19 de janeiro

Se não fosse o receio de cair no desagrado das senhoras, dava-lhes um conselho. O conselho não é casto, não é sequer respeitoso, mas é econômico, e por estes tempos de mais necessidade que dinheiro, a economia é a primeira das virtudes.

Vá lá o conselho. Sempre haverá algumas que me perdoem. A poesia brasileira, que os poetas andaram buscando na vida cabocla, não deixando mais que os versos bons e maus, isto nos dai agora, senhoras minhas. Fora com obras de modistas; mandai tecer a simples arazóia, feita de finas plumas, atai-a à cintura e vinde passear cá fora. Podeis trazer um colar de cocos, um cocar de penas e mais nada. Escusai leques, luvas, rendas, brincos, chapéus, tafularia inútil e custosíssima. A dúvida única é o calçado. Não podeis ferir nem macular os pés acostumados à meia e à botina, nem nós podemos calçar-vos, como João de Deus queria fazer à descalça dos seus versos:

Ah! não ser eu o mármore em que pisas... Calçava-te de beijos.

Não seria decente nem útil; para essa dificuldade creio que o remédio seria inventar uma alpercata nacional, feita de alguma casca brasileira, flexível e sólida. E estáveis prontas. Nos primeiros dias, o espanto seria grande, a vadiação maior e a circulação impossível; mas, a tudo se acostuma o homem. Demais, o próprio homem teria de mudar o vestuário. Um pedaço de couro de boi, em forma de tanga, sapatos atamancados para durarem muito, um chapéu de pele eterna, sem bengala nem guarda-chuva. O guarda-chuva não era só desnecessário, mas até pernicioso, visto que a única medicina e a única farmácia baratas passam a ser (como eu dizia a uma amiga minha) o Padre Kneipp e a água pura.

Em verdade, esse padre alemão, nascido para médico, descobriu a melhor das medicações para um povo duramente tanado na saúde. Quem mais tomará as pílulas de Vichy comprimidas, o vinho de Labarraque ou a simples magnésia de Murray (estrangeiras ou nacionais, pois que o preço é o mesmo), quem mais as tomará, digo, se basta passear na relva molhada, pés descalços, com dois minutos de água fria no lombo, para não adoecer? Conheço alguns que vão trocar a alopatia pela homeopatia, a ver se acham simultaneamente alívio à dor e às algibeiras. A homeopatia é o protestantismo da medicina; o kneippismo é uma nova seita, que ainda não tem comparação na história das religiões, mas que pode vir a triunfar pela simplicidade. O homem nasceu simples, diz a Escritura; mas ele mesmo é que se meteu em infinitas questões. Para que nos meteremos em infinitas beberagens, patrícios da minha alma?

Dizem que a vida em São Paulo é muito cara. Mas São Paulo, se quiser, terá a saúde barata; basta meter-se-lhe na cabeça ir adiante de todos como tem ido. Inventará novos medicamentos e vendê-los-á por preço cômodo. Leste a circular do presidente convidando os demais Estados produtores de café para uma conferência e um acordo? É documento de iniciativa, ponderado e grave.

Aproximando-se a crise da produção excessiva, cuida de aparar-lhe os golpes antecipadamente. Mas nem só de café vive o homem, caso em que se acha também a mulher. Assim que duas paulistas ilustres tratam de abrir carreira às moças pobres para que disputem aos homens alguns misteres, até agora exclusivos deles. Eis aí outro cuidado prático. Estou que verão a flor e o fruto da arvora que plantarem. Quando à vida espiritual das mulheres, basta citar as duas moças poetisas que ultimamente se revelaram, uma das quais, D. Zalina Rolim, acaba de perder o pai. A outra, D. Júlia Francisca da Silva, tem a poesia doce e por vezes triste como a desta rival que cá temos e se chama Júlia Cortines; todas três publicaram há um ano os seus livros.

Falo em poetisas e em mulheres; é o mesmo que falar em João de Deus, que deve estar a esta hora depositado no panthéon dos Jerônimos, segundo nos anunciou o telégrafo. Não sei se ele adorou poetisas; mas que adorou mulheres, é verdade, e não das que pisavam tapetes, mas pedras, ou faziam meia à porta da casa, como aquela Maria, da Carta, que é a mais deliciosa de suas composições. Se essa Maria foi a mais amada de todas, não podemos sabê-lo, nem ele próprio o saberia talvez. Há uma longa composição sem título, de vário metro, em que há lágrimas de tristeza; mas as tristezas podem ser grandes e as lágrimas passageiras ou não, sem que daí se tire conclusão certa. A verdade é que todo ele e o livro são mulheres, e todas as mulheres rosas e flores. A simpleza, a facilidade, a espontaneidade de João de Deus são raras, a emoção verdadeira, o verso cheio de harmonia quase sem arte, ou de arte natural que não dá tempo a recompô-la.

Um dos que verão passar o préstito de João de Deus será esse outro esquecido, — como esquecido estava o autor das Flores do Campo, patrício nosso e poeta inspirado, Luis Guimarães. Não digo esquecido no passado, porque os seus versos não esquecem aos companheiros nem aos admiradores, mas no presente. Um de seus dignos rivais, Olavo Bilac, deu-nos há dias dois lindos sonetos do poeta, que ainda nos promete um livro. A doença não o matou, a solidão não lhe expeliu a musa, antes a conservou tão maviosa como antes. O que a outros bastaria para descrer da vida e da arte, a este da força para empregar na arte os pedaços de vida que lhe deixaram e que valerão por toda ela. O poeta ainda canta. Crê no que sempre creu.

Há fenômenos contrários. Vede Zola. A Notícia de sexta-feira traz um telegrama contando o resumo da entrevista de um repórter com o célebre romancista, acerca da chantagem que apareceu nos jornais franceses. Zola deu as razões do mal e conclui que “há excesso de liberdade e falta de ideais cristãos”. Deus meu! e por que não uma cadeira na Academia francesa?

26 de janeiro

Três vezes escrevi o nome do Dr. Abel Parente, três vezes o risquei, tal é a minha aversão as questões pessoais; mas, refletindo que não podia contar a minha grande desilusão sem nomear o autor dela, acabo escrevendo o nome deste distinto; ginecologista.

Ninguém esqueceu ainda a famosa discussão que aqui há anos se travou, relativamente à esterilização da mulher pelo sistema do Dr. Abel Parente. Ilustres profissionais atacaram e defenderam o nosso hóspede, com tal brilho, calor e evidência que era difícil adotar uma opinião, se ficar olhando para a outra com saudade, como aquele irresoluto da comédia, que acaba escolhendo uma das duas moças a quem namora, mas suspira consigo: “Creio que teria feito melhor escolhendo a outra”.

Não se falou mais nisso. Italiano, patrício de Dante, é provável que o Dr. Abel Parente haja dividido a clínica de parteiro esterilizador entre dois versos do poeta, dizendo a uns embriões: Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate; — e a outros embriões: Venite a noi parlar, s'altri nol niega. Assim venceu um princípio, e nós fomos cuidar de questões novas, civis ou militares, políticas ou judiciárias.

Ultimamente (quinta-feira) escreveu aquele distinto prático uma carta ao Jornal do Comércio, contestando que o eucaliptos pudesse curar a febre amarela. Não que a febre amarela, — ou, cientificamente falando, o tifo icteróide, — possa ser combatido com tal remédio ou com outro. Crê na serumpatia, e desde logo responde aos que puderem estranhar que ele, ginecologista, se ocupe de serumpatia, dizendo que “a serumpatia é a preocupação dos sábios de todos os países, que o futuro da medicina esta em seu der”.

Até aqui nenhuma ilusão me tirou: mas onde a mão do rude clínico rasgou violentamente o véu que me cobria os olhos, foi naquele ponto em que escreveu isto: “Desde os tempos de Hipócrates até os nossos dias, a medicina só se ufana de três remédios verdadeiramente eficazes e específicos: o mercúrio contra a sífilis, o quinino contra a malaria, o salicilato de sódio contra o reumatismo articular”.

Não acho, não conheço, não posso inventar palavras que digam a prostração da minha alma depois de ler o que acabais de ler. Vós, filhos de um século sem fé, podeis ler isso sem abalo; sois felizes. Ainda assim, como simples efeito intelectual, é impossível que aquele trecho da carta vos não haja trazido alguma turvação às idéias. Imaginai que terá sido com este pobre de mim que, mental e moralmente, vivia do contrario, não achava limites aos específicos. Li muito Molière, muito Bocage, mas eram pessoas de engenho, sem autoridade científica; queriam rir. A pessoa que nos fala agora, tem um poder incontestável, é ungido pela ciência.

Criei-me na veneração da farmácia. Entre parêntese, e para responder a um dos meus leitores de Ouro-Preto, se escrevo botica, às vezes, é por um costume de infância; ninguém falava então de outra maneira; os próprios farmacêuticos anunciavam-se assim, e a legislação chamava-os boticários, se me não engano. Botica vinha de longe, e propriamente não ofendia a ninguém. Anos depois, entrou a aparecer farmácia, e pouco a pouco foi tomando conta do terreno, até que de todo substituiu o primeiro nome. Eu assisti à queda de um e a ascensão do outro. Os que nasceram posteriormente, acostumados a ouvir farmácia, chegam a não entender o soneto de Tolentino: Numa escura botica encantoados, etc., mas é assim com o resto; palavras aposentam-se. Algumas ainda têm o magro ordenado sem gratificação, que lhes possam dar eruditos; outras caem na miséria e morrem de fome.

Mas, como ia dizendo, criei-me e vivi na veneração da farmácia. Perdi muita crença, o vento levou-me as ilusões mais verdes do jardim da minha alma; não me levou os específicos. Vem agora, não um homem qualquer, mas um competente, um augur, e declara público e raso que, no capítulo dos específicos, há só três; tudo o mais ilusão. Criatura perversa, inimiga dos corações humanos, que direito tens tu de amargurar os meus últimos dias, e os alguns desgraçados, como eu? Que me dás em troca deste imenso desastre? A simpatia, dizes tu; ah! mas não era melhor decretar a serumpatia como um novo especifico, um canonizado recente, encomendá-la à veneração dos leigos, por suas virtudes excelsas e sublimes? A ciência saberia o contrario; mas eu morreria com a boca doce dos meus primeiros anos,

Outros se ocupam também com a serumpatia, e buscam achar aí a morte da febre amarela; mas nenhum deles veio negar os específicos anteriores, não já daquela, mas de todas as doenças. Um deles, o Dr. Miguel Couto, há quatro anos trabalha em descobrir por semelhante via o meio de acabar com o nosso flagelo nacional. Não o achou, mas outros colegas que ainda agora começam igual trabalho reconhecem que a prioridade pertence ao Dr. Couto; é o que lhe nega o Dr. Abel Parente, cujo argumento é que ele não levou a idéia a efeito, nem escreveu nada. A diferença entre um e outro é que, no entender do primeiro, o serum deve ser mais ativo e eficaz, quanto mais próximo o convalescente estiver da terminação da moléstia; no do segundo, é que o serum deve ser extraído três ou quatro semanas depois de iniciada a convalescença.

Sobre a prioridade, direi apenas que não há Colombo sem Américo Vespúcio, e por conseguinte pode muito bem vir a ter razão o segundo dos facultativos. Este ainda ontem, respondendo ao primeiro, que parece não crer que os convalescentes se submetam à sangria, para salvar outros doentes, responde-lhe: “Creio que, salvo as exceções, todos oferecerão generosamente o próprio sangue para salvar a vida alheia ameaçada; creio que este ato generoso o homem praticaria também, se soubesse de antemão que o seu sangue deve servir para salvar a vida de um figadal inimigo, ainda se depois preciso for cravar-lhe um punhal no coração e ter

o prazer infernal de beber o próprio sangue no sangue do inimigo.”

De pleno acordo. A minha única dúvida é se, antes de combinado o prazo, o doente receberá facilmente o sangue de um dia ou de quatro semanas. Eu hesitaria. Em suma, o que é preciso, é que a morte não continue a dizer aos enfermos que vão com ter ela:

— Meus filhos, vireis para cá enquanto por lá não acertarem com o específico da febre amarela. Eu só conheço três específicos, desde Hipócrates, o mercúrio contra a sífilis, o quinino contra a malária e o silicato de sódio contra o reumatismo articular, e ainda assim não chegaram as encomendas; daí vem que muitos morrem, apesar de muito bem especificados.

2 de fevereiro

Avocat, oh! passons au déluge! Antes que me digas isso, começo por ele. Não esperes ouvir de mim senão que foi e vai querendo ser o maior de todos os dilúvios. Sei que o espetáculo do presente tira a memória do passado, e mais dói uma alfinetada agora que um calo há um ano. Mas, em verdade, a água, depois de ter sido enorme, tornou-se constante, geral e aborrecida.

Mais depressa que as demandas, a chuva deitou abaixo muitas casas que estavam condenadas a isso pela engenharia; mas as demandas tinham por fim justamente demonstrar que as casas não podiam cair sem dilúvio, e a prova é que este as derruiu. Se deixou em pé as que não estavam condenadas (nem todas), não foi culpa minha nem tua, nem talvez dele, mas da construção. Ruas fizeram-se lagoas, como sabes, e o trânsito ficou interrompido em muitas delas; mas isto não é propriamente noticiário que haja de dizer e repetir o que leste nas folhas da semana, — não somente daqui, mas de outras cidades e vilas interiores. Tratando da nossa boa capital, acho que devemos atribuir o dilúvio, esta vez, antes ao amor que a cólera do céu. O céu também é sanitário. Uma grande lavagem pode mais que muitas discussões terapêuticas. Com a chuva que se seguiu ao dilúvio, vimos diminuir os casos da epidemia, enquanto que os simples debates nos jornais não salvaram ninguém da morte.

Podia citar dilúvios anteriores, — os dois, pelo menos, que tivemos nos últimos quinze anos, ambos os quais (se me não engano) mataram gente com as suas simples águas. Águas passadas. O primeiro desses durou uma noite quase inteira; o segundo começou a uma ou duas horas da tarde e acabou às sete. Era domingo, e creio que de Páscoa. Mas um e outro tiveram um predecessor medonho o de 1864, que antecedeu ou sucedeu, um mês certo, ao dilúvio da praça. O da praça arrastou consigo todas as casas bancárias, ficando só os prédios e os credores. Não perdi nada com um nem outro. Pude, sim, verificar como os poetas acertam quando comparam a multidão às águas. Vi muitas vezes as ruas perpendiculares ao mar cheias de água que desciam correndo. Uma dessas vezes foi justamente a do dilúvio de 1864; a sala da redação de um jornal, ora morto, estava alagada; desci pela escada, que era uma cachoeira, cheguei as portas de saída, todas fechadas, exceto a metade de uma, onde o guarda-livros, com o olho na rua, espreitava a ocasião de sair logo que as paredes da casa arreassem. Pois as águas que desciam por essas e outras ruas não eram mais nem menos que as multidões de gente que desceram por elas no dia do dilúvio bancário.

Pior que tudo, porém, se a tradição não mente, foram as águas do monte, assim chamadas por terem feito desabar parte do morro do Castelo. Sabes que essas águas caíram em 1811 e duraram sete dias deste mês de fevereiro. Parece que o nosso século, nascido com água, não quer morrer sem ela. Não menos parece que

o morro do Castelo, cansado de esperar que o arrasem, segundo velhos planos, está resoluto a prosseguir e acabar a obra de 1811. Naquele ano chegaram a andar canoas pelas ruas; assim se comprou e vendeu, assim se fizeram visitas e salvamentos. Também é possível, como ainda viviam náiades, que assim as fossem buscar as fontes. Talvez até se pescassem amores.

Se remontares ainda uns sessenta anos, terás o dilúvio de 1756, que uniu a cidade ao mar e durou três longos dias de vinte e quatro horas. Mais que em 1811, as canoas serviram aos habitantes, e o perigo ensinou a estes a navegação. Uma das canoas trouxe da rua da Saúde (antiga Valongo) até a igreja do Rosário não menos de sete pessoas. Naturalmente não vieram a passeio, mas à reza, como toda a gente, que era então pouca e devota. Caíram casas dessa vez; a população refugiou-se ao pé dos altares. Afinal, como a cidade não tinha ainda contados os seus dias, fecharam-se as cataratas do céu; as águas baixaram e os pés voltaram a pisar este nosso chão amado.

Remontando ainda, poderíamos achar outros dilúvios pela aurora colonial e pela noite dos tamoios; mas, isto de chuva continuada não sei se é mais aborrecido vê-la cair que ouvi-la contar. Shakespeare põe este trocadilho na boca de Laertes, quando sabe que a irmã morreu afogada no rio: “Já tens água de mais, pobre Ofélia; saberei reter as minhas lágrimas.” Retenhamos a tinta. A tinta de escrever faz as tristes chuvas do espírito, e em tais casos não há canoas que naveguem: é apanhar ou fugir. Por isso não falo do dilúvio universal, como era meu propósito. Queria lembrar que, por essa ocasião, uma família justa foi achada e poupada ao mal de todos. Verdade é que os seus descendentes saíram tão ruins, em grande parte, como os que morreram, e melhor seria que os próprios justos acabassem; mas, enfim, lá vai. Dar-se-á, porém, se estamos no começo de outro dilúvio universal, que não haja agora exceção de família nem se salve a memória dos nossos pecados?

Uma senhora, a quem propus esta questão por meias palavras, acudiu que não pode ser, que não tem medo e citou a folhinha de Ayer. Leu-me que teremos bom tempo e calor grande daqui a dias, e pouco depois novo transbordamento de rios, como agora está sucedendo, desde o das Caboclas até o Paraíba do Sul. O primeiro ainda não transborda, mas não tarda. Confessou-me que não crê nos remédios de Ayer, mas nos almanaques. Os almanaques são certos. Se eles dessem os números das sortes grandes e os nomes dos bichos vencedores seriam os primeiros almanaques do mundo. Entretanto, não duvida que um dia cheguem a tal perfeição. O mundo caminha para a saúde e para a riqueza universais, concluiu ela; assim se explicam os debates sobre medicina e economia e a fé crescente nos xaropes e seus derivados.

9 de fevereiro

Pessoa que já serviu na polícia secreta de Londres e de New York tem anunciado nos nossos diários que oferece os seus préstimos para descobrir coisas furtadas ou

perdidas. Não publica o nome; prova de que é realmente um ex-secreta inglês ou americano. A primeira idéia do ex-secreta local seria imprimir o nome, com indicação da residência. Não há ofício que não traga louros, e os louros fizeram-se para os olhos dos homens. Não tenho perdido nada, nem por furto, nem por outra via; deixo de recorrer aos préstimos do anunciante, mas aproveito esta coluna para recomendá-los aos meus amigos e leitores.

Não é oferecer pouco. Toda a gente tem visto a dificuldade em que se anda para descobrir uns autos que desapareceram, não se sabe se por ação de Pedro, se por descuido de Paulo. Para tais casos é que o ex-funcionário de New York e de Londres servia perfeitamente. A prática dos homens, o conhecimento direto dos réus, o estudo detido dos espíritos, quando são deveras culpados, e torcem-se, e fogem, e mergulham para surdir além, supondo que o secreta está longe, e dão com ele ao pé de si, são elementos seguros e necessários para descobrir as coisas furtadas ou perdidas, e, na primeira hipótese, para fazer o autor da subtração à luz pública. Os corações pios não quereriam tanto; amando a coisa furtada, contentar-se-iam em reavê-la, não indo ao ponto de exigir que prendessem e castigassem o triste do pecador.

Há três figuras impalpáveis na história, sem contar o Máscara de Ferro: são o homem dos autos, o homem do chapéu de Chile e o homem da capa preta. O do chapéu de Chile, que ainda ninguém atinou quem fosse, bem podia ser que já estivesse fotografado e exposto a venda na casa Naté, se o negócio fosse incumbido ao anunciante. Não juro, mas podia ser. O mesmo digo acerca do homem dos autos, menos o retrato e a Naté, que só aceita pessoas políticas. Quanto ao homem da capa preta, perde-se na noite dos tempos, e não sei se o ex-secreta chegaria a ponto de descobri-lo. Desde criança, ouço este final de toda narração obscura ou desesperada: e vão agora pegar no homem da capa preta. A princípio, ficava com medo. Um dia, pedi a explicação a alguém, que acabava justamente de concluir uma história com tal desfecho. A pessoa interrogada (com verdade ou sem ela) disse-me que era um homem que furtara uma capa escura e andava depressa.

Se assim é, — e supondo que esteja vivo, — é natural que apenas deixe a capa nas mãos do ex-agente de Londres e de New York; o corpo continuará a fugir, e com ele o problema histórico. A polícia, se quiser o retrato do homem, terá de se contentar com a simples reprodução astral ou como quer que se chame aquela parte da gente que não é corpo nem espírito. Um oculista do meu conhecimento disse-me o nome da coisa, que só pode ser fotografada às escuras. Eu é que perco os nomes com grande facilidade; mas é astral ou acaba por aí. Será o único modo de possuir trecho do homem da capa preta; ainda assim, é duvidoso que o alcance, porque ele corre tanto que seguramente corre mais que a ciência.

Pois que a fortuna trouxe às nossas dagas um perfeito conhecedor do ofício, erro é não aproveitá-lo. Não se perdem somente objetos; perdem-se também vidas, nem sempre se sabe quem é que as leva. Ora, conquanto não se achem as vidas perdidas, importa conhecer as causas da perda, quando escapam à ação da lei ou da autoridade. Não foi assassínio, mas suicídio dessa Ambrozina Cananéa, que deixou a vida esta semana. Era uma pobre mulher trabalhadeira, com dois filhos adolescentes e mãe valetudinária; morava nos fundos de uma estalagem da rua da Providência. O filho era empregado, a filha aprendia a fazer flores... Não sei se te lembras do acontecimento: tais são os casos de sangue destes dias que é natural vir o fastio e ir-se a memória. Pois fica lembrado.

A causa do suicídio não foi a pobreza, ainda que a pessoa era pobre. Nem desprezo de homem, nem ciúmes. A carta deixada dizia em começo: “Vou dar-te a última prova de amizade... É impossível mais tolerar a vida por tua causa; deixando eu de existir, você deixa de sofrer.” Você é uma mocinha de dezesseis anos, vizinha, dizem que bonita, amiga da morta. Segundo a carta, a mocinha era castigada por motivo daquela afeição, tudo de mistura com um casamento que lhe queriam impor; mas o casamento não vem ao caso, nem quero saber dele. Pode ser até que nem exista; mas se existe, fique onde está. Não faltam casamentos neste mundo, bons nem maus, e até execráveis, e até excelentes.

O que é único, é esta amiga que se mata para que a outra não padeça. A outra era diariamente espancada, quase todos o vizinhos o sabiam pelos gritos e pelo pranto da vítima, — “tudo por causa da nova amizade.” Não podendo atalhar o mal da amiga, Ambrozina buscou um veneno, meteu no seio as cartas da amiga e acabou com a vida em cinco minutos: “Adeus, Matilde; recebe o meu último suspiro.”

Os tempos, desde a antiguidade, têm ouvido suspiros desses, mas não são últimos. Que a morte de uma trouxesse a da outra, voluntária e terrível, não seria comum, mas confirmaria a amizade. As afeições grandes podem não suportar a viuvez. O que é único é este caso da rua da Providência, — com a agravante de que a lembrança da mãe e dos filhos formam o post-scriptum da carta. Acaso seriam o post-scriptum na vida? Ao médico não custará dizer que é um caso patológico, ao romancista que é um problema psicológico. Quem eu quisera ouvir sobre isto era o ex-secreta de Londres e de New York, onde a polícia pode ser que penetre além do delito e suas provas, e passeie na alma da gente, como tu por tua casa.

16 de fevereiro

Que excelente dia para deixar aqui na coluna em branco! Ninguém hoje quer ler crônicas. Os antigos políticos esquivam-se; os processos de sensação, as facadas, uma ou outra descompostura, não conseguem neste domingo gordo entrar pela alma do Rio de Janeiro. Só se lerá o itinerário das sociedades carnavalescas, que este ano são numerosíssimas, a julgar pelos títulos. O carnaval é o momento histórico do ano. Paixões, interesses, mazelas, tristezas, tudo pega em si e vai viver em outra parte.

A própria morte nestes três dias deve ser jovial e os enterros sem melancolia. A cor do luto podia ser amarela, que de mais a mais é o luto em algumas partes remotas, se bem me lembra. Verdadeiramente não me lembra nada ou quase nada. Ouço já um ensaio de tambores, que me traz unicamente à memória o carnaval do ano passado.

Uma das sociedades carnavalescas que tinha de sair hoje e não sai, é a que se denominou Nossa Senhora da Conceição. Há de parecer esquisito este título, mas se a intenção é que salva, a sociedade vai para o céu. Os autores da idéia são, com certeza fiéis devotos da Virgem, e não têm o carnaval por obra do diabo. A Virgem é o maior dos nossos oragos; nas casas mais pobres pode não haver um Cristo, mas sempre haverá uma imagem de Nossa Senhora. Além do lugar excelso que lhe cabe na hagiologia, a Virgem é a natural devoção dos corações maviosos. O chamado marianismo, se existe, — coisa que ignoro, por não ser matéria de crônica, — acharia aqui um asilo forte e grande. Por isso, digo e repito que intenção foi boa e aceita pelos colaboradores com piedade e entusiasmo.

Entretanto, concordo com a proibição e creio que a sociedade ou grupo de que se trata, se tem igual gosto às idéias profanas, deve adotar denominação adequada. Não faltam títulos, e, pesquisando bem, sempre os há novos.

Penso haver já transcrito aqui a máxima de um senador das Alagoas, no antigo senado imperial. Não queria ele que as eleições se fizessem nas igrejas, como era antigamente, por efeito de uma lei destinada a impedir a violência dos partidos. A lei que, como todas as leis, não podia fazer milagres, não conseguia livrar uma só cabeça ou barriga do cacete ou da navalha, apesar da santidade do lugar. As urnas recebiam cédulas falsas ou eram quebradas. Ouvia-se o trabuco, o dichote obsceno e o resto. Ora, o senador Dantas (chamava-se Dantas) trabalhava contra a profanação, e formulou esta máxima: “As coisas da rua não devem ir à igreja, nem da igreja sair à rua.” Referia-se, nesta segunda parte, às procissões. Que diria ele hoje se lesse aquela mistura da Virgem e dos confetti?

Pode ser que, ainda tendo idéias profanas, falte, ao vedado grupo o tempo de as meter nos carros. Sabe-se que, pelo carnaval, as idéias andam de carro, e no resto do ano a pé. Talvez por isso é que se cansam mais no resto do ano, e algumas caem e morrem na estrada. De carro, não é assim; aos cavalos fica o esforço de as conduzir e divulgar. Quando sucede encarnarem-se em damas vestidas com luxo e despidas com arte, nem por isso são menos idéias, particulares ou públicas.

Os confetti já fizeram obra durante a segunda metade da semana. Muita moça voltou ontem para casa com a cabeça coberta deles, e não descontente, ao menos que se visse. Há quem creia que o carnaval tende a alargar os seus dias. Realmente, não bastam setenta e duas horas para a alegria de uma cidade como esta, ainda mesmo não dormindo; tais são os sustos as tristezas, as cóleras e aflições dos outros dias do ano, não contando o tumulto dos negócios, que uma semana ou duas para rir e saltar não seria de mais. O tempo, em geral, é curto, mas o ano é comprido.

Não temo, como alguns, que a febre amarela saia destes três dias mais vigorosa que até ontem. A febre amarela, não se sabendo que seja, nem com que se cura, tem já de si a vantagem de não precisar de máscara. Que se divirta se quer, que deixe sossegados e convalescidos os seus enfermos. Concedo que, logo depois das festas, ainda mate a alguns, não se podendo impedir que as constipações, indigestões e outros incidentes próprios da quadra descambem na epidemia; mas daqui a imaginar que vai recrudescer, acabado o carnaval, é temerário.

Parece que se trata de dar municipalmente um prêmio de cinqüenta contos de réis a quem descobrir o remédio certo para curar os doentes de tal peste. Não sou intendente, mas tenho amigos na intendência (dois, ao menos) e tomo a liberdade de lhes propor alvitre diverso e mais seguro. Francamente, estou que, oferecido o prêmio de cinqüenta contos, vai aparecer o específico verdadeiro contra a febre amarela e não um, mas ainda três ou quatro. A rigor, não se pode dar a um só o que também pertence aos outros, e haver-se-á de dividir a verba, o que não é leal, ou aumentá-la. O aumento, agora que estamos com o empréstimo fechado deste ontem, é que eu proporia, se adotasse o princípio da lei. Poder-se-ia fazer alguma economia, estipulando a cláusula de não ser dado o prêmio, caso o específico deixasse de curar no segundo ano do emprego. Era sempre um recurso, e não dos mais precários. Os remédios envelhecem depressa; alguns há que morrem no berço.

Mas, como disse, não aceito o princípio da lei proposta. Se me quisessem ouvir, eu não excitaria a imaginação farmacêutica, já de si escaldada; eu ouviria particularmente a engenharia, para que me dissesse se não possui artes propriamente suas para deitar fora de uma vez esta nossa hóspede. Curá-la é bom, matá-la é melhor. Ouviria também a medicina. Ouviria a todos, sem excluir as finanças, pois que tal obra, se obra houvesse, exigira muito dinheiro; mas antes gastar dinheiro que perder a fama e as vidas. Era caso de outro e maior empréstimo.

Começo a falar triste. Fora com despesas, fora com moléstias, riamos que a hora é de Momo. Evohé! Bacchus est roi! Sinto não lhes poder transcrever aqui a música deste velho estribilho de uma opereta que lá vai. Era um coro cantado e dançado no Alcazar Lírico, onde está hoje se me não engano, uma confeitaria. As damas decentemente vestidas de calças de seda justinhas que pareciam ser as próprias pernas em carne e osso, mandavam o pé aos narizes dos parceiros. Os parceiros, com igual brio e ginástica, faziam a mesma coisa aos narizes das damas, a orquestra engrossava, o povo aplaudia, a princípio louco, depois louco furioso, até que tudo acabava no delírio universal dos pés, das mãos e dos trombones. Leitor amigo, substituí Baco por Momo, e canta com a música de há vinte e cinco anos:

Evohé! Momus est roi!

23 de fevereiro

Posto que eu não visse com estes olhos, dizem os jornais e dizem os meus amigos que nunca houve tanta gente na cidade como esta terça-feira última. Trezentas mil pessoas? Quatrocentas mil? Divergem os cálculos, mas todos estão de acordo que a multidão foi enorme. Os episódios que se contam, os milagres de equilíbrio e de paciência que tiveram de operar os concorrentes dos arrabaldes e dos subúrbios para alcançar e conquistar um lugar nos veículos são realmente dignos de memória. Tudo isso no meio da mais santa paz. Uma polícia bem feita e a alegria coroando a festa.

Ora, ainda bem, minha boa e leal cidade, é assim que te quero ver, animada, jovial e ordeira, pronta para rir, quando for necessário, e não menos para venerar, quando preciso. Além do mais, deste prova de que não crês em boatos. Podes ouvi-los e passá-los adiante, mas, chegado o momento de crer, não crês. A verdade é que para tudo correr bem, nem sequer choveu um pingo. Podia ter havido algum apertão que esmagasse uma pessoa, ao menos; nada, absolutamente nada. O mais que se deu foi a perda de um menino, por nome Zabulon, que é de crer esteja a esta hora restituído a seus pais, salvo se o pegou alguma dessas mulheres que se ocupam em apanhar crianças. Há pouco sucedeu um de tais raptos, não concluído por ter sido a tempo descoberto.

Não sei para que tais mulheres querem as crianças dos outros. Se são bruxas não são da família da Bruxa do Olavo Bilac e Julião Machado; esta rapta, mas tão somente as nossas melancolias. Quererão vender as crianças, fazê-las freiras e frades, ou o contrário deles? O costume não é novo. Há muitos anos andou aqui em cena um melodrama, a Roubadora de Crianças, que eu não vi representar, mas o assunto era como diz o título. Dickens, em Oliver Twist, põe uma escola composta de meninos apanhados aqui e ali, para aprender o ofício de gatuno. Os diplomados saem depois do almoço e voltam à tarde, com o produto do ofício. Os novatos ficam aprendendo com o fundador do estabelecimento. Mas haverá aqui necessidade de escola? As vocações não são naturais e vivas e a arte não vem com a prática? Quando não é a vocação que traz a profissão, e o exemplo, a necessidade ou qualquer causa semelhante.

Isto quanto aos gatunos de lenços e relógios. Pelo que respeita aos salteadores em bando, não basta a vocação: é preciso coragem grande, muita ordem, disciplina e pólvora. Esta semana foi aqui recebida a notícia de ter sido morto o chefe dos clavinoteiros da Bahia. Lá houve prazer e aqui alguma curiosidade; mas, não conhecendo nós a organização daquele famoso bando, não sabemos o modo da substituição do chefe. Será por simples eleição ou aclamação? Neste caso, rei morto, rei posto e eles possuirão a esta hora um chefe novo. Ao contrário da França, quando Luiz XVIII lá entrou, nada há mudado na Bahia: há um clavinoteiro menos.

Enquanto esse bando perdia a cabeça, outro bando reduzia a povoação de Cochó a um montão de ruínas. Eu nunca vi Cochó e, — ao invés do poeta, — não tenho pena. Deve ter sido uma calamidade, se é certo o que dizem as notícias; verdade é que estas metem a política no meio, coisa difícil de engolir, salvo se já todos perderam o juízo. Se a política por esses lugares vai ao roubo, ao estupro e ao incêndio, não é política. Bom é desconfiar de paixões. Seja o que for, dizem que a povoação de Queimadinhas está ameaçada de igual destino.

Comparemos as nossas festas do princípio da semana, aqui, em S. Paulo e outras cidades, com as destruições do sertão da Bahia, as cenas de Cuba e de outras partes do mundo. Parece que há neste fim de século um concerto universal de atrocidades. Cuba há de verter muito sangue, primeiro que conquiste a independência ou que espere por outra revolução. A ordem de matar agora os revolucionários prisioneiros, ato contínuo, pode ser que não traga a nota da humanidade, mas é precisa para acabar com uma luta que começa aborrecer, não por falta de graça mas por muito comprida.

Trata-se não menos que de conservar à Espanha algo do que foi. “A Espanha, senhores, (exclamava Castelar um dia no Congresso) a Espanha atou aos pés o mar como uma esmeralda, e o céu à fronte como uma safira!” Trata-se de não perder o melhor da esmeralda, e tem razão a Espanha. Para os cubanos trata-se de ganhar a liberdade, e tem razão Cuba. Para dirimir a questão é que se inventou a pólvora, e, antes dela, o ferro e o aço.

Não é mister dizer o que está fazendo a Coréia. Agora, há pouco, matou tanto e de tal maneira, que foi preciso matá-la também. Uns pensam que foi o amor da liberdade que estripou tanta gente, outros inculcam que foi o amor da Rússia; mas, como o sangue derramado e todo vermelho, ponhamos que tem cor mas que lhe falta opinião. Já não falo da Abissínia, onde o negus e os seus rases fazem coisas só próprias de gente que da civilização apenas conhece a tática e estratégia. Também lá há sangue, fome e ranger de dentes, mas esperemos que a civilização vença algum dia. Sobre os armênios não há que dizer senão que os turcos os matam e eles aos turcos.

O que importa notar é que todas essas multidões de mortos, — por uma causa justa ou injusta, — são os figurantes anônimos da tragédia universal e humana. As primeiras partes sobrevivem, e dessas celebrou-se justamente ontem a melhor e maior de todas, Washington. Singular raça esta que produziu os dois varões mais incomparáveis da história política e do engenho humano. O segundo não é preciso dizer que é Shakespeare.

1 de março

Lulu Senior disse quinta-feira que Petrópolis está deitando as manguinhas de fora. Não serei eu que o negue, mas o fenômeno explica-se facilmente. Eu, há já alguns pares de anos, engenhei um pequeno poema, cujo primeiro verso era este:

Baias era a Petrópolis latina.

Entende-se bem que a comparação vinha da vida elegante e risonha da antiga Baias, tão buscada daqueles romanos nobres e opulentos, que ali iam descansar de Roma. Vinha também da situação de duas cidades de recreio, conquanto Petrópolis não banhe os pés no mar. Mas a serras aqui valem os golfos do velho mundo; ficam mais perto do sol. No mais os prazeres eram diferentes, como é diferente a vida moderna. Petrópolis, ao domingo, vai à casa de Maria Santíssima com o livro de rezas na mão; Baias, sem dia certo acolhia-se ao tempo de Vênus Genetrix. Sinto deveras haver esquecido os outros versos. A minha memória compõe-se de muitas alcovas meio-escuras e poucas salas claras; às vezes, para achar uma coisa, desço ao porão com lanterna. Mas, enfim, se esqueci os versos é que não mereciam mais.

Antes de 15 de novembro, Petrópolis sofria bem qualquer comparação daquelas; mas a revolução política deu à nossa cidade internacional de recreio um ar de estupor, que a deixou lesa de ambos os lados. Ao cabo de alguns meses começou a sarar. Sobreveio, porém, a revolta de setembro, agravou-se-lhe a moléstia, e se não levou a breca foi porque as cidades não morrem tão depressa como os homens. A estes basta agora morar em um dos bairros daqui (Laranjeiras, por exemplo) para que a febre amarela os tome e leve em poucas horas, com todas as cerimônias póstumas de ambas as autoridades, a eclesiástica e a médica.

Um dia acabou a revolta, — ramal ou prolongamento da revolução do Rio Grande do Sul, que também acabou. Petrópolis, lá de cima, espiou cá para baixo e, vendo tudo em paz segura, sarou de repente. Achou-se, é certo, convertida em capital de um Estado, único prêmio (salvo alguns discursos e artigos) que a triste Praia Grande colheu do combate de 9 de fevereiro. Não contesto que os Estados devam andar asseados e mudar de capital como nós de camisa; mas, enfim, a velha Praia Grande pode suspeitar que foi por estar manchada de sangue que a degradaram, quando a verdade é que a troca de capital não nasceu senão de um sentimento de elegância muito respeitável. O que a pode consolar é que Petrópolis não tem vocação administrativa nem política. Naturalmente faz que não vê o governador do Estado, não ouve nem lê os discursos da assembléia, e trata de se refazer e continuar o que dantes era.

La République manque de femmes, disse consigo a nova capital, e cuidou de lhe dar esta costela. Talvez o dito do republicano francês não caiba aqui inteiramente. As instituições francesas, quaisquer que sejam, precisam de mulheres. A própria revolução, salvo a ditadura de Robespierre, não as dispensou de todo. A Suíça, Esparta e outros Estados de instituições mais ou menos parecidas, dispensam mulheres. A razão penso ser que a sociedade francesa não vai sem conversação, e os franceses não acreditam que haja conversação sem damas.

Ninguém há que aprecie mais as mulheres do que nós; mas aqui e difícil vê-las juntas sem fazê-las dançar e dançar com elas. Uma só que seja, podemos dizer-lhe coisas bonitas, enquanto não ouvimos uma valsa; em ouvindo a valsa, deitamos-lhe o braço à roda da cintura e fazemos dois ou três giros. Vou revelar ao público um segredo da imprensa diária. Esta frase: “as danças prolongaram-se até a madrugada” está já fundida na tipografia, e só meter o cliché no fim da notícia. Às vezes, a ocasião é lúgubre como um enterro. Um cidadão recebe o seu retrato, lugubremente pintado por artista que apenas aspirava a gravidade e nobreza do porte. Ao discurso da comissão, não menos entusiasta que lúgubre, responde o cidadão com lágrimas na voz. Apertam-se as mãos, admira-se o retrato, serve-se a clássica mesa de doces. São nove horas da noite, uma senhora canta uma ária, palmas, cumprimentos, até que o compadre da família (todas as famílias têm este compadre) propõe que se dance um pouco. É a voz de Israel falando por uma só boca, e “as danças prolongam-se até à madrugada.”

Portanto, não é exatamente de mulheres que a República precisa: é de pares para os seus cavalheiros. Nem sempre se dançará, mas brincar, batalhar com flores são formas de dança, dão a nota da alegria, que é a flor da saúde. As instituições passam, mas a alegria fica. Petrópolis não terá muitas das antigas estrelas, que se foram a outros céus ou fecharam as suas portas de ouro; mas tem algumas e descobriu novas, com as quais forma o seu firmamento de hoje. A esta renascença de Petrópolis é que Lulu Senior chama deitar as manguinhas de fora, como se ele não fosse dos que a ajudam nessa operação.

Renasce com a vida cara, segundo disse esta semana um dos seus deputados, por esta frase, a um tempo familiar e severa: “Tudo está pela hora da morte!” Petrópolis podia perguntar ao seu deputado, se o ouvisse ou lesse, onde é que a vida não está pela hora da morte. Não é na Capital Federal, em que o próprio ar que respiramos custa, às vezes, o preço de um enterro. Mas esse mesmo orador dissera antes, no começo do discurso, que “não há céu sem nuvens nem mar sem praias”, reconhecendo assim, não sem vulgaridade, que o mal não é privilégio de ninguém, mas que ainda assim tudo tem um limite.

Tanto isto é verdade que, se uma das nossas praias deu o mal da morte ao Dr. Sinfrônio, outra acaba de recolher o seu cadáver. Quando começou o inquérito, o mar ficou mudo como os seus peixes; mas os depoimentos foram tão obscuros e vagos, que ele, compadecido da família, pôs termo às suas esperanças. Não farei aqui o panegírico daquele bom e distinto cidadão; não é costume desta crônica. Uma palavra, dois adjetivos merecidos, e basta. Pobre Sinfrônio!

Não quero entrar pela tristeza; por isso não direi nada daquele moço que tentou matar-se por amar a uma moça de Campos que o não amava. Também não falo do relatório com que fechou o inquérito acerca daquela Ambrosina que se matou por causa de outra moça, que a amava. Vede como duas causas contrárias produzem mesmo efeito. A explicação disto também não é difícil, mas já me falta papel. Em resumo: sou da opinião de Petrópolis: deitar as manguinhas de fora que chorar. O riso é saúde.

8 de março

No tempo do Romantismo, quando o nosso Álvares de Azevedo cantava, repleto de Byron e Musset:

A Itália! sempre a Itália delirante! E os ardentes saraus e as noites belas!

a Itália era um composto de Estados minúsculos, convidando ao amor e à poesia, sem embargo da prisão em que pudessem cair alguns liberais. Há livros que se não escreveriam sem essa divisão política, a Chartreuse de Parme, por exemplo; mal se pode conceber aquele Conde Mosca senão sendo ministro de Ernesto IV de Parma. O ministro Crispi não teria tempo nem gosto de ir namorar no Scala de Milão a Duquesa de Sanseverina. Era assim parcelada que nós, os rapazes anteriores à tríplice aliança e apenas contemporâneos de Cavour, imaginávamos a Itália e passeávamos por ela.

Agora a Itália é um grande reino que já não fala a poetas, apesar do seu Carducci, mas a políticos e economistas, e entra a ferro e fogo pela África, como as demais potências européias. O grande desastre desta semana, se foi sentido por todos os amigos da Itália, é também prova certa de que a civilização não é um passeio, e para vencer o próximo imperador da Etiópia é necessário haver muita constância e muita força. Os italianos mostraram essa mesma opinião dando com Crispi em terra, — por quantos meses? Eis o que só nos pode dizer o cabo, em alguma bela manhã, ou bela tarde, se a Notícia se antecipar às outras folhas. Quanto à guerra, é certo que continuará e o mesmo ardor com que o povo derribou Crispi saudará a vitória próxima e maiormente a definitiva. Cumpra-se o que dizia o poeta naqueles versos com que Machiavelli fecha o seu livro mais célebre:

Che l'antico valore Nell'italici cuor mon è ancor morto.

Nós cá não temos Menelick, mas temos o câmbio, que, se não é abexim como ele, é de raça pior. Inimigo sorrateiro e calado, já está em oito e tanto e ninguém sabe onde parará; é capaz de nem parar em zero e descer abaixo dele uns oito graus ou nove. Nesse dia, em vez de possuirmos trezentos réis em cada dez tostões, passaremos a dever os ditos trezentos réis, desde que a desgraça nos ponha dez tostões nas mãos. Donde se conclui que até a ladroeira acabará. Roubar para quê?

O mal do câmbio parece-se um pouco com o da febre amarela, mas, para a febre amarela, a magnésia fluida de Murray, que até agora só curava dor de cabeça e indigestões, é específico provado reste verão, segundo leio impresso em grande placa de ferro. Que magnésia há contra o cambio? Que Murray já descobriu o modo certo de acabar com a decadência progressiva do nosso triste dinheiro com as fomes que aí vêm, e os meios luxos, os quartos de luxo, outras conseqüências melancólicas deste mal?

Um economista apareceu esta semana lastimando a sucessiva queda de câmbio e acusando por ela o Ministro da Fazenda. Não lhe contesta a inteligência, nem probidade, nem zelo, mas nega-lhe tino e, em prova disto, pergunta-lhe à queima-roupa: Por que não vende a estrada Central do Brasil? A pergunta é tal que nem dá tempo ao ministro para responder que tais matérias pendem de estudo, em primeiro lugar, e, em segundo lugar, que ao Congresso Nacional cabe resolver por último.

Felizmente, não é esse o único remédio lembrado pelo dito economista. Há outro, e porventura mais certo: é auxiliar a venda da Leopoldina e suas estradas. Desde que auxilie esta venda, o ministro mostrará que não lhe falta tino administrativo. Infelizmente, porém, se o segundo remédio por consertar as finanças federais, não faz a mesma causa às do Estado do Rio de Janeiro, tanto que este, em vez de auxiliar a venda das estradas da Leopoldina, trata de as comprar para si. Cumpre advertir que a eficácia deste outro remédio não está na riqueza da Leopoldina, porquanto sobre esse ponto duas opiniões se manifestaram na assembléia fluminense. Uns dizem que a companhia deve vinte e dois mil contos ao Banco do Brasil e está em demanda com o Hipotecário, que lhe pede seis mil. Outros não dizem nada. Entre essas duas opiniões, a escolha é difícil. Não obstante, vemos estes dois remédios contrários: no Estado do Rio a compra da Leopoldina é necessária para que a administração tome conta das estradas, ao passo que a venda da Central é também necessária para que o governo da União não a administre. Verité au-deçà, erreur au-delà.

Neste conflito de remédios ao cambio e às finanças, invoquei a Deus, pedindo-lhe que, como a Tobias, me abrisse os olhos. Deus ouviu-me, um anjo baixou dos céus, tocou-me os olhos e vi claro. Não tinha asas, trazia a forma de outro economista, que publicou anteontem uma exposição do negócio assaz luminosa. Segundo este outro economista, a compra da Leopoldina deve ser feita pelo Estado do Rio de Janeiro, porque tais têm sido os seus negócios precipitados e ilegais (emprega ainda outros nomes feios, dos quais o menos feio é mixórdia) que não haverá capitalistas que a tomem. Não havendo capitalistas que comprem a Leopoldina, cabe ao Estado do Rio de Janeiro comprá-la, atender aos credores, e não devendo administrar as estradas, “porque o Estado é péssimo administrador”, venderá depois a Leopoldina a particulares. Foi então que entendi que a verdade é só um, au-deçà e au-delà; a diferença é transitória, é só o tempo de comprar e vender, ainda com algum sacrifício, diz o economista! No intervalo mete-se uma rolha na boca dos credores. Sabe-se onde é que os alfaiates põem a boca dos credores.

Talvez algum americanista, exaltado ou não, ainda se lembre da palavra de Cleveland quando pela segunda vez assumiu o governo dos Estados Unidos. A palavra é paternalismo e foi empregada para definir o sistema dos que querem fazer do governo um pai. Cleveland condena fortemente esse sistema; mas ele nada pode contra a natureza. O Estado não é mais que uma grande família, cujo chefe deve ser pai de todos.

Aliviado como fiquei do conflito, abri novamente o último livro de Luís Murat e pus-me a reler os versos do poeta. Deus meu, aqui não há estradas nem compras, aqui ninguém deve um real a nenhum banco, a não ser o banco de Apolo; mas este banco empresta para receber em rimas, e o poeta pagou-lhe capital e juros. Posto que ainda moço, Luís Murat tem nome feito, nome e renome merecido. Os versos deste segundo volume das Ondas já foi notado que desdizem do prefácio; mas não é defeito dos versos, senão do prefácio. Os versos respiram vida íntima, amor e melancolia; as próprias páginas da Tristeza do Caos, por mais que queiram, a princípio, ficar na nota impessoal, acabam no pessoal puro e na desesperança.

O poeta tem largo fôlego. Os versos são, às vezes, menos castigados do que cumpria, mas é essa mesma a índole do poeta, que lhe não permite senão produzir como a natureza; os passantes que colham as belas flores entre as ramagens que não têm a mesma igualdade e correção. Luís Murat cultiva a antítese de Hugo como Guerra Junqueiro; eu pedir-lhe-ia moderação, posto reconheça que a sabe empregar com arte. Por fim, aqui lhe deixo as minhas palavras; é o que pode fazer a crônica destes dias.

15 de março

A notícia, boato ou o que quer que seja de uma comissão mista no território contestado, produziu no Pará e no Amazonas grande comoção. O senado e a câmara paraenses resolveram unanimemente protestar contra o ato atribuído ao governo federal e comunicaram isto mesmo por telegrama ao presidente da República. O senado deliberou mais suspender as suas sessões até que o presidente lhe respondesse. Pela publicação oficial de anteontem, sexta-feira, já se sabe quais foram os telegramas trocados, e basta a natureza do fato, que é político, e até de política internacional, para se compreender que não entra no círculo das minhas cogitações. Leis internacionais, constituições federais ou estaduais não são comigo. Eu sou, quando muito, homem de regimento interno.

Ora, é o regimento interno do senado paraense que eu quisera ter aqui, não para verificar se há lá a faculdade de suspender as sessões; ela é de todos os regimentos internos. Mas a hipótese de telegrafar ao presidente da República e suspender as sessões até que ele responda é que absolutamente ignoro se está ou não. Pode ser que esteja, e nesse caso cumpriu-se o regimento interno: dura lex, sed lex. Não examino a questão de saber se deve estar, nem se tal ação pode caber em matéria cuja solução última a Constituição confiou do Congresso Federal. Também não quero indagar se a suspensão das sessões do senado, até que o presidente da República responda, constrange o chefe da União, que não quererá com seu silêncio interromper a obra legislativa do Estado. É um círculo de Popilio, e tais círculos andam na história do mundo. O presidente há de responder antes de almoçar, salvo se conspira contra o Estado donde lhe vem a pergunta, pedido ou moção; mas, se conspira, melhor é declará-lo, em vez de refugiar-se num silêncio prenhe de tempestades. Quando menos, é de mau gosto. Note-se que aqui nem se trata dos interesses de um Estado, nem de toda a República; não há fronteiras amazonenses, mas brasileiras.

Enfim, não tenho que ver se esse ato do senado paraense poderá vir a ser imitado, mais tarde ou mais cedo, em qualquer outra região, e a propósito de questões menos transcendentes, ainda que menos reservadas. A imitação é humana, é civil e política. Considerando bem, um ato destes pode até ser benefício; substitui os riscos de uma revolução. Por isso, ainda não estando no regimento interno, caso haverá em que o melhor recurso seja meter uma pergunta aos peitos da União e suspender os trabalhos. Donde se conclui que o motivo que me levou a tocar no assunto desaparece; melhor seria não ter dito nada.

Assim é o resto das coisas nesta vida de papel impresso. Não é raro o artigo que conclui pelo contrário do que começou. Aos inábeis parece que falta ao escritor lógica ou convicção, quando o que unicamente não há é tempo de fazer outro artigo. No meio ou no fim, percebe ele que começou por um dado errado, mas o tempo exige o trabalho, o editor também, e não há senão concluir que dois e dois são cinco. Vou expor melhor a minha idéia com um recente ofício da polícia das Alagoas.

Quando eu comecei a escrever na imprensa diária achei cada idéia expressa com uma palavra — às vezes com duas, e o afirmo que não chegasse a selo com três. Uma idéia havia, porém, que tinha não menos de cinco palavras a seu serviço: era chefia. E digo mal: não era propriamente a idéia no sentido geral que lhe cabe, não, a chefia de batalhão, de partido, de família, etc. Era unicamente a chefia de polícia. Em polícia, além de chefia, tínhamos chefado. Onde não bastava chefado, havia chefança. Se a chefança não correspondia bem, vinha a chefação. Para suprir a chefação, acudia a chefatura. Creio que aí estão todas as desinências possíveis, salvo chefamento e alguma outra, que não eram usadas.

Trabalhei muito por achar a explicação e tal variedade. Não eram alterações populares; nasciam da imprensa culta e política. Não eram obra de uma ou outra zona; às vezes, a mesma cidade, oficial e particularmente, empregava dois e três termos, e não todos. Cheguei a imaginar que seria na questão de partidos; a falta de idéias dá eleição às palavras. Mas não era; todos os partidos usavam das mesmas formas numerosas. Gosto pessoal? Simpatia? Podia ser, mas não se usando igual processo em relação a outros vocábulos, não chegava a entender por que razão a simpatia ficava só nesta idéia tão particular. Cumpre lembrar que chefia era a forma menos empregada. Seria porque a desinência, afinada e doce, diminuía o valor e a fortaleza da instituição, mais adaptada a chefado, a chefança, a chefação, a chefatura? A língua tem segredos inesperados.

Venhamos ao ofício das Alagoas. É datado da chefatura de polícia de Maceió, alude ao atropelo de cidadãos pacíficos por praças policiais, e continua: “e como não sejam estas as ordens desta chefia”... A primeira impressão que tive foi que, na meio de um conflito lingüístico, tivessem sido adotadas por lei as duas formas, e assim usadas no mesmo ato; era um modo de obter a conciliação que as vontades recusavam. Atentando melhor, pareceu-me que o espírito culto do chefe de polícia acharam assim uma maneira de conservar a forma correta da língua e a enfática da instituição. Mas tal explicação não me ficou por muito tempo. Em breve, achei que a razão do emprego das duas formas está naturalmente em que chefatura anda impressa no cabeçalho do papel de ofícios, e que a autoridade, mais correta que o fornecedor de objetos de expediente, usa a chefia que aprendeu. Nas Alagoas pode haver, como aqui no Rio de Janeiro, a ortografia da casa. Outra imprensa comporá chefança, outra chefação, outra chefado. Talvez o melhor seja conservar chefatura, uma vez que custa barato. Nos tempos difíceis mais vale a economia que a ortografia.

A conclusão que aí fica mostra que esse próprio caso das Alagoas não serve para fundamentar a tese dos artigos que acabam diversamente do que começam. E agora que me falta não é tempo, nem papel, mas espaço. Não careço de ânimo, nem o dia acabou mais cedo; mas vá um homem, naufragado em dois exemplos, catar um terceiro. Não catemos nada.

22 de março

Se todos quantos empunham uma pena, não estão a esta hora tomando notas e coligindo documentos sobre a história desta cidade, não sabem o que são cinqüenta contos de réis. Uma lei municipal, votada esta semana, destina “ao historiador que escrever a história completa do Distrito Federal desde os tempos coloniais até a presente época”, aquela valiosa quantia. O prazo para compor a obra é de cinco anos. O julgamento será confiado a pessoas competentes, a juízo do prefeito.

Não serei eu que maldiga de um ato que põe em relevo o amor da cidade e o apreço das letras. Os historiadores não andam tão fartos, que desdenhem dos proveitos que ora lhes oferecem, nem os legisladores são tão generosos, que lhes dêem todos os dias um prêmio deste vulto. Se todas as capitais da República e algumas cidades ricas concederem igual quantia a quem lhes escrever as memórias, e se o Congresso Federal fizer a mesma coisa em relação ao Brasil, mas por preço naturalmente maior, — digamos quinhentos contos de réis, — a profissão de historiador vai primar sobre muitas outras deste país.

Há só dois pontos em que a recente lei me parece defeituosa. O primeiro é o prazo de cinco anos, que acho longo, em vista do preço. Quando um homem se põe a escrever uma história, sem estar com o olho no dinheiro, mas por simples amor da verdade e do estilo, é natural que despenda cinco anos ou mais no trabalho; mas cinqüenta contos de réis excluem qualquer outro ofício, mal dão seis horas de sono por dia, de maneira que, em dois anos, está a obra, acabada e copiada. Muito antes do fim do século podem ter os cariocas a sua história pronta, substituindo as memórias do Padre Perereca e outras.

O segundo ponto que me parece defeituoso na lei, é que a competência das pessoas que houverem de julgar a obra, dependa do juízo do prefeito. Nós não sabemos quem será o prefeito daqui a cinco anos; pode ser um droguista, e há duas espécies de droguistas, uns que conhecem da competência literária dos críticos, outros que não. Suponhamos que o eleito é da segunda espécie. Que pessoas escolhera ele para dizer dos méritos da composição? Os seus ajudantes de laboratório?

Eu, se fosse intendente, calculando que a história do Distrito Federal podia esperar ainda dois ou três anos, proporia outro fim a uma parte dos contos de réis. Tem-se escrito muito ultimamente acerca do Padre José Maurício, cujas composições, apesar de louvadas desde meio século e mais, estão sendo devoradas pelas traças. Houve idéia de catalogá-las, repará-las e restaurá-las, e foi citado o nome do Sr. Alberto Nepomuceno como podendo incumbir-se de tal trabalho. Este maestro, em carta que a Gazeta inseriu quinta-feira, lembrou um alvitre que “torna a propaganda mais prática, sem nada perder da sua sentimentalidade atual, e põe ao alcance de todos as produções do genial compositor”. O Sr. Nepomuceno desengana que haja editor disposto a imprimir tais obras de graça, empatando, sem esperança de lucro, uma soma não inferior a quarenta contos. A concessão da propriedade é um presente de gregos. O alvitre que propõe, é reduzir para órgão o acompanhamento orquestral das diversas composições e publicá-las. Custaria isto dez contos de réis.

Ora, se o Distrito Federal quisesse divulgar as obras de José Maurício, empregaria nelas os dez contos do método Nepomuceno, ou os quarenta, se lhes desse na cabeça imprimir as obras todas, integralmente. Em ambos os casos ficaríamos esperando o historiador do distrito, salvo se houvesse homem capaz de escrever a história por dez ou ainda por quarenta contos; coisa que me não parece impossível.

Um dos que têm tratado ultimamente das obras e da pessoa do padre, é o Visconde de Taunay. A competência deste, unida ao seu patriotismo, dá aos escritos que ora publica na Revista Brasileira, muito valor; é uma nova cruzada que se levanta, como a do tempo de Porto Alegre. Se não ficar no papel, como a de outrora, dever-se-á a Taunay uma boa parte do resultado.

Outro que também está revivendo matéria do passado, na Revista Brasileira,é Joaquim Nabuco. Conta a vida de seu ilustre pai, não à maneira seca das biografias de almanaque, mas pelo estilo dos ensaios ingleses. Deixe-me dizer-lhe, pois que trato da semana, que o seu juízo da Revolução Praieira, vindo no último número, me pareceu excelente. Não traz aquele cheiro partidário, que sufoca os leitores meramente curiosos, como eu. A mais completa prova da isenção do espírito de Nabuco está na maneira por que funde os dois retratos de Tosta, feitos a pincel partidário, um por Urbano, outro por Figueira de Melo. Cheguei a ver Urbano, em 1860; vi Tosta, ainda robusto, então ministro, dizendo em aparte a um senador da oposição que lhe anunciava a queda do gabinete: “Havemos de sair, não havemos de cair!” Nesta única palavra sentia-se o varão forte de 1848. Quanto a Nunes Machado, trazia-o de cor, desde menino, sem nunca o ter visto: é que o retrato dele andava em toda parte. De Pedro Ivo não conhecia as feições, mas conhecia os belos versos de Álvares de Azevedo, onde os rapazinhos do meu tempo aprendiam a derrubar (de cabeça) todas as tiranias.

29 de março

No meio das moções, artigos, cartas, telegramas, notícias de conspirações e de guerra, atos e palavras, em qualquer sentido, e por mais graves que sejam as situações, há sempre alguém que pensa na recreação dos homens. Vede a Inglaterra. “A Inglaterra é o país do sport por excelência”, disse o Jornal do Comércio de ontem, a propósito da regata entre os estudantes de Oxford e Cambridge, que ontem mesmo se efetuou. O jornal expôs uma planta da parte do Tâmisa onde os universitários mediram as forças e, por meio de um fio telegráfico, estabelecido no escritório, pôde dar notícia do progresso da corrida. Não digo nada a este propósito, visto que escrevo antes de começar a regata inglesa. Noto só que nem Dongola, nem Venezuela, nem Transwaal outras partes arrancam os povos de Londres àquela festa de todos os anos.

Não cubramos a cara. Também aqui, sem temor dos tempos, dois homens pediram ao Conselho Municipal licença, não para uma só espécie de sport, mas para uma ressurreição de todas as idades. Não falo dos cavalinhos e diversões análogas que são a banalidade do gênero e foram o leite da nossa infância. Também não falo das touradas, senão para dizer que, enquanto a Espanha faz das tripas coração para dominar Cuba, e quebra as vidraças dos consulados norte-americanos com gritos de furor e indignação, nós pegamos dos seus touros e toureiros, e vamos vê-los morrer, saltar e morrer, para alegria nossa. Ponho de lado igualmente as corridas de bicicletas e velocípedes, por serem recentes, o que não quer dizer que não tenham graça. Sem circo, dois e mais homens poderão fazer muito bem essas corridas, em qualquer rua larga, como a do Passeio Público, mormente se vier abaixo parte do passeio, como quer um velho projeto. Não sei se este ainda vive, mas há projetos que não morrem.

Vamos ter... Leitor amigo, prepara-te para lamber os beiços. Vamos ter jogos olímpicos, corridas de bigas e quadrigas, ao modo romano e grego, torneios da idade média, conquista de diademas e cortejo às damas, corridas atléticas, caça ao veado. Não é tudo; vamos ter naumaquias. Encher-se-á de água a arena do anfiteatro até a altura de um metro e vinte centímetros. Aí se farão desafios de barcos, à maneira antiga, e podemos acrescentar à de Oxford e Cambridge, torneios em gôndolas de Veneza, e repetir-se-á o cortejo às damas. Combates navais. Desafio de nadadores. Caça aos patos, aos marrecos, etc. Tudo acabará com um grande fogo de artifício sobre água. É quase um sonho esta renascença dos séculos, esta mistura de tempos gregos, romanos, medievais e modernos, que formarão assim uma imagem cabal da civilização sportiva. Se se tratasse de puro e simples divertimento, não creio que fosse obra completa: seria, pelo menos, mui pouco interessante.

Não me pergunteis onde está o gato; obrigar-me-eis a responder que neste projeto, pendente da votação do conselho, não há gato aparente de espécie alguma. Ao contrário, se gato é o que o vulgo chama poule, há proibição formal de vender esse e outros animais donde possa resultar jogo. Quando muito, estabelece um artigo que “em todos os espetáculos haverá vencedor que receberá da administração prêmio em dinheiro ou objeto de valor. Um vencedor só para tantas corridas é pouco, mas é econômico; em todo o caso mostra que não se trata de jogo, mas luta entre valentes, ágeis e hábeis, e o brio é o único chamariz das festas.

Sabei ainda que os empresários não pedem isenção de impostos; ao contrário, é expresso que os pagarão todos e mais quinhentos mil réis por espetáculo para três instituições que indica. Uma delas é o teatro municipal. Anualmente haverá um espetáculo em favor do monte pio dos funcionários do distrito. Prêmios, impostos, donativos, construção do anfiteatro, mobília, cavalos, carros, gôndolas, encanamento de água para encher a arena, pessoal... Tudo isso quer dizer que a empresa ou companhia (o pedido prevê a hipótese de se formar uma sociedade anônima) conta com grande concorrência pública. Se assim não fosse, não se obrigava tantas despesas nem perdia a ocasião de fazer uma bonita loteria.

Entretanto, a população esta desacostumada desse gênero de sport, em cada um entra com dinheiro e sai sem ele. O uso corrente é trazerem alguns uma parte do que os outros deixam. Atualmente, não contando os vários dromos e loterias de decreto, temos a Companhia Piscatória, Nas Frutas, Brasil, Jardim Lotérico e outras instituições, cujos resultados diários são dados por indicações secretas, algumas com as três estrelinhas maçônicas: BRASIL: Veado. — NAS FRUTAS: goiaba, G. 20. — JARDIM LOTÉRICO: Ant... Gallo. Mod... Coelho. Rio... Porco.

Reservado... Cobra. Só a Companhia Piscatória usa de expressões adequadas ao nome: “O coupon de juros sorteado ontem foi o de n. 7 com 22$ cada coupon.” E como todos os dias há coupons sorteados, dá vontade de perguntar quando é que a Companhia Piscatória pesca os seus peixes. Talvez todos os dias. Realmente, não sei onde é que a empresa de jogos olímpicos irá buscar meios de se manter, prosperar e guardar dinheiro. Os acionistas querem dividendos. É o único desejo destes animais. Se os espectadores, por falta de sorteio piscatório, não forem aos jogos olímpicos e combates navais, onde achará os seus meios de viver? Veja o caso de Cunha Sales.

Cunha Sales, inventor do Pantheon Ceroplástico, teve certamente a idéia de só gastar cera com bons defuntos; mas acaba de aprender que a podia gastar com piores. Não falo dos propriamente mortos, mas dos vivos, a quem quis ensinar história por meio de uma vista de pessoas históricas. Não podendo fazê-lo de graça, estabeleceu uma entrada, creio que módica: é o que faz qualquer escola de primeiras letras. As mesmas Faculdades libérrimas aceitam o custo da matrícula. A diferença é que alguns dos espectadores do Ceroplástico recebem um prêmio. Creio que foi esta circunstância que lembrou ao governo mandar anular a patente que deu ao inventor. Mas quem é que perdeu o direito de distribuir uma parte do seu ganho? Por dá-lo todo, estão alguns no Flos Sanctorum; o nosso inventor, por ficar com uma boa parte, está no Index.

5 de abril

Quarta-feira de trevas contradisse este nome pela presença de um grande sol claro. Comigo deu-se ainda um incidente, que mais agravou a divergência entre a significação do dia e a alegria exterior. Eram onze horas da manhã, mais ou menos, ia atravessando a Rua da Misericórdia, quando ouvi tocar uma valsa a dois tempos. Graciosa valsa; o instrumento é que me não parecia piano, e desde criança ouvi sempre dizer que em tal dia não se canta nem toca. Em pouco atinei que eram os sinos da igreja de São José. Pois digo-lhes que dificilmente se lhe acharia falha de uma nota, demora ou precipitação de outra; todas saíam muito bem. O rei Davi, se ali estivesse, faria como outrora, dançaria em plena rua. A arca do Senhor seria a própria igreja de São José, descendente daquele santo rei, segundo São Mateus.

A valsa acabou, mas o silêncio durou poucos minutos. Ouvi algumas notas soltas e espaçadas, esperei: era um trecho de Flotow. Conheceis a ópera Marta? Era a “Ultima Rosa de Verão”, — a velha cantiga The Last Rose of Summer, — música sem trevas, mas cheia daquela melancolia doce de quem perdeu as flores da vida.

Não faria lembrar Jesus; antes imaginei que, se ele ali viesse, podia compor mais uma parábola:

O reino dos céus é semelhante a uma igreja, em cuja torre se tocam as valsas da terra; enquanto a torre chama a dançar, a igreja chama a rezar; bem-aventurados aqueles que, pela oração, esquecerem a valsa, e deixarem murchar sem pena todas as rosas deste mundo...

Outra dissonância da quarta-feira de trevas, — mas desta vez a culpa é do calendário, — foi cair no dia primeiro de abril. Não consta que alguém fosse embaçado. A única notícia de que haveria aqui um terremoto, quinze horas depois de 31 de março, não tirou o sono a ninguém, mormente depois que a gente de Valparaíso viveu de terror pânico os dias 29 e 30 daquele mês, por causa de igual fenômeno, igualmente anunciado. O pequeno tremor do dia 1, em Santiago, não prova nada em favor da profecia ou da ciência.

Todos os peixes apodrecem, leitor; não é de admirar que os carapetões de abril, chamados peixes pelos franceses, venham a ficar moídos. Nesta cidade, em que há contos-do-vigário, ninguém já cai nos laços de abril. A princípio caíam muitos. O Correio Mercantil foi o primeiro, creio eu, que se lembrou de inventar prodígios, exposições, embarques, qualquer coisa extraordinária, na própria manhã daquele dia. Naquele tempo, se me não engano, havia só a folhinha de Laemmert. Os jornais não as davam, menos ainda as lojas de papel. Pouca gente se lembrava da fatal data. Os curiosos corriam ao ponto indicado para ver o caso espantoso. A princípio esperavam; anos depois, já não esperavam, mas passavam e tornavam a passar. Afinal era mais fácil não acudir a ver uma coisa real, que a procurar uma invenção.

Conquanto a credulidade seja eterna, é preciso fazer com ela o que se faz com a moda: variar de feitio. Valentim Magalhães variou de feitio, limitando-se a dar este título de “Primeiro de abril” a um dos seus contos do livro agora publicado. É uma simples idéia engenhosa. Bricabraque é o nome do livro; compõe-se de fantasias, historietas, crônicas, retratos, uma idéia, um quadro, uma recordação, recolhidos daqui e dali, e postos em tal ou qual desordem. A variedade agrada, o tom leve põe relevo à observação graciosa ou cáustica, e o todo exprime bem o espírito agudo e fértil deste moço. O título representa a obra, salvo um defeito, que reconheci, quando quis reler alguma das suas páginas, “Velhos Sem Dono”, por exemplo; o livro traz índice. Um Bricabraque verdadeiro nem devia trazer índice. Quem quisesse reler um conto, que se perdesse a ler uma fantasia.

A vida, que é também um bricabraque, pela definição que lhe dá Valentim Magalhães, (eu acrescentaria que é algumas vezes um simples e único negócio) a vida tem o seu índice no cemitério; mas que preço que levam os impressores por esta última página! Agora mesmo dão os jornais notícia de um carro fúnebre que chegou à casa do defunto duas horas depois da pactuada. Acrescentam que, ao que parece, o coche foi servir primeiro a outro defunto. Enfim, que é um carro velho, estragado e sujo, não contando que a cova estava cheia de lodo, e que o custo total do enterro é pesadíssimo. Tudo isso forma o índice da vida; esta pode ser cara, barata, mediana ou até gratuita, mas a morte é sempre onerosa. Acusa-se disto a Empresa Funerária. Não pode ser; a culpa da impontualidade é antes dos que morrem em desproporção com o material da empresa. Fala-se do privilégio. Não há privilégio, há educação da liberdade; assim como foi preciso preparar a liberdade política, antes de a decretar, assim também é mister preparar a liberdade funerária.

Cumpre notar que tal queixa em tal semana é descabida. Tudo se deve perdoar por estes dias. Cristo, morrendo, perdoou aos próprios algozes, “por não saberem

o que faziam”. Não se trata aqui de algozes propriamente ditos, e pode ser também que a empresa não saiba o que está fazendo. Em todo caso, a queixa devia ter sido adiada para amanhã ou depois.

Faço igual reflexão relativamente ao juiz da comarca do Rio Grande, que, segundo telegramas desta semana, vai ser metido em processo. A causa sabe-se qual é. Não consentiu o juiz em que os jurados votem a descoberto, como dispõe a reforma judiciária do Estado; afirma ele que a Constituição Federal é contrária a semelhante cláusula. Não sou jurista, não posso dizer que sim nem que não. O que vagamente me parece, é que se o estatuto político do Estado difere em alguma parte do da União, é impertinência não cumprir o que os poderes do Estado mandam. Mas, de um ou de outro modo, creio que não foi oportuno mandar falar agora sobre processo nem censurar o magistrado antes de amanhã.

Esta questão leva-me a pensar que, se não puder conciliar o voto secreto com o voto público, ou ainda mesmo que se conciliem, é ocasião de modificar a instituição, a ser verdade o que dizem dela pessoas conspícuas. Na assembléia legislativa do Rio de Janeiro, o Sr. Alfredo Watheley declarou há dois meses, entre outras coisas, que “em regra o júri é um passa-culpas”. Ao que o Sr. Leoni Ramos aduziu: “É muito raro que no júri, perguntando o juiz aos jurados se precisam ouvir as testemunhas, eles respondam que sim; dizem sempre que as dispensam.” Também eu ouvi igual dispensa, mas relativamente ao interrogatório do próprio réu. Foi há muitos anos. Interrogado sobre o delito, pediu ele para não falar de assuntos que lhe eram penosos, e os jurados concordaram em não ouvi-lo. Realmente, o acusado merecia piedade, era um caso de honra; mas dispensada a audiência do réu e das testemunhas, não tarda que se faça o mesmo ao promotor e ao defensor, e finalmente à leitura do processo, aliás penosíssima de ouvir, mormente se o escrivão apenas sabe escrever.

12 de abril

A Companhia Vila Isabel foi condenada a pagar ao dono de um cavalo, morto por um de seus carros, a soma de sessenta contos de réis. Não é demais, tratando-se de animal de fina raça. Conheço pessoas que não valem tanto; algumas podem dar-se de graça e não raras ainda levariam cem ou duzentos mil réis de quebra. Também concordo que nem todos os cavalos possam chegar a este preço. Mas, pouco ou muito, propriedade é propriedade. As companhias de viação não podem deixar de aceitar com prazer uma decisão que confirma o princípio dos dividendos e dos ordenados.

Até agora estes desastres seguiam invariavelmente os mesmos trâmites. A vítima, bicho ou gente, morta ou ferida, caía invariavelmente no meio da rua. A multidão aglomerava-se em redor dela, olhando calada como é seu pacífico costume. O cocheiro evadia-se.

A polícia abria inquérito, naturalmente rigoroso. Toda esta tragédia podia resumir-se em um verso, mais ou menos assim: “Crime nefando! Rigoroso inquérito”. As companhias por amor do clássico entendem que tais tragédias são regidas pelos fados.

Eles é que matam, eles é que castigam.

As vítimas devem imitar Hipólito: Le ciel m’arrache une innocente vie. A escrituração social fica sendo a mesma, e tudo no fim dá certo.

Não entendeu assim o tribunal, que condenou a companhia, de que se trata, a pagar a culpa do cocheiro.

A companhia, saltando de Racine a Shakespeare, bradará: A horse! a horse! Sixty contos de réis for a horse!

É duro, mas se a vida só se compusesse de dividendos, mais valia vivê-la, que ir para o céu. A vida tem indenizações. É o algodão rude e simples, isto é, as indenizações sem dividendos.

A coisa mais natural agora é que pessoas que perderam braços ou pernas por culpa dos cocheiros dos bonds, peçam indenização as companhias, e naturalíssimo é que os tribunais lhes dêem razão. Vamos ter grande economia de membros. Não é crível que uma companhia, depois de desembolsar algumas dezenas de contos de réis, continue com o mesmo pessoal culpado; é antes certo que faça escolha de bons cocheiros e, quando possa, excelentes. Nem todos os cocheiros são imprestáveis, grosseiros, desobedientes: nem todos atropelam a gente pedestre; nem todos precipitam o carro antes que uma senhora acabe de descer. Dizem até que há alguns, poucos, que quando bradam, avisando: — Olha à esquerda! olha à direita! moderam naturalmente o galope dos animais, para que os avisados tenham tempo de escapar as carroças ou andaimes que estão no caminho. Já que estou com a mão no judiciário, não deixarei de dizer que o júri andou esta semana abarbado com processos velhos, tão velhos que não teve outro remédio senão ir absolvendo os acusados.

Um dos casos deu de si grave conseqüência. O roubo foi cometido há um ano, e os dois réus deram entrada na Detenção, onde um deles morreu. Tendo o júri absolvido o sobrevivente, segue-se que, se houve crime, os criminosos não foram aqueles, e para que há de um inocente morrer no cárcere, longe da família e dos amigos, se é mais fácil fazer andar os processos depressa?

Outro réu nem chegou a roubar, apenas fez uma tentativa a formão; mas o delito deu-se em junho do ano passado, e só agora, em abril, é que o réu pôde ser julgado e absolvido.

Nem sempre gosto de citar exemplos alheios. Também lá fora há defeitos e graves. Mas se os processos fossem rápidos como em algumas partes, mormente em pequenos crimes, creio que andaríamos muito melhor. Agora mesmo, lendo a audiência inicial do processo Jameson, vi que, enquanto esperava por este invasor do Transwaal, o tribunal de Bow-Street ia julgando uma porção de processos miúdos, entre eles o de um cocheiro que, na véspera, espancara a mulher e a patrulha; foi condenado a um mês de hard labour. Note-se que o delinqüente estava ébrio no ato mas ao que parece os juízes de Londres, que não são os de Berlim, entenderam não haver na embriaguez circunstância atenuante, mas agravante. E daí talvez os de Berlim pensem a mesma coisa.

Em verdade os magistrados de Bow-Street parecem demasiado severos.

Quando menos, o presidente não tem papas na língua para dizer um ou dois desaforos. Os espectadores, que eram muitos compunham-se pela maior parte de lords e ladies, a fina flor da aristocracia inglesa que ia vistoriar o doutor Jameson, por ter invadido a república africana.

O dr. Jameson chegou, foi aclamado pela multidão da rua, e logo que apareceu na sala do tribunal, estouraram os gritos de entusiasmo e de aplauso; o presidente declarou a princípio que faria evacuar a sala se o tumulto continuasse.

Acabada a audiência, e marcado o dia para novo comparecimento do acusado, o entusiasmo chegou ao delírio. As mais fidalgas bocas proferiram as mais belas palavras. Foi então que o presidente bradou da cadeira estas outras palavras menos belas:

— Vós expondes a Inglaterra ao desprezo do mundo!

Não falo do envenenamento da rua do Ipiranga, porque talvez não chegue a processo, e, quando chegue, não é agora ocasião de tratar dele; não há crime, não há acusadores, não há nada.

Como, porém, a semana é toda judiciária, aqui está o processo Damasceno, mais importante que outros, e que interessa deveras aos competentes. Eu não sou competente, não trato do caso em si; mas estando a ler o discurso de defesa, dei com uma palavra que me parece carecer de retificação.

A conclusão do discurso é a seguinte:

“Refleti; acima da autoridade dos vossos julgados está aquela que Pascal chamou a rainha do mundo...” Creio que se refere à opinião. Ora, Pascal disse justamente

o contrário: C’est la force qui gouverne le monde; et non pas l’opinion. Palavra que pareceria dura ao leitor, se o filósofo não acrescentasse: mais l’opinion est celle que use la force.

Pois se é a força que governa, ela que é a rainha; e se a opinião gasta a força, o mesmo sucede a todas as rainhas que adoecem e morrem por outras causas.

Pascal fala certamente da opinião como rainha do mundo, mas é quando cita um livro italiano do qual só conhecia o título: Della opinione; regina del mondo.

Declara que aceita o que nele estiver escrito, exceto o mal, se contiver algum; mas como isto vem no fim de uma longa página em que começa por chamar a opinião maîtresse d’erreur, segue-se que tudo quanto ali pôs, é a mais fina ironia.

19 de abril

A semana foi de sangue, com uma ponta de loucura e outra de patifaria. Felizes as que se compõem só de flores e bênçãos, e mais ainda as que se não compõem de nada! Digo felizes para os que têm de tratar delas. Neste caso, o cronista senta-se, pega na pena e deixa-a ir papel abaixo, abençoado e florido, ou sem motivo e à cata de algum, que finalmente chega, como deve suceder ao compositor nas teclas do piano. Quando menos pensa, estão as laudas prontas, e acaso sofríveis. Mas vá um homem, sem flores ou sem nada, ocupar-se unicamente de anedotas tristes; e aborrecer os outros e não fazer coisa que preste. As alegrias, ainda mal contadas, são alegrias.

Tenho idéia de haver lido em um velho publicista (mas há muitos anos e não posso agora cotejar a memória com o texto), que os jornais, fechadas as câmaras e calada a política, atiram-se aos grandes crimes e processos extraordinários. Não terá esta a expressão, mas o pensamento é esse, a menos que não seja outro. Mas sim ou não, nem para o nosso caso serve, porquanto só agora é que os crimes notáveis aparecem e podem ser extensamente comentados, quando as câmaras estão prestes reunir-se. Demais, tivemos algumas conversações políticas, no intervalo, por ocasião da moção do club militar, e agora mesmo discute quem há de ser o presidente da câmara, se Pedro ou Paulo, se o apóstolo da circuncisão, se o do prepúcio. Uns querem que só tenham aceitação os da lei antiga, outros dizem, como São Paulo aos gálatas: “Todos os que fostes batizado em Cristo, revestistes-vos de Cristo; não há judeu nem grego...” Talvez seja melhor, para resolver este negócio, esperar que se reúna o concilio de Jerusalém.

Além dessas duas questões políticas outras de menor tomo, tivemos negócios externos, alguns também de sangue; mas sangue do sangue vivo e próximo. Tivemos com que entreter o espírito. Menelik a expedição Dongola, os derviches, Cuba, os raios X, Crispi e, agora, o levantamento dos matabeles.

Não, não quero sangue, nem loucuras, nem equívocos de boticários. A perda da vida ou da razão não é coisa própria deste lugar. Menos ainda o lenocínio, tão triste como o resto. Se ao menos se pudesse tirar de tais casos alguma conclusão, observação ou expressão digna de nota, vá; mas nem isso encontro. Tudo é árido, vulgar e melancólico.

A questão do engano farmacêutico é a única em que se poderia tocar sem asco ou tédio, ainda que com pavor. Em verdade, a dosagem do arsênico por parte de uma pessoa que estudou farmácia em Coimbra, faz duvidar de Coimbra ou da pessoa. Considerando, porém, que o erro dos homens e que só a intenção constitui o mal, não se duvida nem da pessoa nem de Coimbra. O verdadeiro mal não é esse. O mal verdadeiro é que, se os homens podem descrer de tudo, sem grande perda ou com pouca, uma coisa há em que é necessário crer totalmente e sempre, é na farmácia. Tudo o que vier da farmácia, deve ser exato e perfeito; a menor troca de substâncias ou excesso de dose faz desesperar da saúde e até da vida, como sucedeu na rua do Ipiranga. Aquele grito do sócio do farmacêutico: “Desgraçado, estás perdido!” mostra a gravidade do ato, unicamente em relação ao autor dele. Se esta fosse a única e triste conseqüência, pouco estaria perdido. Era um caso particular, como o que sucedeu, dois dias depois, na farmácia Portela, em bairro oposto; aí se trocou um laxativo por outro remédio, e o paciente, que bebeu de uma vez o que devia ser tomado de duas em duas horas, só não morreu porque o remédio não era de matar. Não importa; não é preciso que alguém sucumba, basta a possibilidade da confusão dos frascos.

Também não importa a confiança manifestada pelo viúvo da rua do Ipiranga, em relação à farmácia; é natural que a tenha, pois conhece o pessoal e a competência da casa. Outrossim em relação a farmácia Portela, donde não saiu morte certa. Uma pessoa defunta, outra apenas enganada, valem pouco relativamente à população. Mas suponhamos que esta venha a descrer de todas as farmácias da cidade. Nem todas serão servidas por varões próprios. Alguma haverá (não afirmo) em que jovens aprendizes, desejosos de praticar a ciência antes que a vadiação, aviem as receitas dos médicos. Sempre é melhor ofício que matar gente cá fora, mas se da composição sair óbito, tanto faz droga como navalha. Se a descrença pegar, virão o terror e a abstenção. Ninguém mais correrá as boticas, e a farmácia terá de ceder ao espiritismo, que não mata, mas desencarna.

Há um recurso último. Atribui-se a um claro espírito deste país a seguinte definição da farmácia moderna, — que é antes confeitaria que farmácia. Esse homem, ex-deputado, ex-ministro, observou que as vidraças das boticas estão cheias de frascos com pastilhas e outros confeitos. Ora, até hoje não consta que tais medicamentos matem. O mais que pode suceder, é não curarem sempre, ou só incompletamente, ou só temporariamente, ou só aparentemente; mas não levam o desespero às famílias. São composições estrangeiras, estão sujeitas a grandes taxas, custam naturalmente caro; mas se a própria vida é um imposto pago à morte, não é muito que lhe agravemos o preço. Não lhe acusem de estrangeirismo. Não trato só dos inventos importados, mas também dos nacionais, que não matam ninguém, e curam muitas vezes. Pois tal será o recurso último dos farmacêuticos, quando o medo dos aviamentos imediatos afastar os doentes das suas portas; encomendem preparados de fora e de dentro, não façam mais nada em casa, e esperem.

Qualquer que seja o mal, porém, antes beber os remédios suspeitos, — um pouco mais de arsênico, ou uma coisa por outra, — que viver em Porto-Calvo (Alagoas) onde as carabinas trabalham, ora em nome do assassinato, ora da simples política. As ações e os homens não dão para uma Ilíada, conquanto na hecatombe da Conceição a palavra hecatombe seja grega. Não sucede o mesmo com Barro-Vermelho e Manuel Isidoro, nomes que não valem os de Aquiles e Heitor. Li artigos, cartas, notícias dos sucessos, chegados e publicados ontem. Numa das cartas diz o autor que, para prender Manuel Isidoro, tinha recorrido à astúcia do coronel Veríssimo. Faz lembrar Homero quando canta o artificioso Ulisses; mas, com franqueza, prefiro Homero.

26 de abril

“Terminaram as festas de Shakespeare”, diz um telegrama de Londres, 24, publicado anteontem, na Notícia. Eu, que supunha o mundo perdido no meio de tantas guerras atuais e iminentes, crises formidáveis, próximas anexações e desanexações, respirei como alguém que sentisse tirar-lhe um peso de cima do peito. Que me importa já saber se o príncipe da Bulgária comungou ou não, esta semana, tendo-lhe o papa negado licença? Provavelmente não comungará mais, tudo por haver consentido que o filho fosse batizado na religião ortodoxa. Quantos outros pais terão deixado batizar os filhos em religiões alheias, sem perder por isso o direito de comungar; basta-lhes entrar na igreja próxima e falar ao vigário. Não são príncipes, não governam, não correm o perigo das alturas.

Cuba, que me importa agora Cuba? A religião come gente, sangue e dinheiro; a independência far-se-á ou não. Segundo um homem desconhecido, estava feita desde quarta-feira, e assim enganou a duas ou três folhas desta cidade, ação de muito mau gosto, não só pela invenção dos decretos de Madri, como pela da morte de um hóspede do Hotel de Estrangeiros. O dono deste perdeu mais que ninguém, pois que Cuba, tarde ou cedo, alcançará a independência, o cônsul e o ministro de Espanha explicaram-se, mas a morte do hóspede é mais que a de Maceo ou Máximo Gómez. Lede bem a carta com que o dono do Hotel de Estrangeiros correu à Cidade do Rio para afirmar que o defunto Villagarcia (se alguém há desse nome) nunca ali esteve, que ninguém morreu nem adoeceu naquela casa, apesar da epidemia recente, que os seus esforços foram grandes, e a notícia da morte ofende os seus interesses. É quase um reclamo, ou — como dizem os mal-intencionados, — um preconício.

E tão grave o fato de morrer alguém nas hospedarias, que o dono de uma delas, nesta cidade, só por fina inspiração, pode há tempos salvar a honra do estabelecimento. Não disse a ninguém que lhe morrera um hóspede, mas que adoecera e queria ir-se embora. Mandou vir um carro, fez meter dentro o cadáver, com as cautelas devidas a um enfermo, e sentou-se ao pé dele. — “Então, que é isso? dizia ele ao cadáver, enquanto o cocheiro dava volta ao carro. O senhor, saindo daqui, vai piorar e talvez morra; por que não fica? Aqui, antes de quinze dias, está curado e bom. Ande, fique; se quer, mando o carro embora. Não? Pois faz muito mal...” Os hóspedes, que ouviam esta exortação, lastimavam a teimosia do enfermo, e almoçaram com o apetite do costume.

Guerras africanas, rebeliões asiáticas, queda do gabinete francês, agitação política, a proposta da supressão do Senado, a caixa do Egito, o socialismo, a anarquia, a crise européia, que faz estremecer o solo, e só não explode porque a natureza, minha amiga, aborrece este verbo, mas há de estourar, com certeza, antes do fim do século, que me importa tudo isso? Que me importa que, na ilha de Creta, cristãos e muçulmanos se matem uns aos outros, segundo dizem telegramas de 25? E o acordo, que anteontem estava feito entre chilenos e argentinos, e já ontem deixou de estar feito, que tenho eu com esse sangue que correu e com o que há de correr?

Noutra ocasião far-me-ia triste a notícia dos vinte e tantos autos roubados a uma pretoria desta cidade. Vinte e um votaram ao cartório, mas um deles não trazia petição inicial nem sentença, por modo que ficou o processo inútil. Uma destas manhãs, estando o pretor ocupado, vieram dizer-lhe que acabavam de furtar mais autos, correu ao cartório, viu que era exato. O mesmo pretor despediu há dias um empregado do cartório, que estava ao seu serviço; a razão é porque o homem, mediante dinheiro, tomava a si obter despachos favoráveis. Chegou ao ponto, segundo li, de fazer caminhar bem um negócio, a troco de certa quantia; recebida esta, fez desandar o negócio em favor da outra parte; a troco de igual remuneração. Reincidência ou arrependimento? Eis aí um mistério.

Outro mistério é que só vejo publicadas as ações, não os nomes dos autores. Nem sempre é necessário que estes sejam dados ao prelo. Casos há em que o silêncio é conveniente, não para impedir que os autores fujam, mas por motivos que me escapam. Seja como for, ainda bem que os autos se descobrem, os intermediários de despachos desaparecem, e o ar puro entra nas pretorias, na terceira, quero dizer, que é onde se deram os fatos aqui narrados. Entretanto, outra seria a minha impressão disto, como do resto, se não fosse o telegrama de Londres, 24.

“Terminaram as festas de Shakespeare...” O telegrama acrescenta que “o delegado norte-americano teve grande manifestação de simpatia”. O doutrina de Monroe, que é boa, como lei americana, é coisa nenhuma contra esse abraço das almas inglesas sobre a memória do seu extraordinário e universal representante. Um dia, quando já não houver império britânico nem república norte-americana, haverá Shakespeare; quando se não falar inglês, falar-se-á Shakespeare. Que valerão então todas as atuais discórdias? O mesmo que as dos gregos, que deixaram Homero e os trágicos.

Dizem comentadores de Shakespeare que uma de suas peças, a Tempest, é um símbolo da própria vida do poeta e a sua despedida. Querem achar naquelas últimas palavras de Próspero, quando volta para Milão, “onde de cada três pensamentos um será para a sua sepultura”, uma alusão à retirada que ele fez do palco, logo depois. Realmente, morreu daí a pouco, para nunca mais morrer. Que valem todas as expedições de Dongola e do Transvaal contra os combates do Ricardo III? Que vale a caixa egípcia ao pé dos três mil ducados de Shylock? O próprio Egito, ainda que os ingleses cheguem a possuí-lo, que pode valer ao pé do Egito da adorável Cleópatra? Terminaram as festas da alma humana.

3 de maio

Os jornais deram ontem notícia telegráfica de haver sido assassinado o xá da Pérsia. Tão longe andamos da Pérsia, e tão pouco fez aquele vivo faltar de si por estes tempos de agitação universal, que fiquei assombrado. Supunha a Pérsia extinta. Não me lembrava sequer (a minha memória está acabando) não me lembrava que ainda anteontem li, creio que no Jornal do Comércio, a notícia de que o xá da Pérsia possuía o maior tesouro de jóias, um valor de 300.000:000 $000 (trezentos mil contos de réis). Possuía e possui, porquanto naquelas partes como nas outras, xá morto, xá posto. Caiu Nass-ed-dine; vai subir Monraffer-eddine.

Vede o que são almas fanáticas. Não foram os trezentos mil contos de réis das jóias que armaram o braço do homicida, mas um motivo religioso. O xá ia justamente entrando no santuário para rezar. Se o motivo fosse outro, é provável que o assassino adiasse o assassinato, repetindo com Hamlet: “Agora não; seria mandá-lo para o céu!” Ao contrário, desde que o xá ia rezar pela sua seita, não iria para o céu, segundo o assassino; boa ocasião de o mandar ao diabo. Vede o que são almas fanáticas.

Há para mim, além da catástrofe, um ponto mui aborrecido: é o tiro. Persas e gentes semelhantes, se me quiserem interessar, como os antigos, não hão de ter pólvora. O punhal e a espada é que estão bem. As tragédias matam a ferro frio. Carnot e Lincoln caíram a golpes de arma branca. Como é que, longe de centros cristãos e prosaicos, em plena vida oriental e poética, um fanático pega de uma espingarda ou trabuco, para vingar um texto ou um símbolo? Vai nisso um tanto de precaução, que se não ajusta bem ao fanatismo, não contando a falta de estética. Seja como for, pobre xá, tiveste de entregar a vida quando ias buscar a fonte da vida, ou o que supunhas tal.

Os persas, segundo leio no padre Manuel Godinho, que por ali andou em 1663, tem uma paixão tão grande, tão forte e tão absorvente que devia excluir qualquer outra. Não sei se chegareis a entendê-lo, ainda que vos copie aqui os próprios termos do padre: são claros os termos, mas por isso mesmo que claros, obscenos.

Eis o texto: “São tão sobremaneira luxuriosos (os persas), não se contentando nem com muitas mulheres”. Uma paixão destas tão extensa parece não dar campo ao fanatismo. Nem com muitas mulheres; então com quantas? Das mulheres, escreve o padre que são “lascivas” e se acrescenta que de “ruim bofe”, não é para se desmentir a si próprio; estas qualidades podem viver juntas.

Isto prova que o sangue há de sempre jorrar em toda a parte, desde os tronos até às mais simples esteiras. Aqui mesmo, esta semana, houve dois outros casos de mortes misteriosas e interessantes. Um deles foi o de um velho que sucumbiu a pau ou a faca, não me lembra bem qual o instrumento. Já acima disse que a memória me vai morrendo. Depois de morto foi enterrado. Suspeitou-se do crime, e indo começar o processo do indigitado autor, acudiu naturalmente a idéia de autopsiar o cadáver, que é o primeiro ato dos inquéritos criminais. Infelizmente o cadáver fora enterrado na vala comum. Surdiu o receio de empestear a cidade, abrindo uma vala onde jaziam dezesseis cadáveres em putrefação, alguns de febre amarela. Quando não fizesse mal à cidade, podia fazê-lo aos exumadores e aos próprios médicos encarregados da autopsia. Dali algumas consultas, cuja solução final foi a única possível, — negar a exumação. De resto, uma das ordens trocadas observo que, sem embargo da autopsia, as testemunhas do crime bastavam às necessidades da justiça.

Em verdade, é possível que a exumação matasse alguns dos oficiais, médicos ou não, desse lúgubre ofício. Suponhamos que morriam três. Aí tínhamos três inocentes condenados à morte que a marcha do processo podia e pode chegar ao resultado negativo, isto é, que o suposto réu não praticou o crime, ou se cometeu foi impelido por violência irresistível ou ameaça acompanhada de perigo atual, como ainda esta semana decidiu o júri, creio que nos termos do código, e certamente nos da verdade. Ora, tendo-se acabado com pena de morte, é justo estender este benefício aos médicos e seus colaboradores, ficando a pena limitada à vítima, cujo silêncio eterno pede igualmente eterno repouso.

Nem falo disto senão para notar que a vala comum foi agora objeto de grandes lástimas. Muitos confessaram que a supunham acabada. Outros pediram que se acabasse com ela. Sempre ouvi falar com tristeza da vala comum. Este último leito, em que se perde até o nome e não se tem o favor de apodrecer sozinho, destinava-se antigamente aos pobres e aos escravos. A lei acabou com os escravos, e deixou os pobres consigo mesmos.

Politicamente, é a vala comum o terror dos homens. Ouvi maldizer dela, muitas vezes, com indignação, e anunciá-la com perversidade: — “Não hei de cair na vala comum!” — “Na vala comum já há muito caiu V. Ex!” — “O Sr. presidente: — Atenção!” E ouvi ainda coisa pior, como prova de que o desprezo e o abandono em política são insuportáveis. Ouvi um dia, há muitos anos, um discurso na câmara dos deputados, cujo autor se lastimava de ser cão sem dono. Era um modo de dizer que o partido o não queria. Realmente, era lastimável. Um homem parlamentar que não tem quem lhe faça festas, quem lhe dê ordens ou lhe mande recados, não é soldado de partido, não é nada, é uma sombra. Não me lembra o nome nem a figura do representante. É o que vos disse três vezes, acima: vou perdendo a memória. Não cuideis que são achaques da idade. Há de haver aí alguma complicação psicológica.

Vede se não. Não atino com o lugar em que se deu há dias, — poucos dias, um interrogatório feito a pessoa acusada de um crime... Também não menciono o crime; suponhamos que foi um roubo. Há crimes de roubo. O indigitado não queria confessar que o praticara; negava a pés juntos, com tal tranqüilidade, por mais que o juiz fizesse, que a esta hora estaria na rua se o escrivão não pegasse das rédeas do interrogatório. Tão habilmente foi cercando o réu, que ele acabou confessando tudo. O escrivão fazia as perguntas, ouvia as respostas, e ditava-as todas a si mesmo. Uma vez que a verdade saiu do poço tanto melhor. O único ponto duvidoso na matéria de ritual; mas, ainda assim, não conhecendo eu leis nem praxes, não sei se os escrivães podem ir além do escrever. Os hábitos eclesiásticos são diversos. Conheço sacristães, verdadeiros modelos de piedade e latim, que se limitam a ajudar na missa; não abençoam os fiéis, como o oficiante; respondem a este, levam-lhe as galhetas, pegam-lhe na capa e se tangem na campainha e para pôr as vírgulas espirituais no sagrado texto.

10 de maio

Como eu andasse a folhear leis, alvarás, portarias e outros atos menos alegres, dei com um que me fez vir água à boca. É de 1825. A primeira assembléia geral legislativa devia reunir-se em 3 de maio de 1826. Muitos deputados podiam vir com antecedência e aguardar aqui longo tempo a abertura das câmaras. Então o governo, considerando que eles deviam até lá subsistir com decência, mandou abonar a cada um, desde que chegasse, a quantia mensal de cem mil réis.

Ó tempora! ó mores! Cem mil réis! Tempos de cem mil réis mensais! Comeram, vestiram, receberam, possivelmente casaram, tudo com cem mil réis por mês! E tal poupado terá havido, que ainda deixou ao canto da gaveta umas cinco patacas; não juro, mas não contesto. Bem sei que, remontando à legislação, vamos achar sentenças e ordenados de cem mil réis, não por mês, mas por ano, cinqüenta mil réis, vinte e cinco, e menos. Mas tais atos não são históricos. São a mitologia da moeda. Valem o que valem os reis de Tito Livio e peço perdão dessa aparência de trocadilho, que é apenas um cotejo de fábulas.

Com tal dinheiro (cem mil réis mensais) poderiam acaso os deputados daquele tempo andar nesta Capital em carruagem de quatro bestas? Podiam; eis aqui o decreto de 2 de outubro de 1825: “Não se verificando nesta corte (diz ele) os motivos que na de Lisboa fizeram necessário que nenhuma pessoa, de qualquer condição que fosse, pudesse andar naquela cidade, e na distância de uma légua dela em carruagem de mais de duas bestas, hei por bem ordenar que, sem embargo do dito alvará, ou de qualquer outra ordem em contrário, todas as pessoas que gozam de tratamento de Excelência, possam andar em carruagem de quatro bestas.” Ora, os deputados tinham o tratamento de Excelência. Uma vez que fossem poupados, podiam muito bem dar-se ao gosto da carruagem de quatro bestas, sem que a polícia (a polícia do Aragão) os recolhesse ao aljube.

Não esqueçamos que a independência datava de 1822, e a Constituição de 1824. No título VIII desta achavam-se inscritos os direitos civis e políticos dos cidadãos. Não estava lá o direito às quatro bestas. Podia entender-se que este direito era contido nos outros? Teoricamente, sim; praticamente não. Não dou em prova disto

o ato do ano anterior, 1824, mandando que às pessoas de primeira consideração se não concedesse mais que três criados de porta acima, e às de segunda somente um. Este ato, conquanto posterior a independência, é anterior à Constituição, é de 7 de janeiro. Por isso mesmo é um pouco mais restritivo que o decreto de 1825. Abolindo o alvará das quatro bestas, o decreto de 1825 limitou o gozo delas às pessoas que tinham o tratamento de Excelência, ao passo que o ato de 1824 nem às próprias pessoas de primeira consideração consentia mais de três criados de porta acima.

Outra diferença entre os dois atos está na designação das pessoas. O tratamento de Excelência era claro; tinha-se pelo cargo ou por decreto. Mas por onde se distinguiam as pessoas de primeira consideração das de segunda? Eis aí um ponto obscuro. Eram todas de casa de soprado (criados de porta acima), mas não há outra definição. Quero supor que, como o ato de 1824 foi expedido ao intendente da polícia, deixou a este, que era o tremendo Aragão, o cuidado de distinguir os seus policiados. Considerando melhor, acho que a distinção seria fácil, graças à população pequena, à tradição e estabilidade das classes. A vontade das pessoas é que não podia servir de regra, como se faz com as declarações de renda; não se consultando mais nada, todas seriam de consideração mais que primeiras.

Aqui vai agora como eu separo as liberdades teóricas das liberdades práticas. A liberdade pode ser comparada às calças que usamos. Virtualmente existe em cada corte de casimira um par de calças; se o compramos, as calças são nossas. Mas é mister talhá-las, alinhavá-las, prová-las, cosê-las e passá-las a ferro, antes de se vestir. Ainda assim há tais que podem sair mais estreitas do que a moda e a graça requerem. Daí esse paralelismo da liberdade do voto e da limitação dos criados e das bestas. É a liberdade alinhavada. Não se viola nenhum direito; trabalha-se na oficina. Prontas as calças, é só vesti-las e ir passear.

Um pouco de psicologia dos tempos. Isto que me faz discorrer e examinar para acabar de entender, ninguém com certeza achou descurial naqueles anos de infância. Outro pouco de psicologia política. Governos novos são naturalmente ciosos da existência. Pedro I decretou e mandou jurar a Constituição em 25 de março, e logo em 15 de maio ordenava aos presidentes da província, aos tribunais e repartições da capital, que em todas as informações que houvessem de dar, declarassem se as pessoas a quem elas se referissem, tinham jurado a Constituição. Talvez está cláusula não adiantasse nada aos direitos pessoais do requerente, mas era um impulso de nascença. A Constituição queria viver. Quanto ao espírito nativista, eis aqui um ato bem caracterizado. Um dia, em 1825, constou ao imperador que muitos indivíduos, não súditos do império, usavam do laço nacional e flor verde, e legenda no braço esquerdo, para se inculcarem cidadãos brasileiros. Baixou logo um aviso mandando proceder “contra os que assim se disfarçam, com o fim de conseguir por esse doloso procedimento a proteção das leis, a que só têm direito os verdadeiros súditos o império”.

Basta de legislação. É de mais para quem apenas quer algumas notas acerca da semana. O que me pode justificar, é o fato de ser a principal nota da semana a chegada de deputados e senadores. Não se fez a abertura no dia 3 de maio, marcado na Constituição de 1891, como na de 1824. Se considerarmos que a primeira assembléia geral legislativa também se não abriu no dia 3 de maio, julgaremos com outra moderação. Alguém lembrou agora que abertura se fizesse sempre no dia 3 de maio, qualquer que fosse o número dos presentes. Pois a mesma idéia apareceu em 1826, e foi a própria Câmara dos Deputados, reunida em 30 de abril, que o mandou propor ao governo, dizendo que nada tinha o ato da abertura com os trabalhos das sessões. Ao que o governo respondeu, por aviso de 1 de maio, que entendia de modo contrário e que continuassem as sessões preparatórias.

A matéria é discutível; mas basta de legislação! basta de legislação!

17 de maio

Era no bairro Carceler, às sete horas da noite.

A cidade estivera agitada por motivos de ordem técnica e politécnica. Outrossim, era a véspera da eleição de um senador para preencher a vaga do finado Aristides Lobo. Dois candidatos e dois partidos disputavam a palma com alma. Vá de rima; sempre é melhor que disputá-la a cacete, cabeça ou navalha, como se usava antigamente. A garrucha era empregada no interior. Um dia, apareceu a Lei Saraiva, destinada a fazer eleições sinceras e sossegadas. Estas passaram a ser de um só grau. Oh! ainda agora me não esqueceram os discursos que ouvi, nem os artigos que li por esses tempos atrás, pedindo a eleição direta! A eleição direta era a salvação pública. Muitos explicavam: direta e censitária. Eu, pobre rapaz sem experiência, ficava embasbacado quando ouvia dizer que todo o mal das eleições estava no método; mas, não tendo outra escola, acreditava que sim, e esperava a lei.

A lei chegou. Assisti às suas estréias, e ainda me lembro que na minha seção ouviam-se voar as moscas. Um dos eleitores veio a mim, e por sinais me fez compreender que estava entusiasmado com a diferença entre aquele sossego e os tumultos do outro método. Eu, também por sinais, achei que tinha razão, e contei-lhe algumas eleições antigas. Nisto o secretário começou a suspirar felizmente os nomes dos eleitores. Presentes, posto que censitários, poucos. Os chamados iam na ponta dos pés até à urna, onde depositavam uma cédula, depois de examinada pelo presidente da mesa; em seguida assinavam silenciosamente os nomes na relação dos eleitores, saíam com as cautelas usadas em quarto de moribundo. A convicção é que se tinha achado a panacéia universal.

Mas, como ia dizendo, era no Bairro Carceler às 7 horas da noite.

O Bairro Carceler estava quase solitário. Um ou outro homem passava, mulher nenhuma, rara loja aberta, e mal se ouviam os bonds que chegavam e partiam. Eu ia andando à procura do Hotel do Globo. Recordava coisas passadas, um incêndio, uma festa, a ponte das barcas um pouco adiante, a Praia Grande do outro lado, e a assembléia provincial, vulgarmente chamada salinha. A salinha acabou, e a Praia Grande ficou decapitada, passando a assembléia com outra feição a legislar em Petrópolis. Nem por isso perdeu as metáforas de outro tempo. Ainda agora, em Petrópolis, um orador devolveu a outro as injúrias que lhe ouvira; devolveu-as intactas, tal qual se costumava na antiga Praia Grande. As injúrias devolvidas intactas não ferem. Algumas vezes arredam-se com a ponta da bota, ou deixam-se cair no tapete da sala; mas a melhor fórmula é devolvê-las intactas. A ponta da bota é um gesto, a queda no tapete é desprezo, mas para injúrias menores. A última fórmula de desdém, a mais enérgica, é devolvê-las intactas. Quem inventou este modo de correspondência, está no céu.

Chego ao Hotel do Globo. Subo ao segundo andar, onde acho já alguns homens. São convivas do primeiro jantar mensal da Revista Brasileira. O principal de todos, José Veríssimo, chefe da Revista e do Ginásio Nacional, recebe-me, como a todos, com aquela afabilidade natural que os seus amigos nunca viram desmentida um só minuto. Os demais convivas chegam, um a um, a literatura, a política, a medicina, a jurisprudência, a armada, a administração... Sabe-se já que alguns não podem vir, mas virão depois, nos outros meses.

Ao fim de poucos instantes, sentados à mesa, lembrou-me Platão; vi que o nosso chefe tratava não menos que de criar também uma República, mas com fundamentos práticos e reais. O Carceler podia ser comparado, por uma hora, ao Pireu. Em vez das exposições, definições e demonstrações do filósofo, víamos que os partidos podiam comer juntos, falar, pensar e rir, sem atributos, com iguais sentimentos de justiça. Homens vindos de todos os lados, — desde o que mantém nos seus escritos a confissão monárquica, até o que apostolou, em pleno império,

o advento republicano — estavam ali plácidos e concordes, como se nada os separasse.

Uma surpresa aguardava os convivas, lembrança do anfitrião. O cardápio (como se diz em língua bárbara) vinha encabeçado por duas epígrafes, nunca escritas pelos autores, mas tão ajustadas ao modo de dizer e sentir, que eles as incluiriam nos seus livros. Não é dizer pouco, em relação à primeira, que atribui a Renan esta palavra: “Celebrando a Páscoa, disse o encantador profeta da Galiléia: tolerai-vos uns aos outros; é o melhor caminho para chegardes a amar-vos...”

E todos se toleravam uns aos outros. Não se falou de política, a não ser alguma palavra sobre a fundação dos Estados, mas curta e leve. Também se não falou de mulheres. O mais do tempo foi dado às letras, às artes, à poesia, à filosofia. Comeu-se quase sem atenção. A comida era um pretexto. Assim voaram as horas, duas horas deleitosas e breves. Uma das obrigações do jantar era não haver brindes: não os houve. Ao deixar a mesa tornei a lembrar-me de Platão, que acaba o livro proclamando a imortalidade da alma; nós acabávamos de proclamar a imortalidade da Revista.

Cá fora esperava-nos a noite, felizmente tranqüila, e fomos todos para casa, sem maus encontros, que andam agora freqüentes. Há muito tiro, muita facada, muito roubo, e não chegando as mãos para todos os processos, alguns hão de ficar esperando. Ontem perguntei a um amigo o que havia acerca da morte de uma triste mulher; ouvi que a morte era certa, mas que, tendo o viúvo desistido da ação, ficou tudo em nada. Jurei aos meus deuses não beber mais remédio de botica. A impunidade é o colchão dos tempos; dormem-se aí sonos deleitosos. Casos há em que se podem roubar milhares de contos de réis... e acordar com eles na mão.

24 de maio

A gente que andou esta semana pela rua do Ouvidor, mal terá advertido que, enquanto mirava as moças, se eram homens, ou as vitrinas, se eram moças, matava-se a ferro e fogo em Manhuaçu. Eis o telegrama de Juiz de Fora, 18: “Desde o dia 11, às 10 horas da manhã, está tratado em Manhuaçu terrível combate, dia e noite, à carabina e dinamite, entre os partidários de Costa Mattos e Serafim. O conflito nasceu de ter sido Costa Mattos nomeado delegado de polícia, e, investido do cargo, haver mandado desarmar um empregado de Serafim. Tem havido mortes e ferimentos.”

Há, pois, além de outros partidos deste mundo, um partido Serafim e um partido Costa Mattos. Quem seja este César, nem este Pompeu, não é coisa que me tenha chegado aos ouvidos; mas devem ser homens de valor, desabusados, capazes de lutar em campo aberto e matar sem dó nem piedade. A causa do conflito parece pequena, vista aqui da rua do Ouvidor, entre três e cinco horas da tarde; mas ponha-se o leitor em Manhuaçu, penetre na alma de Serafim, encha-se da alma de Mattos, e acabará reconhecendo que as causas valem muito ou pouco, segundo a zona e as pessoas. O que não daria aqui mais de uma troca de mofinas, dá carabina e dinamite em outras paragens.

Mas não é só em Manhuaçu que se morre a ferro e fogo. A cidade de Lençóis passou por igual ou maior desolação. Soube-se aqui, desde o dia 18, que um bando de clavinoteiros marchava ao assalto da cidade, não só para tomá-la, como para matar o coronel Felisberto Augusto de Sá, senador estadual, e o Dr. Francisco Caribé. O governo da Bahia mandou duzentas praças em socorro da cidade. Tarde haverá chegado o socorro, se chegou; o assalto deu-se a 17, entrando pela cidade os clavinoteiros capitaneados por José Montalvão. Escaparam Felisberto e Caribé, no meio de grande carnificina, que parece ter continuado.

Não se pense que, por ir escrevendo sem ponto de exclamação, deixo de sentir a dor dos mortos. É duro ler isto; mas é preciso pairar acima dos cadáveres. Tem-se discutido aqui sobre a lei da recapitulação abreviada. Se tal lei existe, Manhuaçu e Lençóis estão na fase do romantismo sangrento, quando a nossa capital já passou

o naturalismo cru e entra no duro misticismo.

Tempo virá em que Manhuaçu e Lençóis vejam as suas notas de 100$ e 200$ andarem de Herodes para Pilatos, sem saber por que é que Herodes as condena, nem por que é que Pilatos lava as mãos. Ouvirão dizer que por serem falsas, — ou (resto de naturalismo) falsas e até farsas. Terão os seus inquéritos, os seus bilhetes e camarote de teatro, e a perpétua escuridão do negócio, que é o pior. Un pò più di luce, como queria há anos um político italiano, não é mau. As comédias mais embrulhadas acabam entendidas; podem ser feitas sem talento, nem critério, mas os autores sabem que o público deseja ir para casa com as idéias claras, a fim de dormir tranqüilo, e fazem casar os bêbados. As notas falsas de Lençóis e Manhuaçu não sairão do puro mistério. É a condição do gênero. Creio que disse mistério, em vez de ocultismo, que define melhor este gênero de recreação.

Verdade é que o tempo é sempre tempo, e não sei porque não sucederá na América o que acontece na Europa. A morte da Malibran (releiam Musset) em quinze dias era notícia velha. Sans doute il est trop tard... Releiam os belos versos do poeta. Dentro de quinze dias, ninguém mais se lembra do camarote de teatro de Lençóis, nem do inquérito, nem do número 65.609, nem de nada de Manhuaçú. A vida é tão aborrecida, que não vale a pena atar as asas às melancolias de arribação. Voais melancolias! voais, notas! ide para onde vos chamam os gozos fáceis e pagos...

Ia-me perdendo em suspiros. Ponhamos pé em terra, e deixemos Costa Mattos contra Serafim, e Montalvão contra Felisberto. Viver é lutar, e morrer é acabar lutando, que é outro modo de viver. Não sei se me entendem. Eu não me entendo. Digo estas coisas assim, à laia de trocado engenhoso, para tapar o buraco de uma idéia. É o nosso ofício de pedreiros literários. A vantagem é que, enquanto trabalhamos de trolha, a idéia aparece, ou a memória evoca um simples fato, e a pena refaz o aço, e o escrito continua direito.

Para não ir mais longe, vamos ao largo da Carioca. Li que um agente de polícia entrando em um bond no largo da Lapa, descobriu certo número de gatunos entre os passageiros. Alguns preparavam-se contra um velho, e o agente preparou-se contra eles. No largo da Carioca o velho pôde escapar à tentativa, mas o agente, ajudado de uma praça, capturou alguns; a maior parte fugiu. Até aqui tudo é vulgar como um maçador de bond. O resto não é raro nem original, mas é grandioso.

Cerca de quinhentas pessoas aglomeraram-se no largo, em volta dos presos e os agentes da força. O primeiro grito, o grito largo e enorme foi: Não pode! Não pode! Quando este grito sai dos peitos da multidão, é como a voz da liberdade de todos os séculos opressos. A primeira idéia de quinhentas pessoas juntas, ou menos (cinqüenta bastam), é que toda prisão é iníqua, todo agente da autoridade um verdugo. Imagine-se o que aconteceria no largo da Carioca, se o agente não tivesse ocasião de contar o que se passara e a qualidade das pessoas presas. A explicação abrandou os espíritos, e salvo alguns que, passando ao extremo oposto, gritaram: Mata! Mata! todos se conformaram com a simples prisão. Os gatunos é que se não conformaram com a delegacia para onde os queriam levar. Iam ser conduzidos à 5.ª delegacia e pediram a 6ª, por ser aquela onde haviam sido presos. Esta preocupação de observância regulamenta em simples gatunos, faz descrer do vício.

Em todo caso, vemos que o vicioso, desde que não pode escapar à justiça, teve a virtude de reclamar pela lei. O virtuoso, antes de saber do vício, clama já contra a repressão. Não se defenda esse caso com o da mulher que, por suspeita de alienada morreu de hemorragia no xadrez; porquanto, o da mulher é posterior, e não se sabe ainda se houve nele abuso, ou simples uso antigo. Costume faz lei, e quem padece de hemorragias, não deve ter tempo de endoidecer.

Esquecia-me dizer que o bond era e elétrico. Se os gatunos eram gordos, não sei. Magros que fossem era difícil que viessem comodamente, sendo de cinco pessoas por banco a lotação dos bonds elétricos; mas não pode haver melhor lotação para sacar uma carteira. Pela minha parte, tendo sonhado que a lotação era legal, aceitei-a, com a intenção de requerer ao Conselho Municipal que alterasse o contrato, embora indenizando a companhia. Mas afirmaram-me que, não só é ilegal, como até já foi a companhia interrogada sobre as cinco pessoas por banco, aproveitando-se a ocasião para indagar dos motivos por que continuam os comboios. Ou não houve resposta ou foi satisfatória. Prefiro a primeira hipótese. Há ainda um lugar para a esperança.

31 de maio

A fuga dos doidos do Hospício é mais grave do que pode parecer à primeira vista. Não me envergonho de confessar que aprendi algo com ela, assim como que perdi uma das escoras da minha alma. Este resto de frase é obscuro, mas eu não estou agora para emendar frases nem palavras. O que for saindo saiu, e tanto melhor se entrar na cabeça do leitor.

Ou confiança nas leis, ou confiança nos homens, era convicção minha de que se podia viver tranqüilo fora do Hospício dos Alienados. No bond, na sala, na rua, onde quer que se me deparasse pessoa disposta a dizer histórias extravagantes e opiniões extraordinárias, era meu costume ouvi-la quieto. Uma ou outra vez sucedia-me arregalar os olhos, involuntariamente, e o interlocutor, supondo que era admiração, arregalava também os seus, e aumentava o desconcerto do discurso. Nunca me passou pela cabeça que fosse um demente. Todas as histórias são possíveis, todas as opiniões respeitáveis. Quando o interlocutor, para melhor incutir uma idéia ou um fato, me apertava muito o braço ou me puxava com força pela gola, longe de atribuir o gesto a simples loucura transitória, acreditava que era um modo particular de orar ou expor. O mais que fazia, era persuadir-me depressa dos fatos e das opiniões, não só por ter os braços mui sensíveis, como porque não é com dois vinténs que um homem se veste neste tempo.

Assim vivia, e não vivia mal. A prova de que andava certo, é que não me sucedia

o menor desastre, salvo a perda da paciência; mas a paciência elabora-se com facilidade; — perde-se de manhã, já de noite se pode sair com dose nova. O mais corria naturalmente. Agora, porém, que fugiram doidos do hospício e que outros tentaram fazê-lo (e sabe Deus se a esta hora já o terão conseguido), perdi aquela antiga confiança que me fazia ouvir tranqüilamente discursos e notícias. É o que acima chamei uma das escoras da minha alma. Caiu por terra o forte apoio. Uma vez que se foge do hospício dos alienados (e não acuso por isso a administração) onde acharei método para distinguir um louco de um homem de juízo? De ora avante, quando alguém vier dizer-me as coisas mais simples do mundo, ainda que me não arranque os botões, fico incerto se é pessoa que se governa, ou se apenas está num daqueles intervalos lúcidos, que permitem ligar as pontas da demência às da razão. Não posso deixar de desconfiar de todos.

A própria pessoa, — ou para dar mais claro exemplo, — o próprio leitor deve desconfiar de si. Certo que o tenho em boa conta, sei que é ilustrado, benévolo e paciente, mas depois dos sucessos desta semana, quem lhe afirma que não saiu ontem do Hospício? A consciência de lá não haver entrado não prova nada; menos ainda a de ter vivido desde muitos anos, com sua mulher e seus filhos, como diz Lulu Senior. É sabido que a demência dá ao enfermo a visão de um estado estranho e contrário à realidade. Que saiu esta madrugada de um baile? Mas os outros convidados, os próprios noivos que saberão de si? Podem ser seus companheiros da Praia Vermelha. Este é o meu terror. O juízo passou a ser uma probabilidade, uma eventualidade, uma hipótese.

Isto, quanto à segunda parte da minha confissão. Quanto à primeira, o que aprendi com a fuga dos infelizes do Hospício, é ainda mais grave que a outra. O cálculo, o raciocínio, a arte com que procederam os conspiradores da fuga, foram de tal ordem, que diminuiu em grande parte a vantagem de ter juízo. O ajuste foi perfeito. A manha de dar pontapés nas portas para abafar o rumor que fazia Serrão arrombando a janela do seu cubículo, é uma obra-prima; não apresenta só a combinação de ações para o fim comum, revela a consciência de que, estando ali por doidos, os guardas os deixariam bater à vontade, e a obra da fuga iria ao cabo, sem a menor suspeita. Francamente, tenho lido, ouvido e suportado coisas muito menos lúcidas.

Outro episódio interessante foi a insistência de Serrão em ser submetido ao tribunal do júri, provando assim tal amor da absolvição e conseqüente liberdade, que faz entrar em dúvida se se trata de um doido ou de um simples réu. Não repito o mais, que está no domínio público e terá produzido sensações iguais às minhas. Deixo vacilante a alma do leitor. Homens tais não parecem artífices de primeira qualidade, espíritos capazes de levar a cabo as questões mais complicadas deste mundo?

Não quero tocar no caso de Paradeda Júnior, que lá vai mar em fora, por achá-lo tardio. Meio século antes, era um bom assunto de poema romântico. Quando, alto mar, o infeliz revelasse, por impulsão repentina, o seu verdadeiro estado mental, a cena seria terrível, e a inspiração germânica, mais que qualquer outra, acharia aí uma bela página. O poema devia chamar-se “Der närrische Schiff”.Descrição do mar, do navio e do céu; a bordo, alegria e confiança. Uma noite, estando a lua em todo o esplendor, um dos passageiros contava a batalha de Leipzig ou recitava uns versos de Uhland. De repente, um salto, um grito, tumulto, sangue: o resto seria

o que Deus inspirasse ao poeta. Mas, repito, o assunto é tardio.

De resto, toda esta semana foi de sangue, — ou por política, ou por desastre, ou por desforço pessoal. O acaso luta com o homem para fazer sangrar a gente pacata e temente a Deus. No caso de Santa Teresa, o cocheiro evadiu-se e começou o inquérito. Como os feridos não pedem indenização à companhia, tudo irá pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. No caso da Copacabana, deu-se a mesma fuga, com a diferença que o autor do crime não é cocheiro; mas a fuga não é privilégio de ofício, e, demais, o criminoso já está preso. Em Manhuaçu continua a chover sangue, tanto que marchou para lá um batalhão daqui. O comendador Ferreira Barbosa, (a esta hora assassinado) em carta que escreveu o diretor da Gazeta e foi ontem publicada, conta minuciosamente o estado daquelas paragens. Os combates têm sido medonhos. Chegou a haver barricadas. Um anônimo declarou pelo Jornal do Comércio que, se a comarca de São Francisco tornar à antiga província de Pernambuco, segundo propôs o Sr. Senador João Barbalho, não irá sem sangue. Sangue não tarda a escorrer do jovem Estado (peruano) do Loreto...

Enxuguemos a alma. Ouçamos, em vez de gemidos, notas de música. Um grupo de homens de boa vontade vai dar-nos música velha e nova, em concertos populares, a preço cômodo. Venham eles, venham continuar a obra do Clube Beethoven, que foi por tanto tempo o centro das harmonias clássicas e modernas. Tinha de acabar, acabou. Os Concertos populares também acabarão um dia, mas será tarde, muito tarde, se considerarmos a resolução dos fundadores, e mais a necessidade que há de arrancar a alma ao tumulto vulgar para a região serena e divina... Um abraço ao Dr. Luís de Castro.

Pela minha parte, proponho que, nos dias de concerto, a Companhia do Jardim Botânico, excepcionalmente, meta dez pessoas por banco nos bonds elétricos, em vez das cinco atuais. Creio que não haverá representação à Prefeitura, pois todos nós amamos a música; mas dado que haja, o mais que pode suceder, é que a Prefeitura mande reduzir a lotação à quatro pessoas do contrato; em tal hipótese, a companhia pedirá como agora, segundo acabo de ler, que a Prefeitura reconsidere o despacho, — e as dez pessoas continuarão, como estão continuando as cinco. Há sempre erro em cumprir e requerer depois; o mais seguro é não cumprir e requerer. Quanto ao método, é muito melhor que tudo se passe assim, no silêncio do gabinete, que tumultuosamente na rua: Não pode! não pode!

7 de junho

A questão da capital, — ou a questão capital, como se dizia na República Argentina, quando se tratou de dar à província de Buenos Aires uma cabeça nova, própria, luxuosa e inútil, — a nossa questão capital teve esta semana um impulso. Discutiu-se na Câmara dos Deputados um projeto de lei, que o Dr. Belisário Augusto propõe substituir por outro. Este outro declara a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro capital da República. Não é preciso acrescentar que o fundamentou eloqüentemente; este advérbio acompanha os seus discursos. Foi combatido naturalmente, sem paixão, sem acrimônia, com desejo de acertar, visto que a Constituição determina que no planalto de Goiás seja demarcado o território da nova capital, e já lá trabalha uma comissão de engenheiros; mas, estipulando a mesma Constituição, art. 34, que ao Congresso Federal compete privativamente mudar a capital da União, entendeu o Dr. Belisário Augusto que esta cláusula, se dá competência para a mudança, também a dá para a conservação; argumento que o Dr. Paulino de Sousa Júnior declarou irrespondível.

Todo o esforço do deputado fluminense foi para conservar a esta cidade o papel que lhe deram os tempos e a história. Fez, por assim dizer, o processo da Constituinte. “Os homens têm ilusões, disse S.Ex., e as assembléias também as têm.” Poderia acrescentar que as ilusões das assembléias são maiores, por isso mesmo que são de homens reunidos e o contágio é grande e rápido; e mais difícil se torna dissipá-las. S.Ex. pensa que a revolta de 6 de setembro teria vencido se o governo não estivesse justamente aqui. Bem pode ser que tenha razão. Creio nas prefeituras, mas para a defesa da República acho os cônsules mais aptos. Podeis redargüir que, convertida em Estado, esta cidade teria o seu governador, a sua Constituição, as suas câmaras; mas também se vos pode replicar que se o nosso Rio de Janeiro,

Ce pelé, ce galeux, d'où vient tout le mal,

tem por perigo o cosmopolitismo, este mesmo cosmopolitismo seria um aliado inerte da rebelião, e a autoridade de um pequeno Estado poderia menos, muitos menos, que a do próprio governo federal.

Não estranheis ver-me assim metido em política, matéria alheia à minha esfera de ação. Tampouco imagineis que falo pela tristeza de ver decapitada a minha boa cidade carioca. Tristeza tenho em verdade; mas tristezas não valem razões de Estado; e, se o bem comum o exige, devem converter-se em alegrias. Não senhor; se falo assim é para combater o próprio Dr. Belisário Augusto, por mais que me sinta disposto a concordar com ele. Parece-vos absurdo? Tende a paciência de ler.

Depois de perguntar qual das outras cidades disputou a posição de capital da República, o deputado fluminense fez esta interrogação: “Qual foi o movimento popular que impôs ao congresso a necessidade da mudança da capital?” Realmente, não houve movimento algum; mas, eu viro-lhe o argumento, e não creio que me refute. Sim, não houve movimento. Mas a própria cidade do Rio de Janeiro não reclamou nada, quando se discutiu a Constituição, não levou aos pés do legislador o seu passado, nem o seu presente, nem o seu provável futuro, não examinou se as capitais são ou não obras da história, não disse coisa nenhuma; comprou debêntures, que eram os bichos de então. Agora mesmo que o orador fluminense insta com o congresso para ver se a capital aqui fica, o Rio de Janeiro não insta também, não pede, com direito que tem todo cidadão e toda comunidade de procurar haver o que lhe parece ser de benefício público. Não ouço discursos reverentes, não vejo deliberações pacíficas, nem petições, já não digo do conselho municipal, a quem incumbe velar pela felicidade dos seus munícipes, porque é natural que essa corporação aspire às funções constitucionais de parlamento, com promoção equivalente de seus povos; mas os povos, que fazem eles ou que fizeram?

A conclusão é que o Rio de Janeiro, desde princípio, achou que não devia ser capital da União, e este voto pesa muito. É o decapitado par persuasion. Assim é que temos contra a conservação da capital, além do mais, o beneplácito do próprio Rio de Janeiro. Ele será sempre, como disse um deputado, a nossa New York. Não é pouco; nem todas as cidades podem ser uma grande metrópole comercial. Não levarão daqui a nossa vasta baía, as nossas grandezas naturais e industriais, a nossa Rua do Ouvidor, com o seu autômato jogador de damas, nem as próprias damas. Cá ficará o gigante de pedra, memória da quadra romântica, a bela Tijuca, descrita por Alencar em uma carta célebre, a Lagoa de Rodrigo de Freitas, a Enseada de Botafogo, se até lá não estiver aterrada, mas é possível que não; salvo se alguma companhia quiser introduzir (com melhoramentos) os jogos olímpicos, agora ressuscitados pela jovem Atenas... Também não nos levarão as companhias líricas, os nossos trágicos italianos, sucessores daquele pobre Rossi, que acaba de morrer, e apenas os dividiremos com São Paulo, segundo o costume de alguns anos. Quem sabe até se um dia...

Tudo pode acontecer. Um dia, quem sabe? Lançaremos uma ponte entre esta cidade e Niterói, uma ponte política, entenda-se, nada impedindo que também se faça uma ponte de ferro. A ponte política ligará os dois Estados, pois que somos todos fluminenses, e esta cidade passará de capital de si mesma a capital de um grande Estado único, a que se dará o nome de Guanabara. Os fluminenses do outro lado da água restituirão Petrópolis aos veranistas e seus recreios. Unidos, seremos alguma coisa mais que separados, e, sem desfazer nas outras, a nossa capital será forte e soberba. Se, por esse tempo a febre amarela houver sacudido as sandálias às nossas portas, perderemos a má fama que prejudica a todo o Brasil. Poderemos então celebrar o segundo centenário do destroço que aos franceses de Duclerc deu esta cidade com os seus soldados, os seus rapazes e os seus frades... Que esta esperança console o nosso Belisário Augusto, se cair o seu projeto de lei.

14 de junho

A publicação da Jarra do Diabo coincidiu com a chegada de Magalhães de Azeredo. Já tive ocasião de abraçar este jovem e talentoso amigo. É o mesmo moço que se foi daqui para Montevidéu começar a carreira diplomática. A natureza, naquela idade, não muda de feição; o artista é que se aprimorou no verso e na prosa, como os leitores da Gazeta terão visto e sentido. Este filho excelente volta também marido venturoso, e brevemente embarca para a Europa, onde vai continuar de secretário na legação junto à Santa Sé. Tudo lhe sorri na vida, sem que a Fortuna lhe faça nenhum favor gratuito; merece-os todos, por suas qualidades raras e finas. Jamais descambou na vulgaridade. Tem o sentimento do dever, o respeito de si e dos outros, o amor da arte e da família. Ao demais, modesto, — daquela modéstia que é a honestidade do espírito, que não tira a consciência íntima das forças próprias, mas que faz ver na produção literária uma tarefa nobre, pausada e séria.

Quando Magalhães de Azeredo partir agora para continuar as suas funções diplomáticas, deixará saudades a quantos o conhecem de perto. Os que a idade houver aproximado daquela outra viagem eterna, é provável, — é possível, ao menos, — que o não torne a ver, mas guardarão boa memória de um coração digno do espírito que o anima. Os moços, que aí cantam a vida, entrarão em flor pelo século adiante, e vê-lo-ão, e serão vistos por ele, continuando na obra desta arte brasileira, que é mister preservar de toda federação. Que os Estados gozem a sua autonomia política e administrativa, mas acompanham a mais forte unidade, quando se tratar da nossa musa nacional.

Por meu gosto não passava deste capítulo, mas a semana teve outros, se se pode chamar semana ao que foi antes uma simples alfândega, tanto se falou de direitos pagos e não pagos. Eis aqui o vulgar, meu caro poeta da Jarra do Diabo; aqui os objetos não se parecem, como a tua jarra, com “uma jovem mulher ateniense”. São fardos, são barricas e pagam taxas, outros dizem que não pagam, outros que nem pagarão. Uma balbúrdia. Eu, posto creia no bem, não sou dos que negam o mal, nem me deixo levar por aparências que podem ser falazes. As aparências enganam; foi a primeira banalidade que aprendi na vida, e nunca me dei mal com ela. Daquela disposição nasceu em mim esse tal ou qual espírito de contradição que alguns me acham, certa repugnância em execrar sem exame vícios que todos execram, como em adorar sem análise virtudes que todos adoram. Interrogo a uns e a outros, dispo-os, palpo-os, e se me engano, não é por falta de diligência em buscar a verdade. O erro deste mundo.

No caso da alfândega, não posso negar que as aparências são criminosas; mas serão crimes os atos praticados? Ecco il problema, diria enfaticamente o finado Rossi. Não se tratará antes de anúncios, reclamos, puffs, — censuráveis decerto,

— mas enfim anúncios? Ninguém ignora que não há nesta cidade, em tal matéria, excesso de invenção. Ao contrário, a imitação é fácil, pronta, despejada. Quando, há muitos anos, um negociante americano quis abrir na Rua do Ouvidor um depósito de lampiões e outros objetos de igual gênero, começou por mandar imprimir, no alto dos principais jornais desta cidade, uma só palavra, em letras que ocupavam toda a largura da folha. A palavra era: abrir-se-á. Grande foi a curiosidade pública, logo no primeiro dia, e nos dois que se lhe seguiram, lendo-se a palavra repetida, sem se poder atinar com a explicação. No quarto dia cresceu o espanto, quando no mesmo lugar saiu esta pergunta, que resumia a ansiedade geral: O que é que se há de abrir? Mais três dias, e as folhas publicaram no alto, em letras gordas, a resposta seguinte: O grande empório de luz, à Rua do Ouvidor nº...

O efeito da novidade foi enorme. Pois não faltou quem imitasse esse processo, que parecia gasto. Casas, exposições, liquidações, não me lembra já que espécies de aberturas solenes, recorreram ao anúncio americano. Onde falta invenção, é natural que a imitação sobre.

Mas por que ir tão longe? Recentemente, presentemente, vimos e vemos que a lembrança de recomendar um remédio por meio de comparação da pessoa enferma antes, durante e depois da cura, tão depressa apareceu, como foi logo copiada e repetida. – Eu era assim (uma cara magra); — ia quase ficando assim (uma caveira); até que passei a ser assim (uma cara cheia de saúde), depois que tomei tal droga. A fórmula primitiva serviu para as imitações, creio que sem alteração, a não ser o desenho das caras, e não todas.

Ora bem, os fardos e caixas cujos os direitos dizem ter sido desfalcados, não serão propriamente remédios? As guias de pagamento de taxas na alfândega não serão fórmulas de reclamo? — “Eu era assim (4:954$723); — ia quase ficando assim (4 $723); — mas acabei ficando assim (954$723), depois que tomei tal droga.” A novidade aqui está na substituição do desenho por algarismos; mas não haverá nisso tão somente afetação de originalidade, um modo de fazer crer que se inventa, quando apenas se copia, pois a idéia fundamental é a mesma? A questão é saber qual droga faz sarar o enfermo. Pode ser até que nem se trate de droga, mas de outros produtos, — não digo sedas, — mas algodão e análogos tecidos, não menos dignos de anúncios grandes por seus não menores milagres.

Tal é a minha impressão. A polícia faz muito bem averiguando se há mais que isto; não se perde nada em inquirir os homens. De resto, anda aí tanta coisa falsa, que provavelmente o remédio não cura com a facilidade que as guias lhe atribuem. Atos de autoridade competente afirmam que há quem venda por vinho-champanhe águas que nunca por lá passaram. Custa-me admitir isto; mas, não tendo razão para desmentir a afirmação, calo-me; — calo-me e não bebo. Tudo isto se prende aos desvios da alfândega, ao contrabando, à falsificação, a outras formas do mal, que não se devem eliminar sem base. Oh! se pudéssemos viver de maneira que todas as taxas se pagassem, sem alfândega, indo os produtores ao próprio Tesouro, com o dinheiro, sem precisar mostrar nem esconder nada, seda ou vinho... Não pode ser. Há talvez um fraudulento em muito homem a quem não falta mais que uma guia e o resto...

21 de junho

Querem os almanaques que o inverno comece hoje, 21 de junho. De ordinário começa mais cedo. Este ano, nem eu já cuidava em inverno, quando caiu a grande chuva de quinta-feira, e a temperatura baixou com ela. Manter-se-á a mudança? Esta é a questão, e, se não fosse a minha fé nos almanaques, eu diria que não, tais foram os calores deste mês; mas eu creio nos almanaques.

Sim, creio nos almanaques. Um velho amigo meu conta que, há cerca de quarenta anos, a noite de S. João fez calor de rachar. Pela minha parte, ainda me não esqueci que, há dezessete ou dezoito anos, a noite de S. Silvestre quase fez tiritar de frio. Mas são casos excepcionais. Em geral os almanaques são exatos. As idéias mudam, mudam os vestidos, o estilo, os costumes, as afeições, muita vez as palavras, e a própria moral tem alternativas. Montaigne é de parecer contrário; ele crê que não andamos para diante, nem para traz. Nous rodons plustot et tournevirons çà et là, diz ele pela sua bela língua e ortografia velha. Mas esse grande moralista, parecendo referir-se à vida humana, talvez aluda aos almanaques. Os almanaques não padecem da qualidade ruim de não sossegar nunca, de dizer hoje uma coisa e amanhã outra, de desmentir uns anos por outros. São constantes; os dias de lua variam, mas as mudanças são as mesmas, e não há lua cheia sem crescente, nem nova sem minguante. Há festas móveis, mas os almanaques declaram que são móveis; em compensação, as fixas são fixas. Os santos não saem do seu lugar. De longe em longe, há um dia de quebra.

No que os almanaques podiam mudar, — e não seria mudar, mas tornar ao que foram e confirmar assim a máxima de Montaigne, — é em reviver a astrologia, como no século XVIII. Os daquele tempo traziam predições que eram lidas, cridas e certamente cumpridas, visto que os anos se sucediam, as predições com eles, e a fé não se acabava. Tais eram elas, que o deão Swift também fez o seu almanaque astrológico, em que anunciou uma porção de sucessos mais ou menos graves, uns políticos, outros particulares, alguns simplesmente meteorológicos, como são hoje os de Holloway. Entre essas predições figurou a morte de John Tartridge, autor de outro almanaque astrológico, para o dia 29 de março, às onze horas da noite. Não vi a certidão de óbito de Tartridge, nem a história se ocupou com o desaparecimento desse personagem; mas em carta que se publicou por esse tempo, a morte de Tartridge foi contada como tendo ocorrido no próprio dia 29 de março, pela moléstia anunciada, com a única diferença da hora, que foi às sete e cinco minutos, isto é, quatro horas antes da do almanaque. O finado tentou contestar a notícia; mas a réplica do deão foi tão completa e lúcida, que o fez calar para sempre. Concluo que todas as demais predições daquele ano de 1708 foram cumpridas com pontualidade.

Se o nosso Laemmert quisesse melhorar nesta parte os seus almanaques, creio que beneficiaria o espírito público, além de ver crescer o número dos compradores. A astrologia não é ciência morta, como alguns supõem; eu a creio viva, mais viva que nunca, embora a tenham por sociologia ou outra coisa. Não duvidaria fundar uma faculdade livre, na qual igualmente aprendesse e ensinasse astrologia, e estou que daria prontos meia dúzia de bons astrólogos, no mesmo prazo em que um homem se pode formar em jurisprudência, ou ainda menos, em seis meses. A astrologia, bem considerada, é aplicação dos raios X ao tempo. Assim como se transporta ao papel a figura dos ossos escondidos na mão, assim também se pode dizer no dia 1 de janeiro os sucessos dos meses seguintes.

Suponhamos que o almanaque do presente ano trouxesse este melhoramento. As vantagens seriam grandes e evidentes, não porque a predição pudesse desviar os sucessos ou modificá-los; desde que vinham preditos, tinham de acontecer. Mas, em primeiro lugar, o espírito público ficaria avisado, e não haveria desses abalos que tanto concorrem para matar o coração, e com ele o homem. Já se sabia do caso; era só esperar. A alfândega, por exemplo, tinha marcado o dia das descobertas de desvios, falsificações e outros fenômenos. Quando estes se dessem, era só ler os pormenores. Pode ser até que, à força de esperar pelo crime, mal o julgássemos crime, e o fato de ser descoberto em dia marcado traria naturalmente a suspeita de ser a autoria fatal e necessária. Nem por isso ficaria impune. Os autores não tentariam fugir, já porque andariam vigiados e seriam pegados em tempo, já porque a própria fatalidade do crime os deixaria namorados do lucro, não contando que a esperança é eterna.

Em segundo lugar, preditos os acontecimentos nos almanaques, cada cidadão podia estudar o papel que lhe deveria caber naquele ano. Uns comporiam com tempo os discursos de indignação; outros, indiferentes, achariam na matéria do sucesso delituoso um bom motivo para almoçar bem. Agora mesmo sucedeu que, ou o povo, ou um sub-delegado em S. Gonçalo, Estado do Rio de Janeiro, armou gente, depôs o Conselho Municipal, e aclamou ou fez aclamar um conselho novo, tudo em menos de duas horas; é o que li nas folhas de ontem. Supondo este fato predito, os cinco meses e tanto decorridos entre a publicação do almanaque e a realização do fato acostumariam a gente a esperar por ele, encará-lo, examiná-lo, em tal modo que, quando chegasse a notícia, era como a analise de uma peça teatral representada na véspera. Tudo dependeria do talento do crítico. O único defeito da peça seria não ter mulheres; mas o presente copia às vezes o passado, e as cidades antigas e modernas raramente as metiam nas suas brigas interiores. Verdade é que S. Gonçalo pode ser uma espécie de Florença municipal, e começar esta divisão como a outra fez a sua de guelfos e gibelinos. Não há notícia da sangonçalista que haja produzido o ataque armado à câmara e a deposição do conselho; as notícias são incompletas. Venham as restantes; venha também um almanaque com os sucessos de 1897.

28 de junho

Fujamos desta Babilônia. Os desfalques levam o resto da confiança que resistiu aos desvios. Admito que alguns deles possam não ser desvios nem desfalques, mas simples descuidos, desastres ou desânimos. Em todo caso, não me sinto seguro. Temo que um dia destes me caia o sol na cabeça, que o chão me falte debaixo dos pés, que morram duas mil pessoas, como em Moscou, quando iam à sopa, ou dez mil, como no Japão, por um terremoto, ou não sei quantos mil, como em S. Luiz, ao sopro do último ciclone.

Temo tudo. O meu velho criado José Rodrigues... (Lembram-se do José Rodrigues?)... não anda bom, padece de tonteiras, dores de peito, ânsias; para mim, está cardíaco. Se não temesse que a farmácia aviasse um veneno por outro, como ainda esta semana sucedeu, há muito que o teria feito examinar. Mas, se o médico receitar alguma droga, terei a fortuna de já a achar expedida para Ouro-Preto e outras partes? Não sei... Pobre José Rodrigues! É um grande exemplo das vicissitudes humanas. Mal sabendo assinar o nome, ganhou um milhão no encilhamento, e quando começava a aprender ortografia, achou-se com três mil réis.

— Ai, patrão! dizia-me ele uma vez, eu nunca me devia ter metido em ortografias; um B de mais ou de menos não é que faz um homem feliz.

Fujamos, repito. Imitemos os que já foram, por motivo de desvio ou desfalque, e estão a esta hora respirando os ares do Rio da Prata. Deixaram carros e cavalos, mas também lá há carros, e dos cavalos temos aqui boas amostras. Se se desprenderam de amores, não são amores que lhes hão de lá faltar, e pela bela língua castelhana, que é a mesma nossa com castanholas. Teatros? também lá há teatros. Não chamarão ruas às ruas, e sim calles; mas quem é que se não habitua a este vocábulo, uma vez que more em casa boa, com bons trastes e boa comida? Depois, nem sempre se há de ficar longe da pátria. As saudades matam, e, para fugir à morte, vale a pena arriscar a vida, expressão que talvez não entendas, se me lês por distração; mas, se buscas aqui a lição de um sapiente, entenderás que

o que eu quero dizer, é que a vida corre o mesmo risco da liberdade, e os que tornam à pátria, deixam muita vez de perder uma e outra.

A vida perde-se, aliás, sem sair da terra natal, uns voluntariamente, como aquele bagageiro da Leopoldina, que veio acabar consigo na casa do próprio armeiro que lhe vendeu a garrucha. No mesmo dia, e não sei se a mesma hora, uma mulher empregada em fábrica de tecidos de um arrabalde tentava pôr termo aos dias. Demissão ou tristeza, qualquer causa serve a quem quer deveras ir embora desta aldeia, — como diz a cantiga, — e não pode proceder de outro modo. Mas, em verdade, parece que anda um vento de morte no ar.

Os que não vão por sua vontade, vão à força, e quando se preparam para ficar neste mundo por alguns anos mais, como aquele Dr. Ribeiro Vianna Filho, que veio ser operado e recebeu a operação última. Li o termo da autopsia; nunca deixo de ler esses documentos, não para aprender anatomia, mas para verificar ainda uma vez como a língua científica é diferente da literária. Nesta, a imaginação vai levando as palavras belas e brilhantes, faz imagens sobre imagens, adjetiva tudo, usa e abusa das reticências, se o autor gosta delas. Naquela, tudo é seco, exato e preciso. O hábito externo é externo, o interno é interno; cada fenômeno, como cada osso, é designado por um vocábulo. A cavidade torácica, a cavidade abdominal, a hipóstase cadavérica, a tetania, cada um desses lugares e fenômenos não pode receber duas apelações sob pena de não ser ciência. Daí certa monotonia, mas também que fixidez! As conclusões é que não podem ser tão rigorosas. No caso a que aludo, a morte foi produzida por “intensa hemorragia pulmonar”. Mas o que é que produziu a hemorragia? Essa é a parte deixada ao incognoscível. As crianças do meu tempo costumavam dizer por pilheria que uma pessoa havia morrido “por falta de respiração”. Pilheria embora, se a considerarmos bem, é uma conclusão científica; o mais é querer ir ao incognoscível, que é um muro eterno e escuro.

Sim, fujamos, não para a povoação de Monte-Alegre, onde caiu uma chuva de pedras, que danificou todas as casas. As pedras eram do tamanho de um ovo. Assim o diz o Correio de Amparo. Não é que receie pedras maiores que um ovo de galinha. Haveis de ter notado, se sois maduros e ainda mancebos, haveis de ter notado que as pedras que caem do céu em chuva, são sempre do tamanho de um ovo de galinha. Isto me levou um dia a indagar o que é que produz as chuvas de pedras e a concluir que o céu é uma vasta galinha invisível. Os ventos são o bater das suas asas; os trovões são o seu cacarejo. Não põe um ovo por dia como a galinha da terra; deixa-os juntar, e quando sente milhares deles, despeja-os.

A gente foge, porque os ovos, ainda sem casca, doem; mas apanha-os depois, mede-os e acha-os sempre do mesmo tamanho. Nunca li notícia de que fossem de pata ou de pomba.

Tal galinha nunca ficou choca? Se ficará, não sei; mas, no passado, pode ser que a criação se explique por uma grande ninhada de pintos. A galinha celeste punha então ovos com casca. Passados séculos, chocou os ovos. Passados outros séculos, os pintos entravam a picar a casca, a sair, a pipilar, a crescer, até que lhes chegou a vez de pôr. Não torçam o nariz à hipótese; há outras que valem um pouco mais, e todas hão de parar naquele incognoscível...

Quanto ao tom assustadiço da Semana, saibam que é natural, e pode lançá-lo à conta da melancolia com que acordei hoje. Disseram-me ontem que um homem distinto e rico entrou a padecer de uma crise mental pela presunção de estar pobre. Os pobres de verdade não enlouquecem, o que dá vontade de fazer como o pescador da Judéia, — deixar as redes e acompanhar a Jesus. Mas não esqueçamos que, se os pobres não enlouquecem por ser pobres, enlouquecem muita vez supondo que são ricos. Tal é a compensação da Natureza, nossa querida mãe.

5 de julho

Não quero saber de farmácias, nem de outras instituições suspeitas. Quero saber de música, só de música, tão somente música. O Jornal do Comércio deu um brado esta semana contra as casas que vendem drogas para curar a gente, acusando-as de as vender para outros fins menos humanos. Citou os envenenamentos que tem havido na cidade, mas esqueceu dizer ou não acentuou bem, que são produzidos por engano das pessoas que manipulam os remédios. Um pouco mais de cuidado, um pouco menos de distração ou de ignorância, evitarão males futuros.

Um fino espírito deste país, político e filósofo, definia-me uma vez as nossas farmácias como outras tantas confeitarias. Confesso que antes as quero confeitarias, que palácio dos Bórgias; não tanto porque nestes se possa achar a morte, como porque nós amamos os confeitos, e os frascos vindos do exterior têm ar de trazer amêndoas. É bom encontrar a saúde onde só se procura gulodice. Se, entretanto, o aumento dos impostos vai tornando difícil a importação desses preparados e obrigando a fazê-los cá mesmo, pode suceder que alguns envenenamentos se dêem a princípio; mas todo ofício tem uma aprendizagem, e não há benefício humano que não custe mais ou menos duras agonias. Cães, coelhos e outros animais são vitimas de estudos que lhes não aproveitam, e sim aos homens; por que não serão alguns destes vítimas do que há de aproveitar aos contemporâneos e vindouros? Que verdade moral, social, científica ou política não tem custado mortes e grandes mortes? As catacumbas de Roma...

Sem ir tão longe, há um argumento que desfaz em parte todos esses ataques às boticas: é que o homem é em si mesmo um laboratório. Que fundamento jurídico haverá para impedir que eu manipule e venda duas drogas perigosas? Se elas matarem, o prejudicado que exija de mim a indenização que entender; se não matarem, nem curarem, é um acidente, e um bom acidente, porque a vida fica, e está nos adágios populares que viva a galinha com a sua pevide. Suponhamos, porém, que uma dessas manipulações cura alguém; não vale este único benefício todos os possíveis males? Se espiritualmente há mais alegria no Céu pela entrada de um arrependido que pela de cem justos, não se pode dizer que na terra há mais alegria pela conservação de uma vida que pela perda de cem? Essa única vida não pode ser a de um grande homem, a de um varão justo, a de um simples pai de família, a de um filho amparo de sua velha mãe? Reflitamos antes de condenar, e deixemos as farmácias com os seus meninos antes de condenar, e deixemos as farmácias com os seus meninos, que assim acham ocupação honesta, em vez de se perderem na rua. Outrossim, não condenemos os que alugam títulos. Quem pode alugar uma casa que não fez, que comprou feita, por que não poderá alugar um título que lhe custou estudos longos e aprovações completas, que é verdadeiramente seu? Qual é propriedade maior?

Mas, fora com tudo isso, trataremos só de música. Não nos falta música, nem gosto particular em ouvi-la. Queirós deu-nos uma história de música, resumida em um grande concerto, em que ainda uma vez apresentou suas qualidades de artista. Não se contenta Alberto Nepomuceno com os Concertos Populares. Domingo passado fez ouvir o Visconde de Taunay uma redução do Requiem, do Padre José Maurício. A carta em que Taunay narra as comoções que lhe deu a obra do padre, comove igualmente aos que a lêem, e faz amar o padre, o Alberto, o Requiem e o escritor. Não bastam ao nosso Taunay as letras; a sua bela Inocência, vertida há pouco (ainda uma vez) para língua estranha e espalhada pelos centros europeus, repete lá fora o nome de um homem, cuja família se naturalizou brasileira. Tendo o amor que tem à música, trabalha há longos anos pela glória de José Maurício, tarefa em que veio agora auxiliá-lo o jovem maestro. E para que tudo seja música, até a morte quis levar esta semana um pianista a quem nunca ouvi, mas que ouço louvar; pianista amador, médico de ofício, que, às qualidades intelectuais, reunia dotes morais de muito apreço, o Dr. Lucindo Filho...

Outra morte que não sai da música, ou sai do mais íntimo dela, é a que se espera cada dia do Norte, a do nosso ilustre Carlos Gomes. Os telegramas de ontem dizem que o médico incumbido de o salvar já aplicou o remédio, mas sem esperanças. Dá-lhe os dias contados. Aguardemos a hora última desse homem que levará o nome brasileiro deste para o século novo, e cujas obras servirão de estímulo e exemplar às vocações futuras. A vida dele é conhecida; mas nem todos terão as sensações dos primeiros dias, quando Carlos Gomes chegou de São Paulo e aqui se estreou na Ópera Nacional, uma instituição mantida com dinheiros de loteria; leiam loteria, não bichos. Tudo é jogo, mas há espécies mais reles que outras, que apenas servem de ofício e comércio à gente vadia. Vivia de loteria a Ópera Nacional; antes vivesse de donativos diretos, mas enfim viveu e deu-nos Carlos Gomes, um pouco de Mesquita, outro pouco de Elias Lobo, não contando as noites em que se cantava a Casta Diva, por esta letra de um velho e bom amigo meu, depois chefe político:

Casta deusa, que derramas Nestas selvas luz serena...

Naquele tempo ainda Bach nem outros mestres influíam como hoje. Não tínhamos essa música, de que anteontem à noite nos deram horas magníficas os nossos dois hóspedes, Moreira de Sá e Viana da Mota, no Teatro Lírico. Hoje a crítica das folhas da manhã dirá deles o que couber e for de justiça, e estou que não será frouxo, nem pouco. Eu não tenho mais que ouvidos, e ouvidos de curioso, que não valem muito; mas, em suma, mais terei desaprendido com os olhos que com eles. Sinto que escutei dois homens de grande talento e grande arte, severos ambos, ambos eleitos pela natureza e confirmados pelo estudo para intérpretes de obras mestras. Não é de crer que os não ouçamos ainda uma vez ou mais. Li que vão a São Paulo, em breve; é de rigor. São Paulo é estação obrigada, é metade do Rio de Janeiro, se estas duas cidades não formam já, como Budapeste, artisticamente falando, uma só capital. Há tempo, entretanto, para que, antes de tornarem ao seu país, Viana da Mota e Moreira de Sá dêem ainda ao povo do Rio uma festa igual à de anteontem, em que recebam os mesmos aplausos.

E continua a música. Hoje é o terceiro dos Concertos Populares, instituição que o público aceitou e vai animado — em benefício seu, é verdade, não se podendo dizer que faça nenhum favor em ouvir a palavra clássica dos mestres. Antes deve ir cheio de gratidão. Há uma hora na semana em que alguns homens de boa vontade dispõem-se a arrancá-lo à vulgaridade e ao tédio, para lhe dar a sensação do belo e do gozo. São favores que lhe fazem. Para si mesmos, bastava-lhes um pouco de música de câmara, entre quatro paredes, e a boa disposição de meia dúzia de artistas.

Assim como a história política e social tem antecedentes, é de crer que esta parte da história artística do Rio de Janeiro tenha os seus também, e quer-me parecer que podemos ligá-la ao quarteto do Clube Beethoven.

Esse clube era uma sociedade restrita, que fazia os seus saraus íntimos, em uma casa do Catete, nada se sabendo cá fora senão o raro que os jornais noticiavam. Pouco a pouco se foi desenvolvendo, até que um dia mudou de sede, e foi para a Glória. Aquilo que hoje se chama profanamente Pensão Beethoven, era a casa do clube. O salão do fundo, tão vasto como o da frente, servia aos concertos, e enchia-se de uma porção de homens de vária nação, vária língua, vário emprego, para ouvir as peças do grande mestre que dava nome ao clube, e as de tantos outros que formam com ele a galeria da arte clássica. O nome do clube cresceu, entrou pelos ouvidos do público; este, naturalmente curioso, quis saber o que se passava lá dentro. Mas, não havendo público sem senhoras, e não podendo as senhoras penetrar naquele templo, que o não permitiam as disciplinas deste, resolveu o clube dar alguns concertos especiais no Cassino.

Não relembro o que eles foram, nem estou aqui contando a crônica desses tempos passados. Pegou tanto o gosto dos concertos Beethoven, que o Clube, para obedecer aos estatutos sem infringi-los, determinou construir no jardim aquele edifício ligeiro, onde se deram concertos a todos, sem que a casa propriamente da associação fosse violada. Os dias prósperos não fizeram mais que crescer; entrou a ser mau gosto não ir àquelas festas mensais. Mas tudo acaba, e o clube Beethoven, como outras instituições idênticas, acabou. A decadência e a dissolução puseram termo aos longos dias de delícias.

A primeira vez que vi o fundador daqueles concertos, foi de violino ao peito, junto de um piano, em que a senhora tocava; lá se vão muitos anos. Ele vinha do Japão, magro, pálido... “Não tem seis meses de vida”, disse-me em particular um homem que já morreu há muito tempo. Outros morreram também, alguns encaneceram; o resto dispersou-se, a senhora reside na Europa... Só a música pode dar a sensação destas ruínas. O verso também pode, mas há de ser pela toada do florentino, que assim como sabe a nota da maior dor, não menos conhece a da rejuvenescência, aquela que me faz crer, nestas sensações de arte.

Rifatto sì, come piante novelle Rinnovellate di novella fronda...

12 de julho

A bomba do El-dorado durou o espaço de uma manhã, tal qual a rosa de Malherbe. Esta velha rosa é que parece querer durar a eternidade. E aqui faço uma pequena crítica ao Sr. conselheiro Ângelo do Amaral. S. Ex. escreveu no Jornal do Comércio um artigo contra o remédio que o Sr. senador Leite e Oiticica publicou na Revista Brasileira para extirpar o mal das nossas finanças. A revisão deixou passar esta frase: “a rosa do Sr. senador pelas Alagoas teria a sorte da deMalherbe.” O Sr. Ângelo do Amaral corrigiu-a no dia seguinte, restaurando o que escrevera: “o projeto do Sr. senador pelas Alagoas teria a sorte da rosa de Malherbe.” Ah! por que não imitou o próprio poeta Malherbe, a quem a revisão atribuiu o verso que ficou? Francamente, a primeira forma era melhor; completava o seu pensamento dando ao projeto o nome da coisa perecível, uma vez que o acha perecível. Não me diga desdenhosamente que seria poético; poesia não deve entrar só por citação nas matérias áridas; pode muito bem tratar do próprio chão duro em que se pisa.

A rosa do El-dorado... Veja como eu dou execução ao meu conselho, sem que aliás uma bomba se pareça com flor. A rosa do El-dorado viveu tão pouco que nem se chegou a saber se foi dinamite, se pólvora; mas parece que foi pólvora. A incredulidade, que não morreu com Voltaire, abanou as orelhas à dinamite, o que diminuiu muito o horror à bomba. Mas fosse isto ou aquilo, o que é certo é que houve faca e revólver, um morto (Deus lhe fale n’alma!) e alguns feridos; entrando-se em dúvida tão somente se o ataque veio de fora ou de dentro, ou se de ambos os lados. Fez-se autópsia; e enterrou-se o cadáver. Quia pulvis es. Segundo li ontem, vai aparecer um incidente extraordinário neste negócio que lhe dará nova face. Não há de ser a ressurreição do defunto.

Houve denúncia, dias depois daquele, que iam cair algumas bombas de dinamite, não já no El-Dorado, mas no próprio Jardim Zoológico. A polícia mandou força; mas, ou porque a denúncia não tivesse fundamento, ou porque as providências da autoridade fizessem suspender a ação, não caiu nada, nem dinamite nem pólvora. Em compensação apareceu acônito, não já no Jardim Zoológico, mas em uma farmácia da rua Frei Caneca, donde foi dado a um doente, que ia morrendo à quarta dose, envenenado. Já disse o que penso destes envenenamentos. Uma vez que nenhuma intenção os produz, mas simples enganos, não são criminosos; ao contrário, podendo auxiliar o conhecimento da verdade, são necessários. No presente caso, por um soldado que se perdeu salvou-se o exército. É assim na guerra, é assim na vida. O ato do farmacêutico é que foi outra rosa de Malherbe.

Quanto ao jogo dos bichos, trava-se contra ele uma rude campanha. Começada na imprensa, vai sendo continuada pela polícia. As ordens expedidas por esta são positivas, e a execução por parte dos seus agentes vai sendo pontual. O quinhão da luta na imprensa é copioso. Medidas há (força é dizê-lo) que se não expedem logo pelo receio de que a imprensa as condene ou critique, o serviço fique mal visto, e a ação afrouxe. Mas uma vez que os jornais, como os parlamentos, votem uma moção de confiança nestes termos: “A opinião, certa de que o jogo será morto, passa à ordem do dia”, a autoridade assim apoiada e reforçada emprega todos os seus recursos.

A minha dúvida única é se o bicho morto não ressuscitará com diversa forma. Agora mesmo nem tudo são bichos; há prêmios de bebidas, distribuição de gravuras e outras convenções de azar. Convém ter em vista que os jogos são muitos. A loteria, um dos mais velhos, que tem desmoralizado a sociedade, serve com os seus números às várias especulações; mas não é a culpada única desta perversão de costumes. Única não pode ser; ela corrompe, ela deve ser extirpada, como outras instituições de dar fortuna; mas não esqueçamos que ela é também efeito. Contaram-me que, por ocasião do encilhamento, — essa enorme bicharia, em que todos os carneiros perderam, — ocorria um fato assaz característico. Sabe-se que na rua da Alfândega o ajuntamento era grande e o tumulto freqüente. Alguma vez foi preciso empregar força para aquietar os ânimos e dar passagem a outra gente. Sucedia então que, saindo a correr duas praças de cavalaria através da multidão, eram os próprios animais objeto de apostas, dizendo uns que o primeiro cavalo que chegava à esquina era o de cá, e outros que era o de lá, e os que acertavam recebiam um ou dois contos de réis.

Meditai bem. Uma paixão do azar tão grande, que o próprio cavalo (era já o bicho!) do agente da ordem servia de dado aos jogadores, não sai assim com duas razões. Não tenho remédio senão citar as estrebarias de Áugias para poder invocar Hércules. É preciso ser Hércules. Quem sabe se este número e esta nota que acabo de ler nos jornais: “19.915 foi o número de vidros de xarope de alcatrão e jataí vendidos no mês passado”, não é já uma forma nova para substituir os bichos? Tudo pode ser bicho; os próprios jornais, os mesmos artigos que combatem o mal, expõem-se a servir de pasto ao jogo, se os empresários deste se lembrarem de vender sobre a primeira letra do artigo de amanhã. Uns compram nas letras A até M., outros nas letras N até Z; e, ao contrário da lança de Télefo, que curava as feridas que fazia, aqui os remédios levam em si o veneno, como nas farmácias.

A paixão do azar é tal que, quando acabou a guerra franco-prussiana, Paris, não obstante os desastres de tão dura campanha e a dor patriótica da nação, chegou a jogar em plena rua. Rompeu, entretanto, a Comuna. Um dos comunistas, o famoso Raul Rigault, encarregado da polícia da cidade, expediu um decreto, que podeis ler nas Memórias de Rochefort, tomo II, pag. 366. Esse decreto, depois de dois considerandos, tinha este único artigo: “O jogo de azar é formalmente proibido”. Pois assim tão pequeno, sem taxação de pena nem indicação de processo, foi cumprido sem hesitação. A razão creio estar no poder da Comuna, que não se contentava com prender as pessoas, ia-as logo mandando para um mundo melhor. Daí a minha dúvida, por mais pura vontade que tenha a intendência municipal rejeitando a nova concessão ao jogo da pelota, e a polícia caçando os bichos. Creio que o mal está muito fundo.

Não digo que, por estar ferido, seja impossível curá-lo; digo que é preciso mais tempo que amanhã da rosa de Malherbe ou o dia inteiro da Batrachomyomachia. Neste poema, em que os ratos lutam com as rãs, Júpiter, rindo de gosto, diz a Minerva: “Filha minha, vai ajudar os ratos, que sempre andam no teu templo, à cata da gordura e dos restos dos sacrifícios”. Já então os bichos davam de comer aos ratos! Minerva recusa; acha que é melhor rever as batalhas de cima, ou, como se diz moderna e vulgarmente, ver os touros de palanque... Não, não basta aquele dia todo, nem os vinte dias da Ilíada; é preciso mais tempo e muita saúde orgânica.

19 de julho

Este que aqui vedes jantou duas vezes fora de casa esta semana. A primeira foi com a Revista Brasileira, o jantar mensal e modesto, no qual, se não faltam iguarias para o estômago, menos ainda as faltam para o espírito. Aquilo de Pascal, que o homem não é anjo nem besta, e que quando quer ser anjo é que fica besta, não cabe na comunhão da Revista. Podemos dizer sem desdouro nem orgulho que

o homem ali é ambas as coisas, ainda que se entenda o anjo como diabo e bom diabo. Sabe-se que este era um anjo antes da rebelião no céu. Nos que já estamos muito para cá da rebelião, não temos a perversidade de Lúcifer. Enquanto a besta come, o anjo conversa e diz coisas cheias de galanteria. Basta notar que, apesar de lá estar um financeiro, não se tratou de finanças. Quando muito, falou-se de insetos e um tudo-nada de divórcio.

Uma das novidades de cada jantar da Revista é a lista dos pratos. Cada mês tem a sua forma “análoga ao ato”, como diziam os antigos anúncios de festas, referindo-se ao discurso ou poesia que se havia de recitar. Desta vez foram páginas soltas do número que ia sair, impressas de um lado, com a lista do outro. Quem quis pode assim saborear um trecho truncado do número do dia 15, o primeiro de julho, número bem composto e variado. Uma revista que dure não é coisa vulgar entre nós, antes rara. Esta mesma Revista tem sucumbido e renascido, achando sempre esforço e disposição para continuá-la a perpetuá-la, como parece que sucederá agora.

O segundo jantar foi o do Dr. Assis Brasil. Quatro ou cinco dezenas de homens de boa vontade, com o chefe da Gazeta à frente, entenderam prestar uma homenagem ao nosso ilustre patrício, e escolheram a melhor prova de colaboração, um banquete a que convidaram outras dezenas de homens da política, das letras, da ciência, da indústria e do comércio. O salão do Cassino tinha um magnífico aspecto, embaixo pelo arranjo da mesa, em cima pela agremiação das senhoras que a comissão graciosamente convidou para ouvir os brindes. De outras vezes está audiência é o único doce que as pobres damas comem, e, sem desfazer nos oradores, creio ser órgão de todas elas dizendo que um pouco de doce real e peru de verdade não afiaria menos os seus ouvidos. Foi o que a comissão adivinhou agora. Mas, ainda sem isso, a concorrência seria a mesma, e ainda maior se não fora o receio da chuva, tanta havia caído durante o dia.

O que elas viram e ouviram deve tê-las satisfeito. O aspecto dos convivas não seria desagradável. Ao lado desse espetáculo, os bons e fortes sentimentos expressos pelos oradores, as palavras quentes, a cordialidade, o patriotismo de par com as afirmações de afeto para com a antiga metrópole, — nota que figurou em todos os discursos, — tudo fez da homenagem a Assis Brasil uma festa de família. O nosso eminente representante foi objeto de merecidos louvores. Ouviu relembrar e honrar os seus serviços, os seus dotes morais e intelectuais; e as palavras de elogio, sobre serem cordiais, eram auto-risadas, vinham do governo, do jornalismo, da diplomacia. As letras e o senado não falaram propriamente dele, mas sendo ele o centro e a ocasião da festa, todas as coroas iam coroá-lo.

Não quisera falar de mim; mas um pouco de egotismo não fica mal a um espírito geralmente desinteressado. As pessoas que me são íntimas sabem que estou padecendo de um ouvido, e sabem também que na noite do banquete fiquei pior.

Atribui à umidade o que tinha a sua causa em uma igreja de Porto-Alegre. Com efeito, no dia seguinte, abrindo os jornais, dei com telegrama daquela cidade noticiando que o Rev. padre Júlio Maria continuou na véspera as suas conferências, e que os aplausos tinham sido calorosos. Estava explicada a agravação da moléstia. Digo isto, porque a moléstia apareceu justamente no dia 13, em que o mesmo padre fez a primeira conferência da segunda série, conforme anterior telegrama, o qual acrescentava: “Auditório enorme; a igreja sem um lugar vazio. No final retumbantes palmas; verdadeira ovação ao orador”.

Essas palmas dentro da igreja foram tão fortes que repercutiram no meu gabinete e me entraram pelo ouvido, a ponto de o fazer adoecer. Quando ia melhor, em via de cura, continua o padre as conferências, e repetiram-se as palmas. Eis-me aqui numa situação penosa. Desejo que as conferências prossigam, uma vez que espalham verdades e rendem ovações ao orador; mas não desejo menos ficar curado, e para isso era preciso que não fosse com palmas que dessem ao padre Maria noticiado efeito da sua grande eloqüência. O silêncio, um triste silêncio de contrição, de piedade, de arrependimento, não viria pelo telégrafo, nem me faria adoecer; mas seria preciso pedi-lo, e eu não pediria jamais uma coisa que me aproveitasse em detrimento de um princípio. Melhor é sofrer com paciência, até que acabe está segunda série. Não esqueçais, ou ficai sabendo que a matéria da primeira conferência foi este tema: “Como muitos católicos são ateus práticos”. Posto que esse tema pareça prenhe de alusões pessoais, e fora de dúvida que foi bem escolhido, e as palmas mostraram ao orador que havia falado a pessoas conversas. Dessa triste categoria de católicos ateus poucos conheço pessoalmente, e esses mesmos têm o ateísmo tão diminuto que, se ouvissem o orador, teriam rasgado as luvas com frenéticos aplausos.

Adeus, leitor. Mas tenho tempo de dizer que, pela segunda vez, acabo de ler em Cleveland a palavra paternalismo. Não sei se é de invenção dele, se de outro americano, se dos ingleses. Sei que temos a coisa, mas não temos o nome, e seria bom tomá-lo, que é bonito e justo. A coisa é aquele vício de fazer depender tudo do governo, seja uma ponte, uma estrada, um aterro, uma carroça, umas botas. Tudo se quer pago por ele com favores do Estado, e, se não paga, que o faça à sua custa. O presidente dos Estados Unidos execra esse vício, e assim o declarou em mensagem ao congresso, negando sanção a uma lei que; abre 417 créditos no valor de oitenta milhões de dólares. O presidente falou sem rebuço; aludiu a interesses locais e particulares, condenou o desamor ao bem público, chamou extravagante a lei, somou as contas enormes que o governo já tem de pagar este ano, e escreveu esta máxima que, por óbvia, não serve menos de lição aos povos: “A economia privada e a despesa medida são virtudes sólidas que; conduzem à poupança e ao conforto”... O congresso leu as razões do veto, e, por dois terços, adotou definitivamente a lei, dando ao tesouro mais esta carga. A ciência política há de descobrir um processo de conciliar, nestas matérias, todos os Capitólios e todas as Casa-Brancas. O que não impede que incluamos paternalismo no dicionários. Adeus, leitor.

26 de julho

Apaguemos a lanterna de Diógenes; achei um homem. Não é príncipe, nem eclesiástico, nem filósofo, não pintou uma grande tela, não escreveu um belo livro, não descobriu nenhuma lei científica. Também não fundou a efêmera república do Loreto, e conseguintemente não fugiu com a caixa, como disse o telégrafo acerca de um dos rebeldes, logo que a província se submeteu às autoridades legais do Peru. O ato da rebeldia não foi sequer heróico, e a levada da caixa não tem merecimento, é a simples necessidade de um viático. O pão do exílio é amargo e duro; força é barrá-lo com manteiga.

Não, o homem que achei, não é nada disso. É um barbeiro, mas tal barbeiro que, sendo barbeiro não é exatamente barbeiro. Perdoai esta logomaquia; o estilo ressente-se da exaltação da minha alma. Achei um homem. Se aquele cínico Diógenes pode ouvir, do lugar onde está, as vozes cá de cima, deve cobrir-se de vergonha e tristeza; achei um homem. E importa notar que não andei atrás dele. Estava em casa muito sossegado, com os olhos nos jornais e o pensamento nas estrelas, quando um pequenino anúncio me deu rebate ao pensamento, e este desceu mais rápido que o raio até o papel. Então li isto: “Vende-se uma casa de barbeiro fora da cidade, o ponto é bom e o capital diminuto; o dono vende por não entender...”

Eis aí o homem. Não lhe ponho o nome, por não vir no anúncio, mas a própria falta dele faz crescer a pessoa. O ato sobra. Essa nobre confissão de ignorância é um modelo único de lealdade, de veracidade, de humanidade. Não penseis que vendo a loja (parece dizer naquelas poucas palavras do anúncio) por estar rico, para ir passear à Europa, ou por qualquer outro motivo que à vista se dirá, como é uso escrever em convites destes. Não, senhor; vendo a minha loja de barbeiro por não entender do ofício. Parecia-me fácil, a princípio: sabão, uma navalha, uma cara, cuidei que não era preciso mais escola que o uso, e foi a minha ilusão, a minha grande ilusão. Vivi nela barbeando os homens. Pela sua parte, os homens vieram vindo, ajudando o meu erro; entravam mansos e saíam pacíficos. Agora, porém, reconheço que não sou absolutamente barbeiro, e a vista do sangue que derramei, faz-me enfim recuar. Basta, Carvalho (este nome é necessário à prosopopéia), basta, Carvalho! É tempo de abandonar o que não sabes. Que outros mais capazes tomem a tua freguesia...

A grandeza deste homem (escusado é dizê-lo) está em ser único. Se outros barbeiros vendessem as lojas por falta de vocação, o merecimento seria pouco ou nenhum. Assim os dentistas. Assim os farmacêuticos. Assim toda a casta de oficiais deste mundo, que preferem ir cavando as caras, as bocas e as covas, a vir dizer chãmente que não entendem do ofício. Esse ato seria a retificação da sociedade. Um mau barbeiro pode dar um bom guarda-livros, um excelente piloto, um banqueiro, um magistrado, um químico, um teólogo. Cada homem seria assim devolvido ao lugar próprio e determinado. Nem por sombras ligo esta retificação dos empregos ao fato do envenenamento das duas crianças pelo remédio dado na Santa Casa de Misericórdia. Um engano não prova nada; e se alguns farmacêuticos, autores de iguais trocas, têm continuando a lutuosa faina, não há razão para que a Santa Casa entregue a outras pessoas a distribuição dos seus medicamentos, tanto mais que pessoas atuais os não preparam, e, no caso ocorrente, o preparado estava certo: a culpa foi das duas mães. A queixa dada pela mãe da defunta terá o destino desta, menos as pobres flores que Olívia houver arranjado para a sepultura da vítima. Também há Céu para as queixas e para os inquéritos. O esquecimento público é o responso contínuo que pede o eterno descanso para todas as folhas de papel despendidas com tais atos.

Sobre isto de inquéritos, perdi uma ilusão. Não era grande; mas as ilusões, ainda pequenas, dão outra cor a este mundo. Cuidava eu que os inquéritos eram sempre feitos, como está escrito, pelo próprio magistrado; mas ouvi que alguns escrivães (poucos) é que os fazem e redigem, supondo presente a pessoa que falta, como no whist se joga com um morto. Creio que é por economia de tempo, e tempo é dinheiro, dizem os americanos. O maior mal desse ato é não ser verídico, não o ser ilegal ou irregular. Se as dores humanas se esquecem, como se não hão de esquecer as leis? E dado seja simples praxe, as praxes alteram-se. O maior mal, digo eu, é não ser verídico, posto que aí mesmo se possa dizer que a verdade aparece muita vez envolta na ficção, e deve ser mais bela. As Décadas não competem com os Lusíadas.

O ideal da praxe é a cabeleira do speaker. Os ingleses mudarão a face da terra, antes que a cabeça do presidente da Câmara. Este há de estar ali com a eterna cabeleira branca e longa, até meia-noite, e agora até mais tarde, se é exato o telegrama desta semana, noticiando haver a Câmara dos Comuns resolvido levar as sessões além daquele limite. Não é que o não tenha feito muitas vezes; basta um exemplo célebre. Quando Gladstone deitou abaixo Disraeli, em 1852, acabou o seu discurso ao amanhecer, — um triste e frio amanhecer de inverno, que arrancou ao ministro caído esta palavra igualmente fria: “Ruim dia para ir a Osborne!” Agora vai ser sempre assim, tenham ou não os ministros de ir a Osborne pedir demissão. E o presidente firme, com a eterna cabeleira metida pela cabeça abaixo. Sim, eu gosto da tradição; mas há tradições que aborrecem, por inúteis e cansativas. De resto, cada povo tem as suas qualidades próprias e a diferença delas é que faz a harmonia do mundo. Desculpai o truísmo e o neologismo.

Mas eu que falo humilde, baixo e rudo, devia lembrar-me, a propósito de inquéritos, que a clareza do estilo é uma das formas da veracidade do escritor. Parece-me ter falado um tanto obscuramente na semana passada acerca das prédicas do Padre Júlio Maria em Porto Alegre. Alguns amigos supuseram ver uma crítica ao padre naquilo que era apenas uma alusão às palmas na igreja, e ainda assim por causa de meu ouvido, que já está bom, dou-lhes esta notícia. Que culpa tem o padre de ser eloqüente? Ainda agora acabo de ler o discurso que ele proferiu na Santa Casa, em Juiz de Fora, a 5 de janeiro deste ano. O assunto era velho: a caridade. Mas o talento está em fazer de assuntos velhos assuntos novos, — ou pelas idéias ou pela forma, e o Padre Júlio Maria alcançou este fim por ambos os processos. Também ali foi aplaudido. Em verdade, se ele prefere os discursos como os escreve, é natural que os próprios ouvintes de Porto Alegre se sentissem arrebatados e esquecessem o templo pela palavra que o enchia. Um ouvido curado faz justiça a todos.

E já que falo em palmas, convido-os a enviá-las ao Congresso de São Paulo, que votou ou está votando a estátua do Padre Anchieta. Ó Padre Anchieta, ó santo e grande homem, o novo mundo não esqueceu o teu apostolado. Aí vais ser esculpido em forma que relembre a cultos e incultos o que foste e o que fizeste nesta parte da terra. Os paulistas bem merecem da história. Não é só a piedade que lhes agradecerá; também a justiça reconhecerá esse ato justo. Tão alta e doce figura, como a do Padre Anchieta, não podia ficar nas velhas crônicas, nem unicamente nos belos versos de Varela. Mais palmas a São Paulo, que acaba de votar o subsídio e a pensão a Carlos Gomes e seus filhos. Salvador de Mendonça, um dos que saudaram a aurora do nosso maestro (há quantos anos!), mandou no serum dos cancerosos de New York uma esperança de cura para o autor do Guarani. Oxalá o encaminhe à vida, como o encaminhou à glória. E pois que trato de música, palmas ainda uma vez ao nosso austero hóspede Moreira de Sá, que teve a sua festa há quatro dias. A crítica disse o que devia do artista, a imprensa tem dito o que vale o homem. Eu subscrevo tudo, tão viva trago comigo a sensação que me deu o seu violino mestre e mágico.

Enfim, e porque tudo acaba na morte, uma lágrima por aquele que se chamou Dr. Rocha Lima. Não sei se lágrima; quando se padece tanto e tão longamente, a morte é liberdade, e a liberdade, qualquer que seja a sua espécie, é o sonho de todos os cativos. Rocha Lima deve ter sonhado, durante a agonia de tantos meses, com este desencadeamento que lhe tirou um triste suplício inútil.

2 de agosto

Avizinham-se os tempos. Este século principiado com Paulo e Virgínia, termina com Alfredo e Laura. Não é já o amor ingênuo de Port-Louis, mas um idílio trágico, como lhe chamou a Gazeta de anteontem, sem dúvida para empregar o título do último romance de Bourget. Em verdade, esse adolescente de quatorze anos, que procurou a morte por não poder vencer os desdéns da vizinha de treze anos, faz temer a geração que aí vem inaugurar o século XX. Que os dois se amassem, vá.

Tem-se visto dessas aprendizagens temporãs, ensaios para vôos mais altos. Que ela não gostasse dele, também é possível. Nem todas elas gostam logo dos primeiros olhos que as procuram; em tais casos, eles devem ir bater à porta de outro coração, que se abre ou não abre, e tudo é passar o tempo à espera do amor definitivo. Mas aquela aurora de sangue, aquela tentativa de fazer estourar a vida, na idade em que tudo manda guardá-la e fazê-la crescer, eis aí um problema obscuro — ou demasiado claro, pois tudo se reduz a um madrugar de paixões violentas. E o amor de Alfredo era ainda mais temporão do que parece; vinha desde meses, muito antes dos quatorze anos, quando ela teria pouco mais de doze.

Repito, os tempos se avizinham. Agora o amor precoce; vai chegar o amor livre, se é verdade o que me anunciou, há dias, um espírita. O amor livre não é precisamente o que supões, — um amor a carnet e lápis, como nos bailes se marcam as valsas e quadrilhas, até acabar no cotilhão. Esse será o amor libérrimo: durará três compassos. O amor livre acompanha os estados da alma; pode durar cinco anos, pode não passar de seis meses, três semanas ou duas. Aos valsistas plena liberdade. O divórcio, que o senado fez cair agora, será remédio desnecessário. Nem divórcio nem consórcio.

Mas a maior prova de que os tempos se avizinham é a que me deu o espírita de que trato. Estamos na véspera da felicidade humana. Vai acabar o dinheiro. A primeira vista, parece absurdo que a ausência do dinheiro traga a prosperidade da terra; mas, ouvida a explicação (que eu nunca li os livros desta escola) compreende-se logo; o dinheiro acaba por ser inútil. Tudo se fará troca por troca; os alfaiates darão as calças de graça e receberão de graça os sapatos e os chapéus. O resto da vida e do mundo irá pelo mesmo processo. O dinheiro fica abolido. A própria idéia do dinheiro perecerá em duas gerações.

Assim que, o mal financeiro e seu remédio, tema de tantas cogitações e palestras, acabará por si mesmo, não ficando remédio nem mal. Não haverá finanças, naturalmente, não haverá tesouro, nem impostos, nem alfândegas secas ou molhadas. Extinguem-se os desfalques. Este último efeito diminui os inquéritos, — falo dos inquéritos rigorosos, nem conheço outros. A virtude, ainda obrigada, é sublime. Os desfalques, andam tão a rodo que a gente de ânimo frouxo já inquire de si mesma se isto de levar dinheiro das gavetas do Estado ou do patrão é verdadeiramente delito ou reivindicação necessária. Tudo vai do modo de considerar o dinheiro público ou alheio. Se se entender que é deveras público e não alheio, mete-se no bolso a moral, a lei e o dinheiro, e brilha-se por algumas semanas. É sabido que dinheiro de desfalque nunca chega a comprar um pão para a velhice. Vai-se em folgares, e a pessoa que se dê por muito feliz, se não perde o emprego.

Acabado o dinheiro, os anglo-americanos não assistirão a luta do ouro e da prata, como esta que se trava agora, para eleger o candidato à presidência da República. Nunca amei o espírito prático daquela nação. Partidos que se podiam distinguir sonoramente, por meio de teorias bonitas, e em falta delas, por algumas daquelas palavras grandes e doces, que entram pela alma do eleitor e a embebedam, preferem escrever umas plataformas de negociantes. Dou de barato que não haja teorias nem palavras, mas simples pedidos de rua, distribuição de cartões pelo correio, um ou outro recrutamento para não fazer da Constituição uma peça rígida, mas flexível, alguma ameaça e o resto; tudo isso é melhor que discutir ouro e prata em casarões, diante de centenas de delegados, e votar por um ou outro desses metais. E qual vencerá em dezembro próximo? Parece-me que o ouro, se é certo o que dizem os ouristas; mas afirmando os pratistas que é a prata, melhor é esperar as eleições. Ouro ou prata há de ser difícil que o rei Dólar abdique, como quer o espiritismo. Uma folha, em que vem gravada a apoteose de Mac-Kinley, candidato do partido republicano, anuncia um casamento que se deve ter efetuado a 7 do mês passado. A noiva conta vinte anos e possui quatro milhões de dólares. Não é muito em terra onde os milhões chovem; mas esta qualidade parece ser tão principal que duas vezes o noticiarista fala nela. “Miss Uobarts, a despeito dos seus quatro milhões de dólares...” E mais abaixo: “os bens da noiva são calculados em quatro milhões de dólares.” Como é que numa região destas se há de abolir o dinheiro e restringir o casamento a uma troca de calças e vestidos?

Pelo lado psicológico e poético, perderemos muito com a abolição do dinheiro. Ninguém entenderá, daqui a meio século, o bom conselho de Iago a Roderigo, quando lhe diz e torna a dizer, três e quatro vezes, que meta dinheiro na bolsa. Desde então, já antes, e até agora é com ele que se alcançam grandes e pequenas coisas, públicas e secretas. Mete dinheiro na bolsa, — ou no bolso, diremos hoje, e anda, para diante, firme, confiança na alma, ainda que tenhas feito algum negócio escuro. Não há escuridão quando ainda há fósforos. Mete dinheiro no bolso. Vende-te bem, não compres mal os outros, corrompe e sê corrompido, mas não te esqueças do dinheiro, que é com que se compram os melões. Mete dinheiro no bolso.

Os conselhos de Iago, note-se bem, serviriam antes ao adolescente Alfredo, que tentou morrer por Laura. Também Roderigo queria matar-se por Desdêmona, que

o não ama e desposou Otelo; não era com revólver, que ainda não havia, mas por um mergulho na água. O honesto Iago é que lhe tira a idéia da cabeça e promete ajudá-lo a vencer, uma vez que meta dinheiro na bolsa. Assim podemos falar ao jovem Alfredo. Não te mates, namorado; mete dinheiro no bolso, e caminha. A vida é larga e há muitas flores na estrada. Pode ser até que essa mesma flor em botão, agora esquiva, quando vier a desabrochar, peça um lugar na tua botoeira, lado do coração. Make money. E depressa, depressa, antes que o dinheiro acabe, como quer o espiritismo, a não ser que o espírita Torteroli acabe primeiro que ele,

o que é quase certo.

9 de agosto

Quando se julgarem os tempos, a semana que passou apresentará ao Senhor uma bela fé de ofício e verá o seu nome inscrito entre as melhores deste ano.

— E tu que fizeste?

— Senhor, eu creio haver ganho um bom lugar. Os meus acontecimentos não foram todos da mesma espécie, nem podiam sê-lo, mas foram todos importantes e graves. Antes de tudo, embora não vá por ordem cronológica, a Inglaterra devolveu a Ilha da Trindade ao Brasil. Esta ilha foi um dia tomada por ingleses, ao que dizem para estação de um cabo telegráfico. Os brasileiros tiveram a notícia pelos jornais, quando a ocupação durava já meses e o chefe do gabinete inglês que havia presidido à captura já estava descansando dos trabalhos e outro chefe havia subido ao poder. Nestas coisas de ilhas capturadas, os gabinetes são solidários, e Salisbury acompanhou Rosebery, como se não fossem adversários políticos. Os brasileiros, porém, sentiram a dor do ato, e assim o clamaram pela boca legislativa e pela boca executiva, pela boca da imprensa e pela boca popular, com tal unanimidade que produzia um belo coro patriótico. Então Portugal, que conhecia os antecedentes da ilha interveio na contenda, deu à Grã-Bretanha as razões pelas quais a ilha era brasileira, só brasileira. É preciso confessar que a velha Inglaterra conhece muito bem história e geografia, que são professadas nas suas universidades com grande apuro; mas há casos em que o melhor é meter estas duas disciplinas no bolso e ir estudá-las nas universidades estrangeiras. Foi

o que sucedeu; Coimbra ensinou a Cambridge, e Cambridge achou que era assim, que a ilha era realmente brasileira, e mandou corrigir as cartas da edição Rosebery, onde a ilha da Trindade era uma estação telegráfica de Sir John Pender.

— Então tudo acabou em paz?

— Plena paz.

— Conquanto se trate de hereges, quero louvá-los pelo ato de restituir o seu a seu dono. Que mais houve, semana?

— Senhor, houve uns presentes de ouro e prata, tinteiros, canetas, penas, ofertados pelos jurados da 7ª sessão ordinária de 1896 do Rio de Janeiro ao juiz e aos promotores em sinal de estima, alta consideração e gratidão pelas maneiras delicadas com que foram tratados durante toda a sessão. O escrivão recebeu por igual motivo uma piteira de âmbar. Este ato em si mesmo, é quase vulgar; mas o que ele significa é muito. Significa um imenso progresso nos costumes daquele país. O júri é instituição antiga no Brasil. É serviço gratuito e obrigatório; todos têm que deixar os negócios para ir julgar os seus pares, sob pena de multa de vinte mil-réis por dia. Se fosse só isso, era dever que todo cidadão cumpriria de boa vontade; mas havia mais. As maneiras descorteses, duras e brutais com que eram tratados pelos magistrados e advogados não têm descrição possível.

Nos primeiros anos os jurados eram recebidos a pau, à porta do antigo aljube, por um meirinho: as sentenças produziam sempre contra eles alguma coisa, porque, se absolviam o réu ou minoravam a pena, os magistrados quebravam-lhes a cara; se, ao contrário, condenavam o réu, os advogados davam-lhos pontapés e murros. Entre muitos casos que se podiam escrever e são ali conhecidos de toda a gente, figura o que sucedeu em março ou abril de 1877. Havia um jurado que, pelo tamanho, era quase menino. Além de pequeno, magro; além de magro, doente. Pois os promotores, o juiz, o escrivão e os advogados, antes de começar a audiência, divertiram-se em fazer dele peteca. O pobrezinho ia das mãos de uns para as dos outros, no meio de grandes risadas. Os outros jurados, em vez de acudir em defesa do colega, riram também por medo e por adulação. O infeliz saiu deitando sangue pela boca. Pequenas coisas, cacholetas, respostas de desprezo, piparotes eram comuns. Alguns magistrados mais dados à chalaça puxavam-lhe o nariz ou faziam-lhe caretas. Um velho promotor tinha de costume, quando adivinhava o voto de algum deles, apontá-lo com o dedo, no meio do discurso, interrogando: “Será isto entendido por aquela besta de óculos que olha para mim?” Muitas vezes o juiz lia primeiramente para si as respostas do conselho de jurados e, se elas eram favoráveis ao réu, dizia antes de começar a lê-las em voz alta: “Vou ler agora a lista das patadas que deram os Srs. Juízes de fato.” No meio da polidez geral do povo, esta exceção do juiz enchia a muita gente de piedade e de indignação; mas ninguém ousava propor uma reforma nos costumes...

— Fraqueza de ânimo; os maus costumes reformam-se.

— Uma era nova começou em 1883; já então os jurados recebiam poucos cascudos e eram chamados apenas camelórios. Anos depois, em 1887, houve certo escândalo por uma tentativa de reação dos costumes antigos. A um dos jurados mandou pôr o juiz uma cabeça de burro. Era muito bem feita a cabeça; dois buracos serviam aos olhos e por um mecanismo engenhoso o homem abanava as orelhas de quando em quando, como se enxotasse moscas. Apesar do escândalo, a cabeça ainda foi empregada nos quatro anos posteriores. No fim de 1892 sentiu-se notável mudança nas maneiras dos juízes e promotores. Já alguns destes tiravam o chapéu aos jurados. Em setembro de 1893 apenas se ouviu a um daqueles dizer a um jurado que lhe perguntava pela saúde: “Passa fora!” Mas, pouco a pouco, as palavras grosseiras e gestos atrevidos foram acabando. Em 1895, havia apenas indiferença; em 1896, os jurados da 7ª sessão reconheceram que a polidez reinava enfim no tribunal popular. O entusiasmo desta vitória, alcançada por uma longa paciência, explica os presentes de ouro e prata. Eles marcam na civilização judiciária daquele país uma data memorável. Por isso é que me encho de orgulho.

— E há grandes mortos?

— Não tive nenhum. Um só morto, não grande, mas digno de apreço, de afeto e de pesar, um pobre jornalista que acabou com a pena na mão. Quem o conheceu na mocidade não podia antever a triste vida nem a triste morte. O pai, diretor do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, foi uma grande força no seu tempo. Conta-se que podia quanto queria; mas a morte acabou com a força, e o filho teve de buscar em si mesmo, não no nome, o trabalho necessário. Não fez outra coisa durante a vida inteira; trabalhou no jornal e no teatro, fez rir, e de quantas risadas provocou, muitas acabaram antes pela careta da morte, outras esqueceram talvez o autor delas; pobre Augusto de Castro! Era em seu tempo um dandy. Se pudesse adivinhar o que sucederia depois! Senhor, o que eu achei e deixei na terra foi a saudade do passado e o gozo do presente; muitos gemem o que foi, todos saboreiam o que é, raros cuidam do que será. Um clássico português (e aquele finado apreciava os clássicos da sua língua) escreveu que era provérbio ou dito alheio — não me lembra bem — que os italianos se governam pelo passado, os franceses pelo presente e os espanhóis pelo que há de vir. E acrescenta o clássico: “Aqui quisera eu dar uma repreensão de pena à nossa Espanha...” Repreensão por quê, Senhor? Eu creio que o mal é não cuidar no dia seguinte.

— Estás enganada, oh! muito enganada! Cuidar no dia seguinte é uma coisa; mas governar-se pelo que há de vir! Eu deixei aos homens o presente, que é necessário à vida, e o passado, que é preciso ao coração. O futuro é meu. Que sabe um tempo de outro tempo? Que semana pode adivinhar a semana seguinte?

16 de agosto

Esta semana é toda de poesia. Já a primeira linha é um verso, boa maneira de entrar em matéria. Assim que, podeis fugir daqui, filisteus de uma figa, e ir dizer entre vós, como aquele outro de Heine: “Temos hoje uma bela temperatura.” O que sucedeu em prosa nestes sete dias merecia decerto algum lugar, se a poesia não fosse o primeiro dos negócios humanos ou se o espaço desse para tanto; mas não dá. Por exemplo, não pode conter tudo o que sugere a reunião dos presidentes de bancos de nossa praça. Chega, quando muito, para dizer que o remédio tão procurado para o mal financeiro, — e naturalmente econômico, — foi achado depois de tantas cogitações. Os diretores, acabada a reunião, voltaram aos seus respectivos bancos e a taxa de câmbio subiu logo 1/8. A Bruxa espantou-se com isto e declarou não entender o câmbio. A poetisa Elvira Gama parecia havê-lo entendido, no soneto que ontem publicou aqui.

Doce câmbio...

Mas trata de amores, como se vê da segunda parte do verso:

...de seres atraídos, Ligados pela ação de igual desejo.

Eu é que o entendi de vez. A primeira reunião fez subir um degrau, a segunda fará subir outro, e virão muitas outras até que o câmbio chegue ao patamar da escada. Aí convidá-lo-ão a descansar um pouco, e, uma vez entrado na sala, fechar-lhe-ão as portas e deixá-lo-ão bradar à vontade. — Estás a 27, responderão os diretores do banco, podes quebrar os trastes e a cabeça, estás a 27, não desce de 27.

Quanto à desavença entre a bancada mineira e a bancada paulista, outro assunto de prosa da semana, menos ainda pode caber aqui, ele e tudo o que sugere relativamente ao futuro. Digo só que aos homens políticos da nossa terra ouvi sempre este axioma: que os partidos são necessários ao governo de uma nação. Partidos, isto é, duas ou mais correntes de opinião organizadas, que vão a todas as partes do país. Na nossa federação esta necessidade é uma condição de unidade. A Câmara de tantas bancadas quantos Estados; o próprio Rio de Janeiro, que por estar mais perto da capital cheira ainda a província, e o Distrito Federal, que constitucionalmente não é Estado, tem cada um a sua bancada particular. Ora, todas essas bancadas não só impedirão a formação dos partidos, mas podem chegar a destruir o único partido existente e fazer da Câmara uma constelação de sentimentos locais, uma arena de rivalidades estaduais. Quando muito, os Estados pequenos mergulharão nos grandes, e ficaremos com seis ou sete reinos, ducados e principados, dos quais mais de um quererá ser a Prússia.

Entro a devanear. Tudo porque não me deixei ir pela poesia adiante. Pois vamos a ela, e comecemos pelo quarto jantar da Revista Brasileira, a que não faltou poesia nem alegria. A alegria, quando tanta gente anda a tremer pelas falências no fim do mês, é prova de que a Revista não tem entranhas ou só as tem para os seus banquetes. Ela pode responder, entretanto, que a única falência que teme deveras é a do espírito. No dia em que meia dúzia de homens não puderem trocar duas dúzias de idéias, tudo está acabado, os filisteus tomarão conta da cidade e do mundo e repetirão uns aos outros a mesma exclamação daquele de Heine: Es ist heute eine schöne Witterung! Mas enquanto o espírito não falir, a Revista comerá os seus jantares mensais até que venha o centésimo, que será de estrondo. Se eu me não achar entre os convivas, é que estarei morto; peço desde já aos sobreviventes que bebam à minha saúde.

A demais poesia da semana consistiu em três aniversários natalícios de poetas: o de Gonçalves Dias a 10, o de Magalhães e Carlos a 13. O único popular destes poetas é ainda o autor da “Canção do Exílio”. Magalhães teve principalmente uma página popular, que todos os rapazes do meu tempo (e já não era a mesma geração) traziam de cor. O Carlos não chegou ao público. Mas são três nomes nacionais, e o maior deles tem a estátua que lhe deu a sua terra. Não indaguemos da imortalidade. Bocage, louvado por Filinto, improvisou uma ode entusiástica, fechada por esta célebre entonação: Posteridade, és minha! E ninguém já lia Filinto, quando Bocage ainda era devorado. O próprio Bocage, a despeito dos belos versos que deixou, está pedindo uma escolha dos sete volumes, — ou dos seis, para falar honestamente.

Justamente anteontem conversávamos alguns acerca da sobrevivência de livros e de autores franceses deste século. Entrávamos, em bom sentido, naquela falange de Musset:

Electeurs brevetés des morts et des vivants.

e não foi pequeno o nosso trabalho abatendo cabeças altivas. Nem Renan escapou, nem Taine; e, se não escapou Taine, que valor pode ter a profecia dele sobre as novelas e contos de Merimée? Il est probable qu’en l’an 2000 on relira la PARTIE DE TRIC-TRAC, pour savoir ce qu’il en coûte manquer une fois à l’honneur. Taine não fez como os profetas hebreus, que afirmam sem demonstrar; ele analisa as causas da vitalidade das novelas de Mérimée, os elementos que serviram à composição, o método e a arte da composição. O tempo dirá se acertou; e pode suceder que o profeta acabe antes da profecia e que no ano 2000 ninguém leia a História da Literatura Inglesa, por mais admirável que seja esse livro.

Mas no ano 2000 os contos de Mérimée terão século e meio. Que é século e meio! No mês findo, o poeta laureado de Inglaterra falou no centenário da morte de Burns, cuja estátua era inaugurada; parodiou um dito antigo, dizendo enfaticamente que não se pode julgar seguro o renome de um homem antes de 100 anos depois dele morto. Conclui que Burns chegara ao ponto donde não seria mais derribado. Não discuto opiniões de poetas nem de críticos, mas bem pode ser que seja verdadeira. Em tal caso, o autor de Carmem estará igualmente seguro, se o seu profeta acertou. Resta lembrar que a vida dos livros é vária como a dos homens. Uns morrem de vinte, outros de cinqüenta, outros de cem anos, ou de noventa e nove, para não desmentir o poeta laureado. Muitos há que, passado o século, caem nas bibliotecas, onde a curiosidade os vai ver, e donde podem sair em parte para a história, em parte para os florilégios. Ora, esse prolongamento da vida, curto ou longo, é um pequeno retalho de glória. A imortalidade é que é de poucos.

Não há muito, comemoramos o centenário de José Basílio, e ainda ontem encontrei o jovem talento e gosto que iniciou essa homenagem. Hão de lembrar-se que não foi ruidosa; não teve o esplendor da de Burns, cuja sombra viu chegar de todas as partes do mundo em que se fala a língua inglesa presentes votivos e deputações especiais. O chefe do partido liberal presidia às festas, onde proferiu dois discursos. Cá também eram passados cem anos; mas, ou há menor expansão aqui em matéria de poesia, ou o autor do Uruguai caminha para as bibliotecas e para a devoção de poucos. Não sei se ao cabo de outro século haverá outro Magalhães que inicie uma celebração. Talvez já o poeta esteja unicamente nos florilégios com alguns dos mais belos versos que se têm escrito na nossa língua. É ainda uma sombra de glória. A moeda que achamos entre ruínas tem o preço da antigüidade; a do nosso poeta terá a da própria mão que lhe deu cunho. Se afinal se perder, haverá vivido.

23 de agosto

Contrastes da vida, que são as obras de imaginação ao pé de vós!

Vinha eu de um banco, aonde fora saber notícias do câmbio. Não tenho relações diretas com o câmbio; não saco sobre Londres, nem sobre qualquer outro ponto da terra, que é assaz vasta, e eu demasiado pequeno. Mas tudo o que compro caro, dizem-me que é culpa do câmbio. “Que quer o senhor que eu faça com este câmbio a 9?” perguntam-me. Em vão leio os jornais; o câmbio não sobe de 9. O que faz é variar; ora é 9 1/8, ora 9 1/4, ora 9 3/8. Dorme-se com ele a 9 15/16,

acorda-se a 9 3/4. Ao meio-dia está a 9 1/2. Um eterno vaivém na mesma eterna casa. Sucedeu o que se dá com tudo; habituei-me a essa triste especulação de 9, e dei de mão a todas as esperanças de ver o câmbio a 10.

De repente, ouço dizer na rua que o câmbio baixara à casa dos 8. A princípio não acreditei; era uma invenção de mau gosto para assustar a gente, ou algum inimigo achara aquele meio de me fazer mal. Mas tanto me repetiram a notícia, que resolvi ir às casas argentárias saber se realmente o câmbio descera a 8. Em caminho quis calcular o preço das calças e do pão, mas não achei nada, vi só que seria mais caro. Entrei no primeiro banco, à mão, e até agora não sei qual foi. Gente bastante: todos os olhos fitavam as tabelas. Vi um 8, acompanhado de pequenos algarismos, que a cegueira da comoção não me permitiu discernir. Que me importavam estes? Um quarto, um oitavo, três oitavos, tudo me era indiferente, uma vez que o fatal número 8 lá estava. Esse algarismo, que eu presumia nunca ver nas tabelas cambiais, ali me apareceu com os seus dois círculos, um por cima do outro. Pareceu-me um par de olhos tortos e irônicos.

Perguntei a um desconhecido se era verdade. Respondeu-me que era verdade. Quanto à causa, quando lhe perguntei por ela, respondeu-me com aquele gesto de ignorância, que consiste em fazer cair os cantos da boca. Se bem me lembro, acrescentou o gesto de abrir os braços com as mãos espalmadas, que é a mesma ignorância em itálico. Compreendi que não sabia a causa; mas o efeito ali estava, e todos os olhos em cima dele, sem a consternação nem o terror que deviam ter os meus. Saí; na Rua da Alfândega, esquina da da Candelária, havia alguma agitação, certo burburinho, mas não pude colher mais do que já sabia, isto é, que

o câmbio baixara a 8. Um perverso, vendo-me apavorado, assegurava a outro que a queda a 7 não era impossível. Quis ir ao meu alfaiate para que me reduzisse a nova tabela ao preço que teria de pagar pelas calças, mas é certo que ninguém se apressa em receber uma notícia má. Que pode suceder? disse comigo; chegarmos à arozóia; será a restauração da nossa idade pré-histórica, e um caminho para oÉden, avant la lettre.

Enquanto seguia na direção da Rua Primeiro de março, ouvia falar do câmbio. Quase a dobrar a esquina, um homem lia a outro as cotações dos fundos. Tinham-se vendido ações do Banco Emissor de Pernambuco a mil e quinhentos; as debêntures da Leopoldina chegaram a obter seis mil setecentos e cinqüenta; das ações da Melhoramentos do Maranhão havia ofertas a quatro mil e quinhentos, mas ninguém lhes pegava. Dobrei a esquina, entrei na Rua Primeiro de março, em direção ao Carceler. Ia costeando as vitrinas de cambistas, cheias de ouro, muita libra, muito franco, muito dólar, tudo empilhado, esperando os fregueses. Vinha de dentro um fedor judaico de entontecer, mas a vista das libras restituía o equilíbrio ao cérebro, e fazia-me parar, mirar, cobiçar...

— Vamos! exclamei, olhando para o céu.

Que vi, então, leitor amigo? Na igreja da Cruz dos Militares, dentro do nicho de São João, estavam três pombas. Uma pousava na cabeça do apóstolo, outra na cabeça da à guia, outra no livro aberto. Esta parecia ler, mas não lia, porque abriu logo as asas e trepou à cabeça do apóstolo, e a que estava na cabeça do apóstolo, desceu à cabeça da à guia, e a que estava na cabeça da à guia, passou ao livro. Uma quarta pomba veio ter com elas. Então começaram todas a subir e a descer, ora parando por alguns segundos, e o santo quieto, deixando que elas lhe contornassem o pescoço e os emblemas, como se não tivesse outro ofício que esse de dar pouso às pombas.

Parei e disse comigo: Contrastes da vida, que são as obras da imaginação ao pé de vós? Nenhuma daquelas pombas pensa no câmbio, nem na baixa, nem no que há de vestir, nem no que há de comer. Eis ali a verdadeira gente cristã, eis o sermão da montanha, a dois passos dos bancos, às próprias barbas destas casas de cambistas que me enchem de inveja. Talvez na alma de algum destes homens viva ainda a própria alma de um antigo que ouviu discurso de Jesus, e não trocou por este o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Cuida das libras, como eu, que visto e me sustento pelo valor delas, mas eis aqui o que dizem as pombas, repetindo o sermão da montanha: “Não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis, nem para o vosso corpo, que vestireis... Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem fazem provimentos nos celeiros; e contudo, vosso pai celestial as sustenta... E por que andais vós solícitos pelo vestido? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam... Não andeis inquietos pelo dia de amanhã. Porque o dia de amanhã a si mesmo trará o seu cuidado; ao de hoje basta a sua própria aflição.” (São Mateus.)

Realmente, não cuidavam de nada aquelas pombas. Onde é o ninho delas? Perto ou longe, gostam de vir aqui à àguia de Patmos. Alguma vez irão ao apóstolo do outro nicho, São Pedro, creio; mas São João é que as namora, neste dia de câmbio baixo, como para fazer contraste com a besta do Apocalipse, a famosa besta de sete cabeças e dez cornos, — número fatídico — talvez a taxa do câmbio de amanhã (7/10).

Afinal deixei a contemplação das pombas e fui-me à farmácia, a uma das farmácias que há naquela rua. Ia comprar um remédio; pediram-me por ele quantia grossa. Como eu estranhasse o preço, replicou-me o farmacêutico: “Mas, que quer o senhor que eu faça com este câmbio a 8?” Como ao grande Gama, arrepiaram-se-me as carnes e o cabelo, mas só de ouvi-lo. A vista era boa, serena, quase risonha. Quis raciocinar, mas raciocínio é uma coisa e medicamento é outra; saí de lá com o remédio e um acréscimo de quinhentos réis no preço. Contaram-se que já não há tostões nas farmácias, nem tostões, menos ainda vinténs. Tudo custa mil-réis ou mil e quinhentos, dois mil réis ou dois mil e quinhentos, e assim por diante. Para a contabilidade é, realmente, mais fácil; e pode ser que o próprio enfermo ganhe com isso — a confiança, metade da cura.

Na rua tornei a erguer os olhos às pombas. Só vi uma, pousada no livro. Que tens tu? perguntei-lhe cá de baixo, por um modo sugestivo. Se é a besta de sete cabeças, não te importes que venha, contanto que não lhe cortes nenhuma. Já temos a de oito: menos de sete cabeças é nada. Pagarei nove mil-réis pelo remédio, mas antes nove que quatorze, no dia em que a besta ficar descabeçada, porque então o mais barato é o melhor de todos os remédios. E a pomba, pelo mesmo processo sugestivo:

— Que tenho eu com remédios, homem de pouca fé? O ar e o mato são as minhas boticas.

Quis pedir socorro ao apóstolo; mas o mármore, — ou a vista me engana, ou o apóstolo gosta das suas pombas amigas, — o mármore sorriu e não voltou a cara para não desmentir o estatuário. Sorriu, e a pomba saltou-lhe à cabeça, para lhe tirar comida, pagar, ou para lhe dar um beijo.

30 de agosto

Eis aqui o que diz o evangelista S. Marcos, X, 13, 14: “Então lhe apresentavam uns meninos para que os tocasse; mas os discípulos ameaçavam aos que lho apresentavam. O que vendo Jesus, levou-o muito a mal, e disse-lhes: “Deixai vir a mim os pequeninos, e não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus.” Farei como Jesus, em relação aos casos miúdos da semana, que os grandes querem abafar e pôr de lado. Nesta semana fez-se história e larga historia, uma pública, outra particular ou secreta, que não sei se são sinônimos, nem estou para ir agora aos dicionários; mas fez-se muita história, e ainda se fará história, ofício que não é meu.

Não é meu ofício fazê-la nem contá-la. Se pudesse adivinhá-la, sim, senhor. Já que estamos com a Itália em frente, deixem-me lembrar um grave historiador italiano do século XVI, que nada tem com os cônsules deste século em S. Paulo, e que escreveu de Savonarola o que sabemos daquele homem, mas é melhor dizer pela língua de ambos: “Savonarola... faceva professione di anteveder le cose future.” Ah! se eu pudesse exercer o mesmo ofício! Teria contado domingo passado a semana que acabou ontem, e contaria hoje a que começa amanhã. Não iria por boatos, que geralmente não se realizam, nem por induções, que falham muita vez. Ouço desde pequeno (e ainda agora ouvi) que os nossos negócios se resolvem pelo imprevisto. Pois é o imprevisto que eu quisera ver como se estivesse acontecendo, e contá-lo sete dias antes. Assim os leitores aprenderiam comigo, não a história que se aprende nos ginásios e faculdades, não a que se vende nas livrarias, mas a que anda encoberta, como o céu desta semana. Desde segunda-feira, dia de S. Bartolomeu, que estamos quase sem azul do céu, pouca luz, essa mesma de vermelhão, e raras estrelas. É o futuro. A lua política também andou vermelha. Ventou de quando em quando. O céu cobriu-se. Eu quisera ter o ofício de Savonarola, apesar de italiano.

Mas não me cabendo contar os grandes fatos, deixai vir a mim os pequeninos, como pedia Jesus. Um dos mais escassos e obscuros foi a conspiração descoberta quarta-feira no Hospício dos Alienados. Alguns doidos tinham preparado um movimento para matar os guardas, abrir as portas e vir gozar cá fora o ar livre, ainda que nublado. Essa curiosa conspiração é sintoma de algum juízo. Tramar a fuga no mais ardente dos sucessos exteriores, quando a polícia era pouca para guardar a cidade, mostra que os conspiradores, ou são menos alienados do que parecem, ou andam em comunicação com outros doidos cá de fora. Mas quem serão estes? Nem sempre é fácil distinguir, neste fim de século, um alienado de um ajuizado; ao contrário, há destes que parecem aqueles, e vice-versa. Tu que me lês, podes ser um mentecapto, e talvez rias desta minha lembrança, tanta é a consciência que tens do teu juízo. Também pode ser que o mentecapto seja eu.

Em verdade, não há certeza nesta matéria; à vista da sagacidade de uns e do estonteamento de outros. O melhor seria uma lei que abolisse a alienação mental, revogando as disposições em contrário, e ordenando que os supostos doidos fossem restituídos à sociedade, com indenização. Sei que, em geral, preferimos violar a lei a pôr outra nova; mas, para segurança dos hóspedes da Praia Vermelha, aconselho este segundo processo. E não só daqueles, se não também para a tua e minha segurança; podemos ir um dia para lá, sem outro recurso mais que a conspiração, que pode ser descoberta; o melhor é não ir ninguém.

Outro pequenino que há de vir a mim, é a exumação do cadáver de uma atriz. Correu que a atriz sucumbira em conseqüência de pancadas que lhe dera um ator; mas foi há tantos dias, e meteram-se tais sucessos de permeio, que eu pensei ser negócio igualmente morto e enterrado. Geralmente, a justiça, polícia ou como quer que se lhe chame, não teima tanto em perturbar o sono dos defuntos. Os próprios crimes em que não há defunto, tem-se visto seguirem o destino da Malibran, que ao cabo de quinze dias de finada já o poeta achava tarde para falar dela. Lendo, porém, a notícia com a atenção que merece, entende-se tudo; o acusado de espancamento não queria ficar com a suspeita em cima de si, e, posto

o não conheça, acho que fez bem. A sua petição foi a enxada, o instrumento cirúrgico, o auto do escrivão, o relatório médico-legal. Sem ela, é provável que a morta tivesse esperado a trombeta do juízo final, para dizer ao Senhor que ele não tinha culpa.

O que também se compreende, é que a exumação e a autópsia se hajam feito, conforme li nos jornais, diante de grande número de curiosos. Essa espécie de curiosidade não é menos legítima sem menos nobre que outras muitas. Nada mais comum que ver um cadáver em caixão aberto ou na rua. Agora mesmo viram-se alguns em telegramas de S. Paulo. Também se podem ver cadáveres no necrotério e rara é a pessoa que ali passa, a pé, de carro ou de bond, que não deite os olhos para o mármore, a ver se há algum corpo em cima. Exumações e autopsias é que não são comuns, mormente de pessoas conhecidas; e se estas são atrizes, cresce naturalmente o gosto do espetáculo. É ainda um espetáculo, sombra do Rio Nu, sem as calças de meia que a verdadeira peça ainda usa, dizem. As feições é que não conservam a frescura dos últimos instantes; a morte é uma velha careta. Mirar assim a pessoa desenterrada pode causar a princípio certa impressão de aborrecimento, mas passa logo.

Venha agora a mim outro pequenino, — ou pequeníssimo, para falar superlativamente. Venderam-se trezentas e tantas ações da Companhia Saneamento, a vintém cada uma. Vintém ou vinte réis, se preferis a fórmula oficial. “A razão de tal preço explica-se bem, considerando que as ações da companhia podem ser antes bentinhos de saneamento que livram da febre amarela, trazidos ao pescoço. O dividendo não é em dinheiro, mas em saúde; e, se é verdade que destes dois bens o primeiro está em segundo lugar, e o segundo em primeiro, como querem o meu belo Schopenhauer e todos os velhos e moços de juízo, vale mais o bentinho que a apólice. Os estudos higiênicos feitos este ano parece que nunca concordaram na questão do lençol de água. Ora, não se sabendo ao certo onde está o mal nem o remédio, é justo pedir este ao céu, e distribuir ações a vinte réis, para chegar aos pobres.

6 de setembro

Qualquer de nós teria organizado este mundo melhor do que saiu. A morte, por exemplo, bem podia ser tão-somente a aposentadoria da vida, com prazo certo. Ninguém iria por moléstia ou desastre, mas por natural invalidez; a velhice, tornando a pessoa incapaz, não a poria a cargo dos seus ou dos outros. Como isto andaria assim desde o princípio das coisas, ninguém sentiria dor nem temor, nem os que se fossem, nem os que ficassem. Podia ser uma cerimônia doméstica ou pública; entraria nos costumes uma refeição de despedida, frugal, não triste, em que os que iam morrer, dissessem as saudades que levavam, fizessem recomendações, dessem conselhos, e, se fossem alegres, contassem anedotas alegres. Muitas flores, não perpétuas, nem dessas outras de cores carregadas, mas claras e vivas, como de núpcias. E melhor seria não haver nada, além da despedidas verbais e amigas...

Bem sei o que se pode dizer contra isto; mas por agora importa-me somente sonhar alguma coisa que não seja a morte bruta, crua e terrível, que não quer saber se um homem é ainda precioso aos seus, nem se merece as torturas com que o aflige primeiro, antes de estrangulá-lo. Tal acaba de suceder ao nosso Alfredo Gonçalves, que foi anteontem levado à sepultura, após algum tempo de enfermidade dura e fatal. Para falar a linguagem da razão, se a morte havia de levá-lo anteontem, melhor faria se o levasse mais cedo. A linguagem do sentimento é outra: por mais que doa ver padecer, e por certo que seja o triste desenlace, o coração teima em não querer romper os últimos vínculos, e a esperança tenaz vai confortando os últimos desesperos. Não se compreende a necessidade da morte do pobre Alfredo, um rapaz afetuoso e bom, jovial e forte, que não fazia mal a ninguém, antes fazia bem a alguns e a muitos, porque é já benefício praticar um espírito agudo e um coração amigo.

Quando anteontem calcava a terra do cemitério, debaixo da chuva que caía, batido do vento que torcia as alvores, lembrou-me outra ocasião, já remota, em que ali fomos levar um irmão do Alfredo. Nunca me há de esquecer essa triste noite. A morte do Artur foi súbita e inesperada. Prestes a ser transportado para o coche fúnebre, pareceu a um amigo e médico que o óbito era aparente, um caso possível de catalepsia. Não se podia publicar essa esperança débil, em tal ocasião, quando todos estavam ali para conduzir um cadáver; calou-se a suspeita, e o féretro, mal fechado, foi levado ao cemitério... Não podeis imaginar a sensação que dava aos poucos que sabiam da ocorrência, aquele acompanhar o saimento de uma pessoa que podia estar viva. No cemitério, feita reservadamente a comunicação, foi o caixão deixado aberto em depósito, velado por cinco ou seis amigos. O estado do corpo era ainda o mesmo; os olhos, quando se lhes levantassem as pálpebras, pareciam ver. Os sinais definitivos da morte vieram muito mais tarde.

Saí antes deles, eram cerca de oito horas; não havia chuva, como anteontem, nem lua, mas a noite era clara, e as casas brancas da necrópole deixavam-se ver muito bem, com os seus ciprestes ao lado. Descendo por aqueles renques de sepulturas, cuidava na entrada da esperança em lugar onde as suas asas nunca tocaram o pó ínfimo e último. Cuidei também naqueles que porventura houvessem sido, em má hora, transferidos ao derradeiro leito sem ter pegado no sono e sem aquela final vigília.

Carlos Gomes não deixará esperanças dessas. “Talvez ao chegarem estas linhas ao Rio ele Janeiro, já não exista o inspirado compositor, que entrou em agonia”, diz uma carta do Pará, publicada ontem no Jornal do Comércio. Pois existe, está ainda na mesma agonia em que entrou, quando elas de lá saíram. Hão de lembrar-se que há muitos dias um telegrama do Pará disse a mesma coisa; foi antes dos protocolos italianos. Os protocolos vieram, agitaram, passaram, e o cabo não nos contou mais nada. O padecimento, assim longo, deve ser forte; a carta confirma esta dedução. Carlos Gomes continua a morrer. Até quando irá morrendo? A ciência dirá o que souber; mas ela também sabe que não pode crer em si mesma.

Não me acuseis de teimar neste chão melancólico. O livro da semana foi um obituário, e não terás lido outra coisa, fora daqui, senão mortes e mais mortes. Não falemos do chanceler da Rússia, nem de outro qualquer personagem, que a distância e a natureza do cargo podem despir de interesse para nós. Mas vede as matanças de cristãos e muçulmanos na Salônica, esta semana, e finalmente em Constantinopla. O cabo tem contado coisas de arrepiar. Na capital turca empregaram-se centenas de coveiros em abrir centenas de covas para enchê-las com centenas de cadáveres. Não nos dizem, é verdade, se na morte ao menos foram irmanados cristãos e maometanos, mas é provável que não. Ódio que acaba com a vida, não é ódio, é sombra de ódio, é simples e reles antipatia. O verdadeiro é o que passa às outras gerações, o que vai buscar a segunda no próprio ventre da primeira, violando as mães a ferro e fogo. Isto é que é ódio. O provável é que os coveiros tenham separado os corpos, e será piedade, pois não sabemos se, ainda no caminho do outro mundo, o Corão não irá enticar com o Evangelho. Um telegrama de Londres diz que Istambul está sossegada; ainda bem, mas até quando?

Também começaram a matar nas Filipinas, a matar e a morrer pela independência, como em Cuba. A Espanha comove-se e dispõe-se a matar também, antes de morrer. É um império que continua a esboroar-se, pela lei das coisas, e que resiste. Assim vai o mundo esta semana; não é provável que vá diversamente na semana próxima.

E ainda não conto aquele gênero de morte que não está nas mãos dos homens, nem dentro deles, o que a natureza reserva no seio da terra para distribuí-la por atacado. Lá se foi mais uma cidade do Japão, comida por um terremoto, com a gente que tinha. Os terremotos japoneses, alguns meses antes, levaram cerca de dez mil pessoas. O cabo fala também dos tremores na Europa, mas por ora não houve ali nenhuma Lisboa que algum Pombal restaure, nem outra Pompéia, que possa dormir muitos séculos. Mortes, pode ser; a semana é de mortes.

13 de setembro

Dizem da Bahia que Jesus Cristo enviou um emissário à terra, à própria terra da Bahia, lugar denominado Gameleira, termo de Orobó Grande. Chama-se esse emissário Manuel da Benta Hora, e tem já um séqüito superior a cem pessoas.

Não serei eu que chame a isto verdade ou mentira. Podem ser as duas coisas, uma vez que a verdade confine na ilusão, e a mentira na boa fé. Não tendo lido nem ouvido o Evangelho de Benta Hora, acho prudente conservar-me à espera dos acontecimentos. Certamente, não me parece que Jesus Cristo haja pensado em mandar emissários novos para espalhar algum preceito novíssimo. Não; eu creio que tudo está dito e explicado. Entretanto, pode ser que Benta Hora, estando de boa fé, ouvisse alguma voz em sonho ou acordado, e até visse com os próprios olhos a figura de Jesus. Os fenômenos cerebrais complicam-se. As descobertas últimas são estupendas; tiram-se retratos de ossos e de fetos. Há muito que os espíritas afirmam que os mortos escrevem pelos dedos dos vivos. Tudo é possível neste mundo e neste final de um grande século.

Daí a minha admiração ao ler que a imprensa da Bahia aconselha ao governo faça recolher Benta Hora à cadeia. Note-se de passagem: a notícia, posto que telegráfica, exprime-se deste modo: “a imprensa pede ao governo mandar quanto antes que faça Benta Hora apresentar as divinas credenciais na cadeia...” Este gosto de fazer estilo, embora pelo fio telegráfico, é talvez mais extraordinário que a própria missão do regente apóstolo. O telégrafo é uma invenção econômica, deve ser conciso e até obscuro. O estilo faz-se por extenso em livros e papéis públicos, e às vezes nem aí. Mas nós amamos os ricos vestuários do pensamento, e o telegrama vulgar é como a tanga, mais parece despir que vestir. Assim explico aquele modo faceto de noticiar que querem meter o homem na cadeia.

Isto dito, tornemos à minha admiração. Não conhecendo Benta Hora, não crendo muito na missão que o traz (salvo as restrições acima postas), não é preciso lembrar que não defendo um amigo, como se pode alegar dos que estão aqui acusando o padre Dantas, vice-governador de Sergipe, por perseguir os padres da oposição. Em Sergipe, onde o governo é quase eclesiástico, não há necessidade de novos emissários do Céu; as leis divinas estão perpetuamente estabelecidas, e o que houver de ser, não inventado, mas definido, virá de Roma. Assim o devem crer todos os padres do Estado, sejam da oposição, ou do governo, Olímpios, Dantas ou Jônatas. Portanto, se alguns forem ali presos, não é porque se inculquem portadores de novas regras de Cristo, mas porque, unidos no espiritual, não o estão no temporal. A cadeia fez-se para os corpos. Todos eles têm amigos seus, que os acompanham no infortúnio, como na prosperidade; mas tais amigos não vão atrás de uma nova doutrina de Jesus, vão atrás dos seus padres.

É o contrário dos cento e tantos amigos de Benta Hora; esses, com certeza, vão atrás de algum Evangelho. Ora, pergunto eu: a liberdade de profetar não é igual à de escrever, imprimir, orar, gravar? Ninguém contesta à imprensa o direito de pregar uma nova doutrina política ou econômica. Quando os homens públicos falam em nome da opinião, não há quem os mande apresentar as credenciais na cadeia. E desses, por três que digam a verdade, haverá outros três que digam outra coisa, não sendo natural que todos dêem o mesmo recado com idéias e palavras opostas. Donde vem então que o triste do Benta Hora deva ir confiar às tábuas de um soalho as doutrinas que traz para um povo inteiro, dado que a cadeia de Obrobó-Grande seja assoalhada?

Lá porque o profeta é pequeno e obscuro, não é razão para recolhê-lo à enxovia. Os pequenos crescem, e a obscuridade é inferior à fama unicamente em contar menor número de pessoas que saibam da profecia e do profeta. Talvez esta explicação esteja em La Palisse, mas esse nobre autor tem já direito a ser citado sem se lhe pôr o nome adiante. Os obscuros surgirão à luz, e algum dia aquele pobre homem da Gameleira poderá ser ilustre. Se, porém, o motivo da prisão é andar na rua, pregando, onde fica o direito de locomoção e de comunicação? E se esse homem pode andar calado, por que não andará falando? Que fale em voz baixa ou média, para não atordoar os outros, sim, senhor, mas isso é negócio de admoestação, não de captura.

Agora se a alegação para a captura é a falsidade do mandato, cumpre advertir que, antes de tudo, é mister prová-lo. Em segundo lugar, nem todos os mandatos são verdadeiros, ou, por outra, muitos deles são argüidos de falsos, e nem por isso deixam de ser cumpridos; porquanto a falsidade de um mandato deduz-se da opinião dos homens, e estes tanto são veículos da verdade como da mentira. Tudo está em esperar. Quantos falsos profetas por um verdadeiro! Mas a escolha cabe ao tempo, não à polícia. A regra é que as doutrinas e as cadeias se não conheçam; se muitas delas se conhecem, e a algumas sucede apodrecerem juntas, o preceito legal é que nada saibam umas das outras.

Quanto à doutrina em si mesma, não diz o telegrama qual seja; limita-se a lembrar outro profeta por nome Antônio Conselheiro. Sim, creio recordar-me que andou por ali um oráculo de tal nome; mas não me ocorre mais nada. Ocupado em aprender a minha vida, não tenho tempo de estudar a dos outros; mas, ainda que esse Antônio Conselheiro fosse um salteador, por que se há de atribuir igual vocação a Benta Hora? E, dado que seja a mesma, quem nos diz que, praticado com um fim moral e metafísico, saltear e roubar não é uma simples doutrina? Se a propriedade é um roubo, como queria um publicista célebre, por que é que o roubo não há de ser uma propriedade? E que melhor método de propagar uma idéia que pô-la em execução? Há, em não me lembra já que livro de Dickens, um mestre-escola que ensina a ler praticamente; faz com que os pequenos soletrem uma oração, e, em vez da seca análise gramatical, manda praticar a idéia contida na oração; por exemplo, eu lavo as vidraças, o aluno soletra, pega da bacia com água e vai lavar as vidraças da escola; eu varro o chão, diz o outro, e pega da vassoura, etc., etc. Esse método de pedagogia pode ser aplicado à divulgação das idéias.

Fantasia, dirás tu. Pois fiquemos na realidade, que é o aparecimento do profeta de Obrobó-Grande, e o clamor contra ele. Defendamos a liberdade e o direito. Enquanto esse homem não constituir partido político com seus discípulos, e não vier pleitear uma eleição, devemos deixá-lo na rua e no campo, livre de andar, falar, alistar crentes ou crédulos, não devemos encarcerá-lo nem depô-lo. O caboclo da Praia Grande viu respeitar em si a liberdade. Se Benta Hora, porém, trocando um mandato por outro, quiser passar do espiritual ao temporal e...

20 de setembro

Toda esta semana foi feita pelo telégrafo. Sem essa invenção, que põe o nosso século tão longe daqueles em que as notícias tinham de correr os riscos das tormentas e vir devagar como o tempo anda para os curiosos, sem essa invenção esta semana viveria do que lhe desse a cidade. Certamente, uma boa cidade como a nossa não deixa os filhos sem pão; fato ou boato, eles teriam algo que debicar. Mas, enfim, o telégrafo incumbiu-se do banquete.

A maior das notícias para nós, a única nacional, não preciso dizer que é a morte de Carlos Gomes. O telégrafo no-la deu, tão pronto se fecharam os olhos do artista e deu mais a notícia do efeito produzido em todo aquele povo do Pará, desde o chefe do Estado até o mais singelo cidadão. A triste nova era esperada — e não sei se piedosamente desejada. Correu aos outros Estados, ao de São Paulo, à velha cidade de Campinas. A terra de Carlos Gomes deseja possuir os restos queridos de seu filho, e os pede; São Paulo transmite o desejo ao Pará, que promete devolvê-los. Não atenteis somente para a linguagem dos dois Estados, um dos quais reconhece implicitamente ao outro o direito de guardar Carlos Gomes, pois que ele aí morreu, e o outro acha justo restituí-lo àquele onde ele viu a luz. Atentai, mais que tudo, para esse sentimento de unidade nacional, que a política pode alterar ou afrouxar, mas que a arte afirma e confirma, sem restrição de espécie alguma, sem desacordos, sem contrastes de opinião. A dor aqui é brasileira. Quando se fez a eleição do presidente da República, o Pará deu o voto a um filho seu, certo embora de que lhe não caberia o governo da União; divergiu de São Paulo. A república da arte é anterior às nossas constituições e superior às nossas competências. O que o Pará fez pelo ilustre paulista mostra a todos nós que há um só paraense e um só paulista, que é este Brasil.

Agora que ele é morto, em plena glória, acode-me aquela noite da primeira representação da Joana de Flandres, e a ovação que lhe fizeram os rapazes do tempo, acompanhados de alguns homens maduros, certamente, mas os principais eram rapazes, que são sempre os clarins do entusiasmo. Ia à frente de todos Salvador de Mendonça, que era o profeta daquele caipira de gênio. Vínhamos da Ópera Nacional, uma instituição que durou pouco e foi muito criticada, mas que, se mereceu acaso o que se disse dela, tudo haverá resgatado por haver aberto as portas ao jovem maestro de Campinas. Tinha uma subvenção à Ópera Nacional; dava-nos partituras italianas e zarzuelas, vertidas em português, e compunha-se de senhoras que não duvidavam passar da sociedade ao palco, para auxiliar aquela obra. Cantava o fundador, D. José Amat, cantava o Ribas, cantavam outros. Nem foi só Carlos Gomes que ali ensaiou os primeiros vôos; outros o fizeram também, ainda que só ele pôde dar o surto grande e arrojado...

Aí estou eu a repetir coisas que sabeis — uns por as haverdes lido, outros por vos lembrardes delas; mas é que há certas memórias que são como pedaços da gente, em que não podemos tocar sem algum gozo e dor, mistura de que se fazem saudades. Aquela noite acabou por uma aurora, que foi dar em outro dia, claro como o da véspera, ou mais claro talvez; e porque esse dia se fechou em noite, novamente se abriu em madrugada e sol, tudo com uma uniformidade de pasmar. Afinal tudo passa, e só a terra é firme: é um velho estribilho do Eclesiastes, de que os rapazes mofam, com muita razão, pois ninguém é rapaz senão para ler e viver o Cântico dos Cânticos, em que tudo é eterno. Também nós ríamos muito dos que então recordavam o tempo em que foram cavalos da Candiani, e riam então dos que falavam de outras festas do tempo de Pedro I. É assim que se vão soldando os anéis de um século.

Ao contrário, a história parece querer dessoldar alguns dos seus anéis e deitá-los ao mar — ao Mar Negro, se é certo o que nos anuncia o mesmo telégrafo, portador de boas e más novas. Não trato da deposição do sultão, conquanto o espetáculo deva ser interessante; eu, se dependesse de uma subscrição universal, daria meu óbolo para vê-lo realizado com todas as cerimônias, tal qual o Doente imaginário. A diferença entre a peça francesa e a peça turca é que o homem doente parece doente deveras, — semilouco, dizem os telegramas.

As deposições da nossa terra não digo que sejam chochas, mas são lúgubres de simplicidade. O teatro de Sergipe está agora alugado para esta espécie de mágicas; não há quinze dias deu espetáculo, e já anuncia (ao dizer do País) nova representação. As mágicas desse teatro pequeno, mas elegante, compõem-se em geral de duas partes — uma que é propriamente a deposição, outra que é a reposição. Poucos personagens: o deposto, o substituto, coros de amigos. Ao fundo, a cidade em festa. Este ceticismo de Aracaju, rasgando as luvas com aplausos a ambos os tenores, não revela da parte daquela capital a firmeza necessária de opinião. Tudo, porém, acharia compensação na majestade do espetáculo; infelizmente este é pobre e simples; meia dúzia de homens saem deuma porta, entram por outra, e está acabado. É uma empresa de poucos meios.

Que abismo entre Aracaju e Istambul! Que diferença entre as duas portas sergipenses e a Sublime Porta! Lá são as potências que depõem, presididas pelo pontífice do islamismo, tudo abençoado por Alá e por Maomé, que é o profeta de Alá. Nas ruas sangue, muito sangue derramado, sangue de ódio e de fanatismo. Ouvem-se rugidos da Ilha de Creta e da Macedônia. Na platéia o mundo inteiro. Mas o principal não é isso. O principal espetáculo, o espetáculo único é o desmembramento da Turquia, também notificado pelo telégrafo. Esse é que, se se fizer, dará a este século um ocaso muito parecido com a aurora. Os alfaiates levaram muito tempo a medir e cortar a bela fazenda turca para compor o terno que a civilização ocidental tem de vestir: e, porque as medidas políticas diferem das comuns, vê-lo-emos talvez brigar por dois centímetros. As tesouras brandidas; e, primeiro que se acomodem, haverá muito olho furado. O desfecho é previsto; alguém ficará com um pano de menos, mas a Turquia estará acabada, e a história terá dessoldado alguns elos que já andavam frouxos, se é que isto não é continuar a mesma cadeia.

Pode suceder que nada haja, assim como não voará o castelo do Balmoral, com a rainha Vitória e o czar Nicolau dentro. Esta outra comunicação telegráfica desde logo me pareceu fantástica; cheira a imaginação de repórter ou de chancelaria. Nem é crível que tal tragédia se represente às barbas da sombra Shakespeare, sem que este seja consultado quando menos para lhe pôr a poesia e os relatórios policiais não têm.

Enfim, melhor que atentados, deposições e desmembramentos, é a notícia que nos trouxe o telégrafo, ainda o telégrafo, sempre o telégrafo. Porfírio Díaz abriu o congresso mexicano, apresentando-lhe a mensagem em que anuncia a redução dos impostos. Estas duas palavras raramente andam juntas; saudemos tão doce consórcio. Só um amor verdadeiro as poderia unir. Que tenham muitos filhos é o meu mais ardente desejo.

27 de setembro

Não é preciso dizer que estamos na primavera; começou esta semana... Oh! bons tempos em que os da minha turma repetíamos aquilo do poeta: Primavera, giuventú dell’anno: giuventú, primavera della vita! Alguns iam ao ponto de repetir aquilo outro do lusitano: Ah! não me fujas! Assim nunca o breve tempo fuja da tua formosura! Vai tudo em linha de prosa, que é de prosa o meu tempo, não o teu, leitor de buço e vinte anos; donde resulta a mais trivial das verdades deste mundo, e provavelmente do outro, que o tempo é para cada um de nós o que cada um de nós é para ele. Nem todos terão aquele verdor nonagenário do visconde de Barbacena, que não sei se veio ao mundo no mesmo dia que Victor Hugo, dois anos depois de começado o século, mas em todo caso já então Rome remplaçait Sparte. Quem o vê andar, falar, recordar tudo, examinar, discernir, entrar e sair de um tramway, como os rapazes seus netos, põe de lado estações e idades, e crê que, em suma, tudo isto se reduz a nascer ou não com grande força e conservá-la.

Dizem as gentes européias que a primavera nas suas terras delas entra com muito maior efeito, quase de súbito, fazendo fugir o inverno diante de si. Entre nós, povo lido, a primavera entra pelos almanaques. Não lia almanaque, não lia folhinha, ainda as que servem só de mimo aos assinantes de jornais, que não traga a entrada da primavera no seu dia próprio, fixo e único. Já é alguma coisa; e quando a civilização chegar ao ponto de só dominar neste mundo o espírito do homem, mais valerá ter a primavera encadernada na estante que lá fora na campina, se é que ainda haverá campina. O natural é que os homens se vão estendendo, e as casas com eles, e as ruas e os teatros e as instituições, e todo o mais aparelho da vida social. A terra será pequena, a gente prolífica, a vida um salão, o mundo um gabinete de leitura.

Não te aflijas se a estação das flores não entra aqui como por outras partes; aqui é eterna. A terra vale o que ainda agora nos disse de Pernambuco o Sr. Studebaker, um dos membros da comissão americana, que há pouco nos deixou. A carta desse cavalheiro é um documento que devia estar diante dos olhos de cada um de nós; não dirá nada novo, mas é um testemunho pessoal e americano. Diz ela que nós podemos produzir tudo quanto nasce da terra... mas temos entre nós homens perniciosos, tornando-se necessário que os íntegros se dediquem à causa do bem. Creio em ambas as coisas; mas toda a nossa dificuldade vem de não sabermos exatamente quais são os perniciosos nem quais são os íntegros. Vimos ainda agora em Sergipe que os perniciosos são dois, o padre Campos e o padre Dantas, e que os íntegros não são outros. De onde resulta uma anistia em favor do padre Campos.

Também recomenda braços o nosso hóspede, braços e temor a Deus. O segundo é preocupação anglo-saxônia, que não entra fundo em almas latinas ou alatinadas. Quanto aos braços, era eu pequeno, e, apesar da vasta escravatura que havia, já se chorava por eles. Muitos tinham sido já chamados e fixados. Vieram depois mais e mais, até que vieram muitos e muitos. Os alemães enchiam o sul; os italianos estão chegando aos magotes, e se a última questão afrouxou um pouco a importação, não tarda que esta continue e a questão acabe. É o que se espera do ministro novo, Sr. De Martino. Que há já muito italiano, é verdade; mas esta raça é fácil de ser assimilada, e trabalha e prospera. Tive amigos que vinham dela, e tu também, e aí os há que não vêm de outra origem.

Agora mesmo ouço cantar um pássaro, e, se me não engano, canta italiano. Também os há que cantam alemão; Lulu Junior acha que a música desta segunda casta é melhor que a daquela. Eu creio que todos os pássaros são pássaros e todos os cantos são bonitos, contanto que não sejam feios. O que não quero é que se negue ao alemão o direito de ser cantado. A língua que ora ouço ao pássaro é, como digo, a italiana, e por pouco parece-me Carlos Gomes. Eis aí um que ligou bem os dois países, as duas histórias e já agora as duas saudades. Partiu ontem um vapor armado em guerra para conduzi-lo até cá. Viva o Pará, que rejeitou a idéia de o mandar em navio mercante, e pôs por condição que ou viria com todas as honras da Arte e da Morte, ou ficaria lá com ele. Não ficaria mal à beira do Amazonas o cantor do nosso Brasil, nem o Pará merece menos que qualquer outra parte; ao contrário, a terra que serviu de berço a Carlos Gomes não teve para ele mais carinhos que essa que lhe serviu de leito mortuário, e, em todo caso, teve-os na prosperidade. Dá-los à dor é maior.

Estávamos... Creio que estávamos nos braços italianos, não os que amam e fazem amar, mas os que lavram a terra; foram eles que me trouxeram aqui, a propósito do industrial americano, que lá vai. Tem-se dito que há muita aglomeração italiana em S. Paulo, o mesmo que se havia dito em relação aos alemães nas colônias do Sul. Há destas onde a língua do país não é falada nem ensinada, nem sabida, ou mal sabida por alguns rudimentos escassos que os próprios mestres alemães dão aos seus meninos, a fim de que de todo em todo não ignorem o meio de pedir fogo a alguém ou bradar por socorro. A culpa não é deles, mas nossa; e, se tal sucede em S Paulo, a culpa é de S. Paulo.

Há tempos falou-se no mal das grandes aglomerações de uma só raça. Seja-me lícito citar um nome que os acontecimentos levaram, como levam outras coisas mais que nomes, o de Rodrigo Silva, que foi aqui ministro da agricultura. Este ministro tinha por muito recomendado aos encarregados da colonização que intercalassem as raças, não só umas com as outras, mas todas com a do país, a fim de impedir o predomínio exclusivo de nenhuma. Circulares que o vento leva; a política era boa e fácil e dava ganho a todos, aos de fora como aos de dentro. Mas as circulares são como as ilusões; verdejam algum tempo, amarelecem e caem logo; depois vêm outras...

Deixemos, porém, essa matéria mais de artigo de fundo que de crônica, e tornemos ao céu azul, ao sol claro, à temperatura fresca. Não há desfalque pequeno nem grande que resista ao efeito da bela catadura da natureza. Que vale um desfalque ao pé da saúde, que é a vida integral, a perfeita contabilidade humana? Depois, a saúde sente-se igualmente, não há duas opiniões sobre ela; o desfalque, sem negar que é alguma coisa que falta (geralmente dinheiro), não há dúvida que é idéia filha da civilização, e a civilização, como dizia um filósofo amador do meu tempo, é sinônimo de corrupção. E há sempre duas opiniões sobre

o desfalque, — a do desfalcado e a outra.

Que haja falta de dinheiro em alguma parte, é natural. Esta coisa que uns americanos querem deva ter por padrão tão somente o ouro, outros a prata igualmente, ainda se não acostumou tanto aos homens que não se esconda deles algumas vezes, e não desapareça como as simples bolas nas mãos de um prestidigitador. Dinheiro por ser dinheiro não deixa de ter vergonha; o pudor comunica-se das mãos à moeda, e o gesto mais certo do pudor é fugir aos olhos estranhos, — ou, pelo menos às mãos, como na ilha dos Amores. Daí os desfalques; fica só o algarismo escrito, a moeda esvai-se; tais as ninfas da ilha correm nuas:

................. aos olhos dando O que às mãos cobiçosas vão negando.

Não importa; os que teimarem hão de acabar como o cavaleiro do poeta, que afinal pôde deitar os braços a uma das ninfas esquivas. E depois, ainda que não se alcance nenhuma, a terra é fértil, a população grande, e a gente nova aí vem com os seus braços para trabalhar e colher, não menos que para amar e engendrar. Tudo aqui é calor de primavera; a América, bem considerada, é a primavera da história. Há uma diferença entre esta e a do norte, é que por ora não brigamos por ouro ou prata, Bryan ou Mac-Kinley; o papel nos basta e sobra.

4 de outubro

Enquanto eu cuido da semana, São Paulo cuida dos séculos, que é mais alguma coisa. Comemora-se ali a figura de José de Anchieta, tendo já havido três discursos, dos quais dois foram impressos, e em boa hora impressos; honram os nomes da Eduardo Prado e de Brasílio Machado, que honraram por sua palavra elevada e forte ao pobre e grande missionário jesuíta. A comemoração parece que continua. O frade merece-a de sobra. A crônica dera-lhe as suas páginas. Um poeta de viva imaginação e grande estro, o autor do “Cântico do Calvário”, pegou um dia da figura dele e meteu-a num poema. Agora é a apoteose da palavra e da crítica. Uma feição caracteriza estas homenagens, é a neutralidade. Ao pé de monarquistas há republicanos, e à frente destes vimos agora o presidente do Estado. Dizem que este soltara algumas palavras de entusiasmo paulista por ocasião da última conferência. De fato, uma terra em que as opiniões do dia podem apertar as mãos por cima de uma grande memória é digna e capaz de olhar para o futuro, como o é de olhar para o passado. A faculdade de ver alto e longe não é comum.

É doce contemplar de novo uma grande figura. Aquele jesuíta, companheiro de Nóbrega e Leonardo Nunes, está preso indissoluvelmente à história destas partes. A imaginação gosta de vê-lo, a três séculos de distância, escrevendo na areia da praia os versos do poema da Virgem Maria, por um voto em defesa da castidade, e confiando-os um a um à impressão da memória. A piedade ama os seus atos de piedade. É preciso remontar às cabeceiras da nossa história para ver bem que nenhum prêmio imediato e terreno se oferecia àquele homem e seus companheiros. Cuidavam só de espalhar a palavra cristã e civilizar bárbaros; para isso era tudo Anchieta, além de missionário. A habitação dele e dos outros era o que ele mesmo escrevia a Loiola, em agosto de 1554: “E aqui estamos, às vezes mais de vinte dos nossos, numa barraquinha de caniço e barro, coberta de palha, catorze pés de comprimento, dez de largura. É isto a escola, é a enfermaria, o dormitório, refeitório, cozinha, despensa”.

Justo seria que alguma coisa lembrasse aqui, entre nós, a nome de Anchieta, — uma rua, se não há mais. A nossa Intendência Municipal acaba de decretar que não se dêem nomes de gente viva às ruas, salvo “quando as pessoas se recomendarem ao reconhecimento e admiração pública por serviços relevantes prestados à pátria ou ao município, na paz ou na guerra”. Anchieta está morto e bem morto; é caso de lhe dar a homenagem que tão facilmente se distribui a homens que nem sequer estão doentes, e mal se podem dizer maduros; tanto mais quando o presidente do Conselho Municipal não é só brasileiro, é também paulista e bom paulista. Certo, nós amamos as celebridades de um dia, que se vão com o sol, e as reputações de uma rua que acabou ao dobrar da esquina. Vá que brilhem; os vaga-lumes não são menos poéticos por serem menos duradouros; com pouco fazem de estrelas. Tudo serve para nos cortejarmos uns aos outros.

A própria lei municipal tem uma porta aberta aos obséquios particulares. Nem sempre a vontade do legislador estará presente, e as leis corrompem-se com os anos. Quando o atual conselho desaparecer, lá virá alguém que, por haver inventado um chapéu elástico, uma barbatana espiritual ou, finalmente, outro jataí que ajude a limpar os brônquios e as algibeiras, — tenha ocasião de ver pintado o seu nome na esquina da rua em que mora, e, se morar longe, em outra qualquer. É o anúncio gratuito, o troco miúdo da glória. E não há de ser escasso prazer, antes largo e demorado, ler na esquina de uma rua o próprio nome. Não haverá conversação de bond ou a pé que faça esquecer a placa; por mais atenção que mereça o interlocutor, seja um homem ou uma senhora, — os olhos do beneficiado cumprimentarão de esguelha as letras do benefício. Alguma vez passearão pelas caras dos outros, a ver se também olham. Os crimes que se derem na rua, os incêndios, os desastres serão outras tantas ocasiões de reler o nome impresso e reimpresso; assim também as casas de negócio, os anúncios de criados, o obituário e o resto. Enfim, o uso positivista de datar os escritos da rua em que o autor mora, uma vez generalizado, ajudará a derramar a boa notícia da nossa fama.

Nem por isso deixarão de falir os que tiverem de falir, se forem negociantes; não há nome de esquina que pague um crédito. Este momento, se é certo o que corre, ameaça de ponto final a muita gente. Dizem que há numerosas petições de falência. Se serão atendidas é o que não se sabe, porque o deferimento pode trazer a dissolução geral de todos os vínculos pecuniários. E quando os que vendem quebram, imaginai os que compram. Estes deviam rigorosamente matar-se, imitando a gente do Japão, onde os suicídios são em maior número quando o arroz está caro, e em menor quando está barato. Arroz ou morte! é o grito daquela nação. Nós, para quem tudo é caro, desde a sopa até a sobremesa, vivemos a ver em que param os preços, — os preços ou os bichos.

Entretanto, ao passo que os negociantes do Rio de Janeiro pedem crédito, não o acham e querem fechar as portas, o presidente do Espírito Santo deseja que lhe diminuam a faculdade de abrir créditos.

Em conseqüência das razões que acabo de apresentar-vos (diz o Dr. Graciano das Neves em sua recente mensagem) dou prova da maior lealdade, Srs. Deputados, pedindo-vos que voteis na presente sessão alguma disposição de lei que restrinja com prudência a faculdade que tem o presidente de abrir créditos suplementares às verbas orçadas pelo congresso. Eu, que aprendi o que era bill de indenidade no capítulo da abertura de créditos, mal posso crer no que leio. Um presidente de Estado que, tendo a faculdade de abrir créditos, e podendo não os abrir, pede que lhe atem as mãos, dá mostra que é ainda mais psicólogo que presidente. É como se dissesse que as boas intenções do dia 15 podem não ser as mesmas do dia 16 e 17, e o melhor é não fiar na vontade. Não sei se o caso é único; falta-me tempo de compulsar as mensagens de ambos os mundos, mas com certeza não é comum nem velho.

Não é velho, mas tende a ser comum o uso delicado de concluírem os jurados as sessões, ordinárias ou extraordinárias, deixando nas mãos do presidente e do promotor uma lembrança. A penúltima trazia como razão a polidez dos magistrados. A última, que foi anteontem, não alegou tal motivo, para tirar ao ato qualquer aspecto de gratidão. O presidente teve duas estatuetas de bronze, e o promotor uma rica bengala. Não é pouco ir julgar os pares, obrigatoriamente, com perda ou sem perda dos próprios interesses; a lembrança, porém, realça o serviço público. A prova de que a instituição do júri está arraigada na nossa alma e costumes é essa necessidade moral que têm os juízes de fato de se fazerem lembrados dos magistrados, a quem a sociedade confia a punição dos delinqüentes. Resta que os magistrados, por sua vez, dêem alguma lembrança aos cidadãos, e que estes saiam com botões de punho novos ou carteiras de couro da Rússia. São prendas baratas e significativas.

11 de outubro

Czarina, se estas linhas chegarem às tuas mãos, não faças como Victor Hugo, que, recebendo um folheto de Lisboa, respondeu ao autor: “Não sei português, mas com o auxílio do latim e do espanhol, vou lendo o vosso livro...” Não, nem peço que me respondas. Manda traduzi-las na língua de Gogol, que dizem ser tão rica e tão sonora, e em seguida lê. Verás que o beijo que te depositou na mão, em Cherburgo, o presidente da República Francesa, foi aqui objeto de algum debate.

Uns acharam que, para republicano, o ato foi vilania; outros que, para francês, foi galantaria. Uma princesa! Uma senhora! E daí uma conversação longa em que se disseram coisas agressivas e defensivas. Eu, pouco dado a rusgas, limitei-me a pensar comigo que a galantaria não deve ficar sendo um costume somente das cortes. A democracia pode muito bem acomodar-se com a graça; nem consta que Lafayette, marquês do antigo regímen, tivesse deitado a cortesia ao mar quando foi colaborar com Washington.

Olha, czarina, houve tempo em que nessa mesma França, cujo chefe te beijou agora a mão, se fazia grande cabedal de tratar por tu aos outros, para continuar Robespierre e os seus terríveis companheiros. Então um poeta falou em verso, como é uso deles, e concluiu por este, que faz casar a política e as maneiras: Appellons-nous MONSIEUR et soyons CITOYEN. Nós, para não ir mais longe, fizemos a República, sem deportar a excelência das Câmaras. Era costume antigo, não do regímen deposto, mas da sociedade. A excelência veio da mãe-pátria, onde parece que se generalizou ainda mais, não se tratando lá ninguém por outra maneira. Aqui, quando ainda não há familiaridade bastante para o tu e o você, e já a excelência é demasiado cerimoniosa, ficamos no senhor, é um modo indireto; em Portugal, nos casos, apertados, empregam o amigo, que é ainda mais indireto. Tudo para fugir aos vós dos nossos maiores, e que entre nós é a fórmula oficial da correspondência escrita. Em verdade, se o regimento das nossas câmaras tivesse obrigado o tratamento de vós na tribuna, como na correspondência oficial, antes de infringirmos o regimento, teríamos infringido a gramática. É duro de meter na oração a flexão vos do pronome. Tenho visto casos em que a pessoa para desfazer-se logo dela, começa por ela: Vos declaro, Vos comunico, Vos peço. Nem é por outra razão, czarina, que eu te trato por tu, como se faz em poesia.

Voltando ao beijo, admito que há coisas que só podem ser bem entendidas no próprio lugar. Julgadas de longe levam muita vez ao erro. Tu, por exemplo, se lesses a moção da Câmara Municipal do Rio Claro, São Paulo, protestando contra o presidente do Estado, que não a recebeu quando ele ali foi ver a mãe enferma, pode ser que a entendesses mal. A moção aceitou o ato como uma injúria ofensiva e direta ao município, ao povo, a todo o partido republicano, e mandou publicar o protesto e comunicá-lo por cópia a todas as Câmaras Municipais do Estado, ao presidente da República, aos presidentes dos congressos federal e estadual e ao diretório central do partido.

Aparentemente é uma tempestade num copo d’água; mas a moção alega que há da parte do presidente contra o município sentimento de hostilidade já muitas vezes manifestado. Assim sendo, explica-se a recusa do presidente em recebê-la, mas não se explica o ato da Câmara em visitá-lo. Não se devem fazer visitas a desafetos; o menos que acontece é não achá-los em casa. Quando, porém, a Câmara, esquecendo ressentimentos legítimos, quisesse levar o ramo de oliveira ao chefe do Estado, em benefício comum, se esse não aceitasse as pazes, o melhor seria calar e sair. A divulgação do caso à cidade e ao mundo e a ameaça de pronta repulsa faz recear um estado de guerra, quando todos os municípios desejam concórdia a sossego. Há já tantas questões graves, sem contar econômica e a financeira, que a questão do Rio Claro bem podia não ter nascido, ou ficar no “tapete da discussão” como se usa no parlamento.

Disse que entenderias mal a moção; emendo-me, não entenderias absolutamente, pois nunca jamais uma Câmara Municipal russa falaria daquele modo. A Câmara do Rio Claro, se fosse moscovita, ou voltaria a visitar o czar, quando ele estivesse em casa, ou far-se-ia niilista. Donde podes concluir a vantagem das moções, e a razão do uso imoderado que fazemos delas: é uma válvula. Enquanto a gente propõe moções não trama conspirações, e estas duas palavras que rimam no papel não rimam na política.

O que é curioso é que nós, que não fazemos política, estejamos ocupados, eu em falar dela, tu em ouvi-la. O melhor é acabar e dizer-te adeus. Adeus, czarina; se cá vieres um dia de visita, pode ser que não aches as ruas limpas, mas os corações estarão limpíssimos. O presidente da República, se não for algum dos que censuraram agora o Sr. Faure, beijar-te-á a mão, sem perder o aprumo da liberdade. A Companhia Ferro Carril do Jardim Botânico oferecer-te-á um bond especial para percorreres as suas linhas, com as tuas damas e escudeiros. Esta companhia completou anteontem vinte e oito anos de existência. Ainda me recordo da experiência dos carros na véspera da inauguração. Ninguém vira nunca semelhantes veículos. Toda gente correu a eles, e a linha, aberta até o Largo do Machado, continuou apressadamente aos seus limites. Nos primeiros dias os carros eram fechados; apareceram abertos para os fumantes, mas dentro de pouco estavam estes sós em campo; as senhoras preferiram ir entre dois charutos, a ir cara a cara com pessoas que não fumassem. Outras companhias vieram a servir outros bairros. Ônibus e diligências foram aposentados nas cocheiras e vendidos para o fogo. Que mudança em vinte e oito anos!

Uma coisa não entenderás, ainda que a transfiram à língua de Gogol, são os dois avisos postos pela Companhia do Jardim Botânico em um ou mais dos seus carros. Também eu não as entendi logo; mas, por obtuso que um homem seja, desde que teime, decifra as mais escuras charadas deste mundo. Por que não sucederá o mesmo a uma senhora? Manda traduzir já e vê.

O primeiro aviso é este: A assinatura evita o engano nos trocos. Compreende-se logo que a assinatura é a dos bilhetes de passagem. Quer dizer que, comprando-se uma coleção de bilhetes, em vez de pagar com dinheiro cada vez que se entra no carro, não se perde nada nos trocos que dão os condutores; logo, os condutores enganam-se; logo, há um melhor meio que reprimir os condutores ou despedi-los, como se faz nas casas comerciais e nos bancos, é vender coleções de bilhetes impressos. Nem se tira o pão a distraídos, nem se alivia o triste passageiro de uma parte do bilhete de dez ou mais tostões.

O segundo aviso é uma pequena alteração do primeiro, e diz assim: A assinatura evita o esquecimento nos trocos. Se aqui vem esquecimento em vez de engano, é que o passageiro em muitos casos perde o dinheiro, não já em parte, mas totalmente, por aquela outra causa mais grave. Não só o esquecimento é provável, mas até pode ser certo e constante, se o condutor padecer de moléstia que oblitere a memória, e não há meio de evitar que este fique com o resto do dinheiro senão oferecendo a companhia os seus bilhetes de assinatura. Outrossim,

o passageiro passa a ser o melhor fiscal da companhia, e o seu ordenado é que deixa de ficar, por engano ou esquecimento, na algibeira do condutor. Tais me parecem ser os dois avisos; mas, se me disserem que eles contêm uma profecia relativa aos destinos da Turquia, não recuso a explicação. Tudo é possível em matéria de epigrafia. Adeus, czarina!

18 de outubro

Não se diga que a febre amarela tem medo ao saneamento; mais depressa o saneamento terá medo à febre amarela. Em vez de o temer, pôs a ponta da orelha de fora esta semana, e se a tinha posto antes, não sei; eu não sou leitor assíduo de estatísticas. Não nego o que valem as lições que dão, e a necessidade que há delas para conhecer a vida e a economia dos Estados; mas entre negar e adorar há um meio termo, que é a religião de muita gente.

A ponta da orelha que eu vi, foi um caso único do dia 15, publicado ontem, 17. Não tem valor, comparado naturalmente a outras doenças; mal tal é a má fama daquela perversa, que um só óbito basta para assustar mais que um obituário inteiro de várias enfermidades, ou até de uma só. O vulgo não reflete que, bem observadas as coisas, ela nunca saiu daqui; uns anos cochila e cabeceia, outros dorme a sono solto, e, se acorda, é para esfregar os olhos e tornar a dormir; há, porém, os anos de vigília pura, em que não faz mais que entrar pelas casas alheias e obrigar a gente a dançar uma valsa triste, muitas vezes a última.

Desta vez pode ser, e é bom esperar que seja uma espécie de memento, para que as vítimas possíveis se acautelem do mal, indo vê-lo de longe. Também pode não passar disto, um caso em outubro, dois em novembro, três e quatro em outros meses, até acabar o verão. Querem, porém, alguns que, pouca ou muita, enquanto a tivermos em casa, não há relatórios que a matem. As mais hábeis comissões não lhe tiram a alma. Há quem lhe tenha ouvido dizer: — Podem citar para aí os autores que quiserem, combater ou apoiar as opiniões todas deste mundo e do outro, enquanto não passarem da biblioteca à rua e da palavra à ação, é o mesmo que se dormissem. Ora, a ação de entestar com o mal, atacá-lo e vencê-lo, por meio de um trabalho longo, constante, forte e sistemático, é tão comprida que faz doer o espírito antes de cansar o braço, e é preciso tê-los ambos de ferro. Se a agregada nossa confia nisso, é mister que perca a fé.

Nada do que fica aí é novo; a febre é velha, velhas as lástimas, velhíssimos os esforços para destruir o mal, e têm a mesma idade os adiamentos de tais esforços. Quando aqui apareceu o cólera, há muitos anos, — não por ocasião do ministro Mamoré, que o mandou embora, — falo da primeira vez, o destroço foi terrível, e a doença teria feito a lei da abolição por um o processo radical, se não fosse o judeu errante que é que não para nunca, e tão depressa entra como sai. A amarela é caseira, gosta de cômodos próprios e não exige que sejam limpos nem largos; a questão é que a deixem ficar. Uma vez que a deixem ficar, podem discuti-la, examiná-la, revirá-la, redigir relatórios sobre relatórios, oficiar, inquirir, citar; words, words, words, diz ela para também citar alguma coisa. E não saindo de Hamlet: “Se o sol pode fazer nascer bichos em cachorro morto”... Não serão cães mortos que lhe faltem. Quanto ao lençol de água, vê-lo-emos feito um formidável lençol de papel. Papers, papers, papers.

Os italianos não crêem no mal. Assim o dizem as estatísticas, em que eu, como acima confessei, piamente, acredito sem as freqüentar muito. Portugueses e alemães vem depois deles, muito abaixo, e ainda mais abaixo franceses, russos, belgas, ingleses e outros. Quem crê deveras na febre é o chim; no ano passado não entrou nenhum, dizem as estatísticas; mas por que notam elas esta ausência do chim, e não citam a do abexim? Eis aí um mistério, que não será o primeiro nem o último das estatísticas. Conquanto um artigo de folha genovesa diga que a colônia italiana acabará por absorver a nacionalidade brasileira, eu não dou fé a tais prognósticos; mas quando italianos nos absorvessem, seriam outros, não seriam já os mesmos. Há aí na praça um napolitano grave, influente, girando com capitais grossos, velho como os italianos velhos, que orçam todos pela dura velhice de Crispi e de Farani. Pois esse homem vi-o eu muita vez tocar realejo na rua, simples napolitano, recebendo no chapéu o que então se pagava, que era um reles vintém ou dois. Tinha eu sete para oito anos; façam a conta. Vão perguntar-lhe agora se quer ser outra coisa mais que brasileiro, se não da gema, ao menos da clara.

A propósito de realejo napolitano, li que em uma das levas de Genova para cá veio como agricultor um barítono. Ele, e um mestre de música; perguntando-se-lhes o que vinham fazer ao Brasil, parece que responderam ser este país grande e cá enriquecerem todos: “Por que não enriqueceremos nós?” concluíram. Não há que censurar. A voz pode levar tão longe como a manivela. Demais, a terra é de música e a música é de todas as artes aquela que mais nos fala à alma nacional. Um barítono, com boa voz e arte castigada, pode muito bem enriquecer, — ou, pelo menos, viver à larga. Tanto ou mais ainda um tenor e um soprano. Nem só de café vive o homem, mas também da palavra de Verdi e de Carlos Gomes.

Dado, porém, que vivamos só de café, e não devamos cuidar de mais nada que de cultivar esta preciosa rubiácea, ainda assim o barítono pode muito bem ser aceito e colocado. A fábula reza de Orfeu, que levava os animais com a simples lira que os gregos lhe deram. Por que não há de fazer a voz humana a mesma coisa às plantas? A semente lançada à terra escutará as melodias e porá o grelo de fora; com elas crescerá o talo, bracejarão as flores e abotoarão os grãos, que mais tarde havemos de exportar e de beber também.

Seja milagre, mas é natural que a terra de Carlos Gomes neste particular faz milagres. O Rio de Janeiro recebeu os restos do nosso maestro com as honras merecidas. S. Paulo vai guardá-lo como um dos mais célebres de seus filhos. O Pará, que o viu morrer, aqui o mandou, depois das mais vivas provas de que a unidade nacional existe.

Anteontem, fui ao arsenal de guerra ver sair o féretro do autor do Guarani e da Fosca, para ser conduzido à igreja de S. Francisco de Paula e ouvi a marcha fúnebre de Chopin que a banda militar tocava; não pude deixar de recordar os longos anos passados, quando o préstito era outro, e saía de outro lugar, — o teatro Provisório que lá vai — e descia pela rua da Constituição. Era de noite; o maestro tinha estreado, sem Itália nem Guarani mas eram tais as esperanças dadas, e tão jovens e ardentes éramos todos os que por ali íamos aclamando a estrela nascente. A música era a dos nossos peitos, podeis adivinhar se fúnebre ou festiva. Perguntai aos ecos da praça Tiradentes, — naquele tempo Constituição e vulgarmente Rocio Grande, — perguntai o que eles ouviram, e se são ecos fiéis dirão coisas belas e fortes. O meu querido Salvador que ia à testa da legião recordá-las-á com saudade, quando ler a notícia das honras últimas aqui dadas ao maestro de Campinas.

Realmente, a diferença foi grande; uma vida inteira enchia o espaço decorrido entre as duas datas, e as melodias de Gomes estavam agora na memória de todos. Muitos que as repetiam consigo não eram ainda nascidos por aquele tempo; os que eram moços, como esses são agora, viram branquear os cabelos e entraram no préstito com a alma igualmente encanecida; a evocação do pretérito os terá remoçado. Outros, enfim, nem moços nem velhos, ali não compareceram, por terem sido eliminados antes. Não falo dos que estão ainda em gérmen, e repetirão mais tarde as composições de Gomes. A matéria é ótima para uma dissertação longa; o lugar é que o não é, nem o dia.

Fiquemos aqui; ou antes, voltemos à Itália e aos seus cantores. Que venham, eles, barítonos e tenores, e nos trarão, além da música que este povo ama sobre todas as coisas, as próprias melodias do nosso maestro, e assim incluiremos um artigo no acordo que ela está celebrando com o governo brasileiro, porventura mais vivo e não disputado. Também ela amou a Carlos Gomes, não por patriotismo, que não era caso disso, mas por arte pura.

25 de outubro

Li que o pescado que comemos é morto a dinamite, e que há uma lei municipal que veda este processo. Se o processo é bom ou mau, justo é examiná-lo, mas não me argumentem com leis. Já é tempo de acabar com este respeito fedorento das leis, superstição sem poesia, costume sem graça, velho sapato que deforma o pé sem melhorar a andadura. A troça, que tem conseguido tanta coisa, não chegou a matar este vício. O assobio, tão eficaz contra os homens, não tem igual força contra as leis que eles fazem. Ora, que são as leis mais que os homens para que nos afrontem com elas?

Não contesto a vantagem de as fazer e guardar. É um ofício, antes de tudo; melhor dito, são dois ofícios. A utilidade das leis escritas está em regular os atos humanos e as relações sociais, uma vez que vão de acordo com eles. Em chegando o desacordo, há dois modos de as revogar ou emendar, a saber, por atos individuais ou por adoção de leis novas. No capítulo do divórcio, por exemplo, não existindo pretoria que case um homem já casado, o remédio para obtê-lo e decretá-lo. É claro que se algum pretor, contra o disposto na lei, casasse a todos os casados, ninguém se cansaria em reclamar a reforma. Resta aos partidos convencidos da necessidade dela continuar a propaganda até pô-la na lei.

Tal não se dá no mar. A pesca é livre; regulada embora, não são tais as disposições da lei que exijam a presença de um agente público. O pescador está só; o fiscal, se o há, está em casa; a dinamite lançada ao mar não acha obstáculo, nem no mar nem na terra. Que impedirá o pescador? A lembrança de um decreto municipal, — ou postura, como se dizia pela língua do antigo vereador? Francamente, é exigir uma força de abstração excessiva da parte de um homem que tem os cinco sentidos no lucro. Os incorporadores do encilhamento, — pescadores de homens, — também tinham os sentidos todos no lucro, e daí algumas infrações das leis escritas, que não foram nem deviam ser castigadas. Cabe notar que aí nem se podia alegar o que dizem do peixe, que despovoa as águas; nunca faltou peixe às águas da rua da Alfândega.

Os contratos, que formam lei entre duas partes, são alterados por ambas desde que uma não reclame a execução por parte da outra; tais esquecimentos não valem nem podem valer como se foram delitos. Não me acode exemplo pertinente ao caso; vá o da escola que a Companhia ferro-carril da Carioca tinha que dar e não deu, segundo também li na imprensa. Aí não se pode dizer que há infração porque a outra parte contratante não exigiu a execução da cláusula; é o mesmo que se consentisse em riscá-la do papel, não faltando mais que o gesto da pena. Mas um gesto, simples ato da mão, dá mais força à vontade, ato do espírito? Não nos estejamos a perder com burocracias. Não exijamos maior ardor de uma parte em dar que da outra em receber. Nem esqueçamos que o desuso de uma cláusula acaba matando a cláusula.

Outrossim, se a lei pode valer pelo uso que se lhe der, é também certo que o simples uso faz lei. Começa-se por um abuso, espécie de erva que alastra depressa, correndo chão e arvoredo; depois, ou porque a força do homem corte algumas excrescências, ou porque a vista se haja acostumado,

On s’habitue au mal que l’on voit sans remède,

o abuso passa a uso natural e legítimo, até que fica lei de ferro. Quando alguém quer arrancar a má erva do terreno é como se ameaçasse levar o dinheiro dos outros. Tal é, se entendo o que leio, o caso da lotação dos carros elétricos da Companhia do Jardim Botânico.

A prefeitura intimou a Companhia a não admitir cinco pessoas nos carros elétricos, mas só quatro, visto não haver ato aprovando a lotação de cinco. Creio que é isto. A Companhia, no conflito entre o uso e a ordem, começou por dizer que aquele era lei, e não cumpria outra. Em verdade, posto que entrasse aqui o interesse direto do povo, força é confessar que não há interesse que valha um princípio, e o princípio e dar ao uso o caráter legal que lhe cabe. A lei escrita pode ser obra de uma ilusão, de um capricho, de um momento de pressa, ou qualquer outra causa menos ponderável; o uso, por isso mesmo que tem o consenso diuturno de todos, exprime a alma universal dos homens e das coisas. A sabedoria dos tempos tem cristalizado esta verdade de vários modos. — “Quem cala, consente”. — “O uso do cachimbo faz a boca torta”. Esta segunda fórmula é mais enérgica e expressiva, porquanto as bocas nascem direitas, e se o uso do cachimbo tem tal força que as faz tortas, e que vale por si muito mais que a ação da natureza.

Não atendeu a isto a prefeitura, e recorreu à autoridade judiciária; mas a Companhia, seguindo o exemplo da pesca a dinamite, recusou cumprir a nova ordem, no que fez muito bem. Já estou cansado de tanto juiz em Berlim. Algemas, ainda que as doure o nome de ordens legais, sempre são vínculos de escravidão, a primeira liberdade e da alma. A Gazeta de Notícias foi que deu esta notícia, acompanhada de reflexões com que absolutamente não concordo.

Uma só coisa podia levar a Companhia à obediência, era o procedimento do passageiros. Caso eles dessem apoio às ordens judiciárias e prefeiturais, recusando ir cinco por banco, faltava à Companhia o argumento do uso e do consenso, e eu tal hipótese melhor seria ceder que resistir. Foi justamente o que aconteceu. Raro passageiro consentiu em fazer de quinto nos bancos. A generalidade deles recusou, ia nos estribos e na plataforma, ou esperava outro carro. Ora, desde que o povo, em favor de quem a Companhia decretara a lotação de cinco, abre mão deste benefício, a Companhia não só perde o fundamento da aquiescência pública, mas ainda qualquer lucro pecuniário. Não tinha mais que cumprir a ordem e foi o que fez ontem

Não fez só isto: li que vai pedir alguma compensação à prefeitura. A compensação é justa. Não será o aumento do preço da passagem; por mais barata que esta seja, a ocasião do aumento seria imprópria, já porque o ato inicial da autoridade ficaria reduzido a uma porta aberta à alteração do contrato em sentido oposto às algibeiras dos contribuintes, já porque há pouco dinheiro em circulação. Uma espera de três ou quatro anos pode fazer dessa alteração do contrato uma realidade útil e benéfica. Nem faltam compensações imediatas desde o simples título honorífico, — federal, por exemplo, — Companhia Federal Ferro Carril, etc. até qualquer privilégio que me não ocorre agora, mas que há de haver.

Não concluam que é o espírito de anarquia que me move a pena. Fácil coisa é taxar de anarquia tudo o que destoa de velhas manhas. Eu o que quero é que a lei sirva o necessário para conjugar os interesses humanos, que são a base da harmonia social. Mas isto mesmo exclui a superstição.

1º de novembro

O pão londrino está tão caro como a nossa carne, e na Inglaterra não falta ouro, ao que parece. Em compensação, se o pão dobrou de preço, os nossos títulos baixaram mais, como se houvéssemos de pagar a diferença do valor do trigo. Tudo afinal cai nas costas do pobre: digo pobre, não porque não sejamos ricos de sobejo, mas é que a riqueza parada é como a idéia que o alfaiate de Heine achava numa sobrecasaca: o principal é aventá-la e pô-la em ação. Entretanto, não sendo verdade que o mal de muitos seja consolo, como quer o adágio, importa-nos pouco ou nada que o pão custe caro em Londres, se nos falta, além da carne, o ouro com que mercá-la.

Se o mal dos outros não nos consola, é certo que a lembrança do bem dá certa alma nova. Nestes dias de escasso dinheiro é doce reler aquele discurso que o dr. Ubaldino do Amaral proferiu no senado, no mês de agosto de 1892. S. Ex. analisou o projeto de um banco emissor, no qual havia este artigo: “Fica o banco autorizado antecipadamente a fazer uma emissão de trezentos mil contos de réis”. Escrevi por extenso a quantia, para que não escape algum erro; mas, como a fileira dos algarismos dá mais na vista, aqui vai ela: 300.000:000$000. É um regimento; o 3, bem observado, parece o coronel; o cifrão é o porta-bandeira. Valha-me Deus! creio até que ouço a marcha dos algarismos; leiam com ritmo: trezentos mil contos, trezentos mil contos, trezentos mil contos...

É verdade que o senado, ouvindo a revelação do senador, exclamou espantado: Santo Deus! O que não está claro é qual haja sido o sentimento da exclamação. Assombro, de certo; mas vinha ela da imensidade da quantia, não obstante andarmos, o senado e eu, afogados em milhões, ou era antes uma expressão de escárnio por achar escassa a emissão antecipada. Trezentos mil contos! Mas quem é que por aqueles tempos não tinha trezentos mil contos? Se os não tinha, devia-os a alguém, que era a mesma coisa. Nem sei se era ainda melhor devê-los que possuí-los.

Não me lembro bem agora do preço da carne e do pão; mas, qualquer que fosse, como o dinheiro era infinitamente maior, não havia que gemer nem suspirar, era só comer e digerir. Essas notas de bancos emissores, que por aí andam surradas, rasgadas, emendadas, concertadas com pedacinhos de papel branco, estavam na flor dos anos, novinhas em folha, com as letras ainda úmidas do prelo. Vi-as chegar, catitas e alegres, como donzelas que vão ao baile para dançar, e dançaram que foi um delírio. Eram valsas, polcas, quadrilhas de toda casta, francesas, americanas, de salteadores, toda a coreografia moderna e antiga.

Segundo aquela chapa que as gazetas trazem já composta para concluir as notícias de festas, “as danças prolongaram-se até o amanhecer”. As belas emissões foram dormir cansadas, sonhando com ouro, muito ouro.

Recordar tudo isso com este câmbio a 8 e menos de 8, que uns acham natural, outros postiço, não se pode dizer que não seja agradável. A memória revive o espetáculo. Nem foi há tanto tempo que não ouçamos ainda os ecos da orquestra e o rumor dos passos... Os espetáculos remotos dão o mesmo efeito, mas a tristeza cede ainda mais a doçura, e a alma transporta-se quase integralmente aos tempos acabados. Quero referir-me a narração que a Notícia está fazendo de coisas antigas, não sei se por um, se por muitos colaboradores, mas muitos que sejam, é certo que são todos homens maduros, se já não caíram do pé.

Conta aquela folha as águas passadas desta cidade, com tal minudência, que parece estar vendo-as. Quando eu era pequeno, conheci homens de certa idade que, por tradição falavam das águas do monte, dilúvio que aqui houve no tempo de João VI; afinal ninguém mais falou nelas, e foi um alívio para aqueles outros mais velhos, que seriam pequenos quando elas caíram. A cantiga popular ainda se conservou por anos; mas a cantiga seguiu o exemplo das águas, e foi atrás delas. As que a Notícia revive nos últimos dias são as da primeira imprensa periódica e as do finado Alcazar.

Aquelas não são comigo, não conheci essa multidão de gazetas e gazetinhas, cujos títulos hão de interessar os Taines do próximo século. Dão eles a nota dos costumes e da polêmica. Quanto ao número, quase que era uma folha para cada rua. Toda a gente sentia necessidade de dizer coisas aborrecíveis ou agudas, divulgar alcunhas e mazelas, ou, para usar a expressão vulgar e enérgica, “pôr os podres na rua a alguém.” Partidos, influências locais, simples desocupados, simplíssimos maldizentes, vinham de mistura com almas boas e chãs, que não inventaram folhas senão para ensaiar os vôos poéticos ou dizer em prosa palavrinhas doces às moças; doces não, adocicadas.

As recordações do Alcazar estão mais perto, e são coisas sabidas; mas não se trata só de coisas sabidas, trata-se também de coisas sentidas, que é diferente; nestas é que as memórias velhas trajam roupas novas, e as árvores secas e nuas reverdecem de repente, como sucede em outros climas. Talvez aquela gente e aquelas coisas não valessem nada, como quer a Notícia, mas lembrai-vos da pergunta de Dante... Não, não; deixemos os versos divinos do poeta. O que eu queria dizer, era por alusão ao tempo da adolescência e da mocidade, não só o dos dolci sospiri, como o da sua rima dubbiosi desiri. Não caberia aqui contar como Francesca:

Questi, che mai da me non fia diviso,

visto que o tempo e o cansaço, que são a melhor polícia das ruas desta vida, dispersaram o ajuntado e desfizeram a multidão com pouco mais do que é preciso para contá-lo aqui. Segredos da natureza.

Os dos homens são menos escuros, mas também duram menos. Ninguém ignora que nesta cidade os segredos fazem a sua hora de rua do Ouvidor, todos os dias, entre quatro e cinco. É uso antigo; raros se deixam estar em casa. Ainda agora andaram por aí dois, acerca da operação do presidente da República; um dizia que esta se faria depois do dia 7, outro que depois do dia 15 de novembro. Embora os dois virtualmente se desmentissem, não zangavam nem se descompunham; quando muito, piscavam o olho ao público, dando de cabeça para o lado do contrário, sorrindo. Era esse modo de avisar: “Não acreditem no que ele diz; é um boato disfarçado”. No mais, risonhos, palreiros, falando uma ou outra vez ao ouvido, mas sem cochicho, no tom geral da conversação.

Enquanto eles andavam na rua, às escancaras, havia um terceiro segredo, que não aparecia a ninguém, nem dizia palavra. Os outros dons chegaram a ir às imediações do morro do Inglês; vi-os ambos, no próprio dia da operação, à noite, em casa que fica pouco abaixo do morro, insistindo convencidamente nas datas de 7 e de 15; mas já então a operação estava acabada, com o resultado que sabemos. O grão de areia de Cromwell, por não vir a lume, produziu os efeitos que Pascal resumiu em dez linhas do seu grande estilo; este outro, maior que aquele, acertou de ser contemporâneo da cirurgia moderna, e não complicou doença com política.

8 de novembro

Mac-Kinley está eleito presidente dos Estados Unidos da América. Se Bryan tivesse razão, o povo estaria crucificado numa cruz de ouro; mas, como a crucificação se segue a ressurreição, era de esperar que o mesmo sucedesse ao povo, e a páscoa seria o que são todas as páscoas, uma festa de famílias. Foi justamente o que sucedeu, com a diferença que nem chegou a haver cruz, nem suplício. Bryan, felicitando o rival triunfante, acaba de mostrar que as figuras de retórica são necessárias às lutas do voto e que os oradores não pensam absolutamente o que dizem. Por outro lado, o vencedor proclama a nação que a vitória é dela e não de um partido. Essa outra luta de generosidades é brilhante e digna de um grande povo.

Eu, se lá estivesse, faria uma estatística eleitoral, para figurar ao lado das maiores daquele país, que as tem superiores ao resto do mundo. Os Estados Unidos são a terra das coisas altas, rápidas e infinitas, vastas construções e desastres vastos, cidades feitas em três meses e desfeitas em três horas, para se refazerem em três dias, vendavais que arrancam florestas, como o vento do outono as simples folhas de arbustos, e uma guerra civil, que se não pareceu com outra qualquer moderna nem antiga. Podemos imaginar o que é uma luta eleitoral. A minha estatística não contaria só os discursos proferidos nos meetings, dos quais já telegramas nos deram um pequeno cômputo, que excede talvez as orações de uma legislatura ordinária; mas, enfim, os discursos ocupariam o primeiro lugar, sem esmiuçar os períodos e as palavras. Contaria os auditores de todos eles, discriminados por partidos; com os auditores, as aclamações, as bandeiras, as gravuras, os artigos biográficos e apologéticos, as edições dos programas, das folhas políticas ou simplesmente noticiosas. Ao pé disto, as milhas andadas durante a campanha eleitoral, as rixas, os murros, os ferimentos e as mortes, pois que houve algumas; as apostas, valor e número delas; e, para dar a tudo um grãozinho de fantasia, os sonhos, divididos pelo tamanho, pela cor, pela duração, pela significação, pelas cabeças, pelas zonas, tantos ao sul, tantos ao norte, tudo bem disposto em quadros, que ficassem como um documento desta campanha de 1896.

É claro que nessas tábuas figurariam as minas de prata e seus produtos, os ganhos que daria a vitória de Bryan, e as perdas que trouxe para os derrotados a de Mac-Kinley. Viriam também os efeitos no resto do mundo. As felicitações dos vários governos e da imprensa de outros países mostram que é alguma coisa eleger um presidente dos Estados Unidos, e basta inclinar a balança a um ou outro lado para encher de alegria ou de pavor as várias praças da Europa e da América. Tudo porque os dois candidatos preferiram uma cousa tangível nos programas a uma simples exposição de doutrinas, ou até de palavras, — e estas teriam as suas vantagens; não abalariam o mundo, as praças não transtornariam as suas idéias de padrão monetário, e as taxas seguiriam tranqüilas o caminho do costume.

O país do dólar divergiu no dólar Nós temos aqui uma divergência esta semana, mas é nas debêntures da Sorocabana, das quais umas continuam a ser verdadeiras e outras falsas. Já as vi de outras empresas que, ainda verdadeiras todas não valiam mais que as falsas, e tinham vantagem de não levar ninguém à cadeia tão certo é que nisto de debêntures, e análoga papelada, tudo depende do crédito da pessoa. Não basta a cor da tinta nem perfeição da gravura. As verdadeiras, que ora se falsificam, tem valor, de certo; ninguém imita o que não presta, salvo os poetas e pintores de mau gosto, e assim os músicos. Os arquitetos também, e os escultores. Toda questão é saber quem é aqui o mau artista; dizem que é alguém que depois de vir dos Estados Unidos, para lá tornou. Haverá cúmplices? A dificuldade é achá-los, porque os papéis falsos com põem-se às escondidas e distribuem-se com grandíssimas cautelas. Os autores, quando ainda não estão a bordo, jantam conosco à mesa, e dançam em família. Mas, tornemos ao dólar.

Um dos capítulos da minha estatística seria a soma de dinheiro gasto, ouro, prata e papel, por Estados e por cidades. Outro seria o número dos cartazes, com as recomendações do estilo: Votai em Mac-Kinley! Votai em Bryan! Nós temos uns meetings ligeiros e não dispendiosos, praça estreita, um patamar de escada ou um pedestal de estátua por tribuna. Também os há destes noutras partes, ainda que mais vastos, como um que se efetuou agora em Hyde-Park, Londres, do qual só se pode saber que foi o mais chocho de todos (versão Times), e o mais entusiasta que jamais houve (versão Daily Chronicle). Vá a gente crer nos jornais que lê!

Em todo caso, um meeting não é uma campanha eleitoral e presidencial, que pede arte mais variada e perfeita, e não se faz só com palavras e um convite manuscrito nas esquinas. Lestes que a grande procissão de New York levou a passar na rua doze horas, desde dez da manhã até dez da noite. Não se refresca todo esse pessoal com promessas; há de haver algo mais que esperanças. Não todo, mas um basto número de cabos e sub-cabos, de agentes, de serviçais, precisa de entreter a natureza. É impossível que os nossos amigos yankees não tenham algum provérbio equivalente ao nosso — “saco vazio não se põe em pé”. Além do mais, há nessa procissão que passa na rua, durante doze horas, aclamando um candidato, tal soma de fôlego e resistência, não menos que nós espectadores que a vêem passar, a pé firme, que seria bom fosse imitado por outros povos. Não são debêntures, são dólares de metal.

Quando a gente arrepia o peito à história, e vê como se elegiam os cônsules romanos, fica pasmado da diferença. Seguramente os americanos invocam a divindade nos seus atos e cerimônias civis, como filhos de ingleses, que são; mas não fazem aquela consulta do céu e dos deuses, particular a cada candidato, que os excluía ou admitia previamente. Candidato que o presidente da assembléia eleitoral dissesse ter sido excluído pela divindade, quando a consultou na véspera, não recebia votos para cônsul. Falam aí no poder dos nossos presidentes de mesa eleitoral; mas, seriamente, qual deles tem esta faculdade legal de consultar os astros? O que eles fazem é por abuso, mero abuso, detestável abuso; não possuem aquele poder moral e religioso, tanto quanto político, que dispensa a fraude, o bico de pena, troca de cédulas, o aumento destas, os votos de defuntos, e tantos outros recursos que um pouco de religião e astrologia tornaria inúteis.

A verdadeira luta seria para ocupar a chefia da mesa. Aí pode ser que houvesse alguma violência ou falsificação; em lugar desses seria a própria boca divina falando aos homens. Um cidadão que, depois de uma noite em claro, pudesse dizer: “Consultei o Cruzeiro e Vênus; são contrários ao Motta; o Cruzeiro prefere o Neves, e Vênus o Martins; mas, depois de alguma controvérsia, combinaram no Silva e no Alves; eu votaria no Alves”; um cidadão destes seria a própria eleição do Alves. Tudo sem discursos, nem procissões, nem manifestos, nem nada.

15 de novembro

“Uma geração passa, outra geração lhe sucede, mas a Terra permanece firme.” Este versículo do Eclesiastes é uma grande lição da vida, e não digo a maior, porque há mais três ou quatro igualmente grandes. Mas não haverá poesia nem língua que não tenha dito por modo particular esse pensamento final do mundo. Shelley exprimiu apenas metade dele naqueles dois versos:

Man’s yesterday may ne'er be like his morrow; Nought may endure but Mutability.

Quem nos dá a mais viva imagem do contraste entre a mocidade dos homens no meio da imutabilidade da natureza é Chateaubriand. Lembrai-vos do Itinerário; recordai aquelas cegonhas que ele viu irem do Ilisso às ribas africanas. Também eu vi as cegonhas da Hélade, e peço me desculpeis esta erupção poética; nem tudo há de ser prosa na vida, alguma vez é bom mirar as coisas que ficam e perduram entre as que passam rápidas e leves... Creio que até me escapou aí um verso: “entre as que passam rápidas e leves...” A boa regra da prosa manda tirar a essa frase a forma métrica, mas seria perder tempo e encurtar o escrito; vá como saiu, e passemos adiante.

Era no arrabalde em que residia. Bastava a presença do Corcovado para cotejar a firmeza da Terra com a mobilidade dos homens, e a circunstância de estar na vizinhança daquele pico a habitação do Sr. presidente da República, operado e enfermo, passando as rédeas do Governo ao Sr. vice-presidente, que pouco mais distante mora, trazia uma comparação fácil, mas não menos triste que fácil. Duro é pensar nos padecimentos de um homem. Já falei no grão de areia de Cromwell, a propósito do cálculo que alterou, não a situação política, mas a parte principal do Governo. Não repetirei aqui a idéia; melhor é deixar ao Sr. Barão de Pedro Afonso explicar à Cidade do Rio as razões que o levaram a dizer que a cura estaria acabada em quinze dias, não o tendo cumprido por força de causas aliás preexistentes. O pior de tudo, para quem está cá embaixo, é este não poder sofrer calado e oculto, adoecer em particular, lutar com o mal e vencê-lo fora do circo e longe da platéia. A platéia romana fazia sinal com o dedo quando queria a morte da vítima. Aqui ninguém quer a morte do presidente, fique um tanto logrado, com a suspensão dos boletins. A Rua do Ouvidor, se não tem notícias, cai nos boatos.

Mas vamos ao meu ponto. Era no arrabalde em que moro. Pensava eu naquela limonada purgativa que uma pessoa bebeu, há dias, e ia morrendo se a bebe toda, por não ser mais que puro iodo. O rótulo da garrafa dava uma droga por outra. Do engano do boticário ia resultando mais um hóspede no cemitério, se a doente não recusa o medicamento, logo que lhe sentiu o gosto; ainda assim bebeu alguma porção que a fez padecer um tanto. A lembrança do caso entrou a passear-me no cérebro, único cérebro talvez em que já existisse, tão rápido passa tudo nesta vida, e tanto me custa a deixar uma idéia por outra. Então refleti, e adverti que o descuido do boticário não teve mais processo, e posto que dos descuidos comam os escrivães, nenhum escrivão comeu deste. Tudo passou, a limonada, o iodo e a memória.

E vieram outras lembranças análogas, vagas sombras, que para logo se iam desfazendo. Uma delas foi aquele outro descuido que levou para a cova um pobre-diabo, não sei se adulto, se infante. A troca dos remédios não foi obra de propósito, mas de erro, talvez de ignorância. Não foi ação de alfaiate, ourives ou marítimo, mas de boticário também, com a diferença que uns dizem ser o próprio dono da casa, outros um seu representante. A vítima expirou. Deus recebeu a sua alma. O acidente deu o que falar e escrever, e os adjetivos vadios apareceram contra o pobre autor do involuntário descuido; mas adjetivos não são agentes de polícia, e enquanto um homem ouve a palavrada do prelo não escuta as chaves no ferrolho da detenção. O descuidado acabaria solto, se tivesse de acabar; os escrivães não comeram desse primeiro descuido. Poucos dias depois creio que continuou a vender as suas drogas, e a prova de que não houve propósito, e quando muito desazo, é que ninguém mais morreu, pelo menos até ontem.

Essa lembrança desapareceu como as primeiras. Gerações delas iam assim vindo como as do texto bíblico, umas atrás de outras, esquecidas, apagadas, mortas. Nem eram só as dos remédios trocados; as dos desfalques tinham igual destino. Quatro, cinco, seis mil contos desapareceram, como ilusões da mocidade, como opiniões de ano velho. Quem sabe já deles? Há quem cite algum, raro, ou para comparação, ou por qualquer necessidade de fundamento, não com idéias de processo. Os desfalques são como os amores enganados; doem muito, mas os tempos acabam de os enganar e enterrar, e, quando menos se espera, o desfalcado reza por alma do outro, se o outro morre. Se não morre, não o mata, nem lhe tira a liberdade, que é a primeira dos bens da Terra e a melhor base das sociedades políticas. Se, além de vivo, o outro gosta de dançar, dança; — ou joga, se lhe sabe o jogo, que tanto pode ser de cartas como de prendas.

Todas essas sombras, desfalques grandes e pequenos, públicos ou particulares, e trocas de remédios, e doenças e mortes filhas dessas trocas, todas essas sombras impunes iam e vinham, e eu não podia com os olhos (quanto mais com as mãos!) agarrá-las, fixá-las, sentá-las diante de mim. Como Goethe, dedicando o Fausto, perguntava-lhes se me rodeavam ainda uma vez, e elas iam mais vagas que as do poeta, iam-se para não voltar mais; todas esquecidas.

Eram as gerações que passavam. Gerações novas sucederão a essas, para se irem também, e dar lugar a mais e mais, que cederão todas à mesma lei do esquecimento, desfalques e remédios. Onde está a terra firme?

Quando eu fazia esta pergunta e quase respondia Lao-Tsé, contemporâneo de Confúcio, de quem o Jornal do Comércio publicou há dias algumas verdades verdadeiras, eis que ouço o grito na rua, um pregão, uma voz esganiçada; era a terra firme, eram as cegonhas de Chateaubriand: “Um de resto! anda hoje! duzentos contos!” Homens e leis têm vida limitada, — eles por necessidade física,

— elas por necessidades morais e políticas; mas a loteria é eterna. A loteria é a própria Fortuna e a Fortuna é a deusa que não conhece incrédulos nem renegados. A cidade fala de umas coisas que esquece, crimes públicos, crimes particulares; mas loteria não é crime particular nem público! Um de resto! anda hoje! duzentos contos!

22 de novembro

A natureza tem segredos grandes e inopináveis. Não me refiro especialmente ao de anteontem, no Cassino Fluminense, onde algumas senhoras e homens de sociedade nos deram ópera, comédia e pantomima, com tal propriedade, graça e talento, que encantaram o salão repleto. Não é a primeira vez que a comissão do Coração de Jesus ajunta ali a flor da cidade. Aos esforços das senhoras que a compõem correspondem os convidados, — e desta vez apesar do tempo, que era execrável, — e aos convidados, em cujo número se contava agora o Sr. vice-presidente da República, corresponderam os que se incumbiram de dizer, cantar ou gesticular alguma coisa. Outros contarão por menor e por nomes o que fizeram os improvisados artistas. A mim nem me cabe esta nota de passagem, em verdade menos viva que a do meu espírito; mas, pois que saiu, aí fica.

Não, o inopinável e grande da natureza a que quero me referir, é outro. Um dos maiores sabe-se que é o suicídio, que nos parece absurdo, quando a vida é a necessidade comum; mas, considerando que é a mesma vida que leva o homem a eliminá-la, — propter vitam, — tudo afinal se explica na pessoa que pega em si, e dá um talho, bebe uma droga ou se deita de alto a baixo na rua ou no mar. As crianças pareciam isentas dessa vertigem; mas há ainda poucas semanas deram os jornais notícia de uma criaturinha de doze anos que acabou com a existência,

— uns dizem que por pancadas recebidas, outros que por nada.

Tivemos agora um caso mais particular: um fazendeiro rio-grandense deu um tiro na cabeça e desapareceu do número dos vivos. O telegrama nota que era homem de idade, — o que exclui qualquer paixão amorosa, conquanto as cãs não sejam inimigas das moças; podem ser invejosas, mas inveja não é inimizade. E há vários modos de amar as moças, — o modo conjuntivo e o modo extático; ora, o segundo é de todas as fases deste mundo. Além de idoso, o suicida era rico, isto é, aquele bem que a sabedoria filosófica reputa o segundo da terra, ele o possuía em grau bastante para não padecer nos últimos da vida, ou antes para vivê-los à farta, entre os confortos do corpo e da boca. Não tinha moléstia alguma; nenhuma paixão política o atormentava. Qual a causa então do suicídio?

A causa foi a convicção que esse homem tinha de ser pobre. O telegrama chama-lhe mania, eu digo convicção. Qualquer, porém, que seja o nome, a verdade é que o fazendeiro rio-grandense, largamente proprietário, acreditava ser pobre, e daí o terror natural que traz a pobreza a uma pessoa que trabalhou por ser rica, viu chegar o dinheiro, crescer, multiplicar-se, e por fim começou a vê-lo desaparecer aos poucos, a mais e mais depressa, e totalmente. Note-se bem que não foi a ambição de possuir mais dinheiro que o levou à morte, — razão de si misteriosa, mas menos que a outra; foi a convicção de não ter nada.

Não abaneis a cabeça. A vossa incredulidade vem de que a fazenda do homem, os seus cavalos, as suas bolivianas, as suas letras e apólices valiam realmente o que querem que valham; mas não fostes vós que vos matasse, foi ele e nada disso era vosso, mas do suicida. As coisas têm o valor do aspecto, e o aspecto depende da retina. Ora, a retina daquele homem achou que os bens tão invejados de outros eram coisa nenhuma, e prevendo o pão alheio, a cama da rua, o travesseiro de pedra ou de lodo, preferiu ir buscar a outros climas melhor vida ou nenhuma, segundo a fé que tivesse.

O avesso deste caso é bem conhecido naquele cidadão de Atenas que não tinha nem possuía uma dragma, um pobre-diabo convencido de que todos os navios que entravam no Pireu eram dele; não precisou mais para ser feliz. Ia ao porto, mirava os navios e não podia conter o júbilo que traz uma riqueza tão extraordinária. Todos os navios! Todos os navios eram seus! Não se lhe escureciam os olhas e todavia mal podia suportar a vista de tantas propriedades. Nenhum navio estranho; nenhum que se pudesse dizer de algum rico negociante ateniense. Esse opulento de barcos e ilusões comia de empréstimo ou de favor; mas não tinha tempo para distinguir entre o que lhe dava uma esmola e o seu criado. Daí veio que chegou ao fim da vida e morreu naturalmente e orgulhosamente.

Os dois casos, por avessos que pareçam um ao outro, são o mesmo e único. A ilusão matou um, a ilusão conservou o outro; no fundo, há só a convicção que ordena os atos. Assim é que um pobretão, crendo ser rico, não padece miséria alguma, e um opulento, crendo ser pobre, dá cabo da vida para fugir à mendicidade. Tudo é reflexo da consciência.

Não mofeis de mim, se achais aí um ar de sermão ou filosofia. O meu fim não é só contar os atos ou comentá-los; onde houver uma lição útil é meu gosto e dever tirá-la a divulgá-la como um presente aos leitores; é o que faço aqui. A lição que eu tirar pode ter a existência do cavalo do pampa ou a do navio do Pireu; toda a questão é que valha por uma realidade, aos olhos do fazendeiro do Sul e do cidadão de Atenas.

A lição é que não peçais nunca dinheiro grosso aos deuses, senão com a cláusula expressa de saber que é dinheiro grosso. Sem ela, os bens são menos que as flores de um dia. Tudo vale pela consciência. Nós não temos outra prova do mundo que nos cerca senão a que resulta do reflexo dele em nós: é a filosofia verdadeira. Todo Rothschild and Sons, nossos credores, valeriam menos que os nossos criados, se não possuíssem a certeza luminosa de que são muito ricos. Wanderbilt seria nada; Jay Gould um triste cocheiro de tílburi sem possuir sequer

o carro nem o cavalo, a não ser a convicção dos seus bens.

Passai das riquezas materiais às intelectuais: é a mesma coisa. Se o mestre-escola da tua rua imaginar que não sabe vernáculo nem latim, em vão lhe provarás que ele escreve como Vieira ou Cícero, ele perderá as noites e os sonos em cima dos livros, comerá as unhas em vez de pão, encanecerá ou encalvecerá, e morrerá sem crer que mal distingue o verbo do advérbio. Ao contrário, se o teu copeiro acreditar que escreveu os Lusíadas, lerá com orgulho (se souber ler) as estâncias do poeta; repeti-las-á de cor, interrogará a teu rosto, os teus gestos, as tuas meias palavras, ficará por horas diante dos mostradores mirando os exemplares do poema exposto. Só meterá em processo os editores se não supuser que ele é o próprio Camões: tendo essa persuasão, não fará mais que ler aquele nome tão bem visto de todos, abençoá-lo em si mesmo; ouvi-lo aos outros, acordado e dormindo.

Que diferença achais entre o mestre-escola e seu copeiro? Consciência pura. Os frívolos, crentes de que a verdade é o que todos aceitam, dirão que é mania de ambos, como o telegrama mandou dizer do fazendeiro do Sul, como os antigos diriam do cidadão de Atenas. A verdade, porém, é o que deveis saber, uma impressão interior. O povo, que diz as coisas por modo simples e expressivo, inventou aquele adágio: Quem o feio ama, bonito lhe parece. Logo, qual é a verdade estética? É a que ele vê, não a que lhe demonstrais.

A conclusão é que o que parece desmentir a natureza da parte de um homem que se elimina por supor que empobreceu, não é mais que a sua própria confirmação. Já não possuía nada o suicida. A contabilidade interior usa regras às vezes diversas da exterior, diversas e contrárias. 20 com 20 podem somar 40, mas também podem somar 5 ou 3, e até 1, por mais absurdo que este total pareça; a alma é que é tudo, amigo meu, e não é Bezout que faz a verdade das verdades. Assim, e pela última vez, repito que vos não limiteis a pedir bens simples, mas também a consciência deles. Se eles não puderem vir, venha ao menos a consciência. Antes um navio no Pireu que cem cavalos no pampa.

29 de novembro

Gastibelza, l’homme à la carabine, chantait ainsi.

V. HUGO

Abdul-Hamid, padixá da Turquia Servo de Alá, Ao relembrar com outrora gemia

Gastibelzá Soltou a voz solitária e plangente Cantando assim: — “Verei morrer esse eterno doente? Penso que sim.

Ó meu harém! ó sagradas mesquitas Meu céu azul! Terra de tantas mulheres bonitas, Minha Istambul! Ó Dardanelos! ó Bósforo! ó gente Síria, alepim! — Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Ouço de um lado bradar o Evangelho, De outro o Corão,

Ambos à força daquele ódio velho, Velha paixão,

E sinto em risco o meu trono luzente, Todo cetim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Gladstone, certo feroz paladino, Cristão e inglês,

Em discurso chamou-me assassino, Há mais de um mês;

Ninguém puniu esse dito insolente De tal mastim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Chamou-me ainda não sei se maluco, Ele que já

Vai pela idade de mole e caduco, Velho paxá,

Ele que quis rebelar toda a gente Da verde Erim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

“Ah! se eu, em vez de gostar da sultana E outra hanuns,

Trocar quisesse esta Porta Otomana Pelos Comuns,

Dar-me-iam, dizem, o trato excelente Que dão ao chim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Querem que faça reformas no Império, Voto, eleição,

Que inda mais alto que o nosso mistério Ponha o cristão,

Que de à cruz o papel do crescente, Como em Dublim. —

Verei morrer esse eterno doente? Penso que sim.

Que tempo aquele em que bons aliados Bretão, francês,

Defender vinham dos golpes danados O nosso fez!

Então a velha questão do Oriente Tinha outro fim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Então a gente da ruiva Moscóvia, Imperiais

Da Bessarábia, Sibéria, Varsóvia, Odessa e o mais,

Não conseguiam meter o seu dente No meu capim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Hoje meditam levar-me aos pedaços Tudo o que sou,

Cabeça, pernas, costelas e braços, Paris, Moscou,

A rica Londres, Viena a potente, Roma a Berlim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Oh! Desculpai-me se nesta lamúria, Se neste andar,

Preciso às vezes entrar na Ligúria Para rimar.

Para rimar um mandão do Ocidente Com mandarim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Constantinopla rima com manopla, Bem, sim, senhor;

Porém que a dura exigência da copla Torne uma flor

Igual à erva mofina e cadente De um mau jardim... —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Pois eu rimei Maomé com verdade, Mas hoje, ao ver

Que nem me fica esta velha cidade, Sinto perder

A fé que tinha de príncipe e crente Até o fim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

“Donzelas frescas, matronas gorduchas, Com feredjehs,

Moças calçadas de lindas babuchas Nos finos pés,

Mastigam doces com gesto indolente No meu festim. —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Onde irão elas comer os confeitos Que hora aqui têm?

Quem lhes dará esses sonos perfeitos Do meu harém?

Onde acharão o sabor excelente De um alfenim? —

Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

E eu, onde irei, se me deitam abaixo? Onde irei eu,

Servo de Alá, sem bastão nem penacho? Tal o judeu

Errante, irei, sem parar, tristemente,

De Ohio a Pequim. — Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Ver-me-ão à noite, com a lua ou sem lua. Seguir atrás Da costureira que passa na rua, Honesta, em paz, Pedir-lhe um beijo um beijo de amor por um pente De ouro ou marfim. — Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

“Comerei só, sem eunucos escuros, Em restaurant, Talvez bebendo dos vinhos impuros

Que veda Islã; Esposo de uma senhora somente Assim, assim. — Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Penso que sim. Virão logo rasgá-lo Como urubus Sobre o cadáver de um pobre cavalo, Nações de truz. Farão de cada pedaço jacente Uma Tonquim. — Verei morrer este eterno doente? Penso que sim.

Penso que sim; mas, pensando mais fundo, Bem pode ser Que ele ainda fique algum tempo no mundo; Tudo é fazer Com que elas briguem na festa esplendente Antes do fim. – Verei viver este eterno doente? Talvez que sim.”

6 de Dezembro

Antônio Conselheiro é o homem do dia; faz-me lembrar o beri-beri. Eu acompanhei o beri-beri durante muitos anos, pelas folhas do Norte, principalmente do Maranhão e do Ceará. Via citadas as pessoas que adoeciam do mal, que eu não conhecia e cujo nome lia errado, carregando no i: lia berí-berí. Confesso este pecado de prosódia, esperando que os meus contemporâneos façam a mesma coisa, ainda que, como eu, não tenham outros merecimentos. Quem tem outros merecimentos pode claudicar uma vez ou duas. Ao duque de Caxias ouvi eu dizer

— míster; mas o duque tinha uma grande vida militar atrás de si. Que feitos militares ou civis tem um senhor, que eu conheço, para dizer eleiçãos?

Mas, tornando ao meu propósito, eu li os casos de beri-beri por muitos e dilatados anos. Acompanhei a moléstia; vi que se espalhava pouco a pouco, mas segura. Foi assim que chegou à Baía, e anos depois estava no Rio de Janeiro, de onde passou ao Sul. Hoje é doença nacional. Quando deram por ela, tinha abrangido tudo. Ninguém advertiu na conveniência de sufocá-la nos primeiros focos.

O mesmo sucedeu com Antônio Conselheiro. Este chefe de bando há muito tempo que anda pelo sertão da Baía espalhando uma boa nova, sua, e arrebanhando gente que a aceita e o segue. Eram vinte, foram cinqüenta, cem, quinhentos, mil, dois mil; as últimas notícias dão já três mil. Antes de tudo, tiremos o chapéu. Um homem que, só com uma palavra de fé, e a quietação das autoridades, congrega em torno de si três mil homens armados, é alguém. Certamente, não é digno de imitação; chego a achá-lo detestável; mas que é alguém, não há dúvida. Não me repliquem com algarismos eleitorais; nas eleições pode-se muito bem reunir duas e três mil pessoas, mas são pessoas que votam e se retiram, e não se reúnem todas no mesmo lugar, mas em seções. Casos há em que nem vão às urnas; é o que elegantemente se chama bico de pena. Uns dizem que este processo é imoral; outros que imoral é ficar de fora. Eu digo, como Bossuet: “Só Deus é grande, meus irmãos!”

Como e de que vivem os sectários de Antônio Conselheiro? Não acho notícia exata deste ponto, ou não me lembro. Se não têm rendas, vivem naturalmente das do mato, caça e fruta, ou das dos outros, como os salteadores. A verdade é que vivem. A crença no chefe é grande; Antônio Conselheiro tem tal poder sobre os seus amigos, que fará deles o que quiser. Agora mesmo, no primeiro ataque da força pública, sabe-se que eles, baleados, vinham às fileiras dos soldados para cortá-los a facão, e morrer. Entretanto, eles têm amigos estabelecidos à sombra das leis. Um telegrama diz que da cidade de Alagoinhas mandaram pólvora e chumbo ao chefe. Apreenderam-se caixões com armas que iam para ele. Os sectários batem-se com armas Comblaim e Chuchu. Dizem as notícias que não se pode destruir tal gente com menos de seis mil homens de tropa. Talvez mais; um fanático, certo de ressuscitar daí a quinze dias, como ele assegura, vale por três homens.

Há um ponto novo nesta aventura baiana; está nos telegramas publicados anteontem. Dizem estes que Antônio Conselheiro bate-se para destruir as instituições Republicanas. Neste caso, estamos diante de um general Boulanger, adaptado ao meio, isto é, operando no sertão, em vez de o fazer na capital da República e na câmara dos deputados, com eleições sucessivas e simultâneas. É muita coisa para tal homem; profeta de Deus, enviado de Jesus e cabo político, são muitos papéis juntos, conquanto não seja impossível reuni-los e desempenhá-los. Cromwel derribou Carlos I com a Bíblia no bolso, e não ganhou batalha que não atribuísse a vitória a Deus. “Senhor, — escrevia ele ao presidente da câmara dos comuns, — senhor, isto é nada menos que Deus; a ele cabe toda a glória”. Mas, ou eu me engano, ou vai muita distância de Cromwel a Antônio Conselheiro.

Entretanto, como a alma passa por estados diferentes, não é absurdo que o atual estado da do nosso patrício seja a ambição política. Pode ser que ele, desde que se viu com três mil homens armados e subordinados, tenha sentido brotar do espírito profético o espírito político, e pense em substituir-se a todas as Constituições. Imaginará que, possuindo a Baía, possui Sergipe, logo depois Alagoas, mais tarde Pernambuco e o resto para o norte e para o sul. Dizem que ele declarou que há de vir ao Rio de Janeiro. Não é fácil, mas todos os projetos são verossímeis, e, dada a ambição política, o resto é lógico. Ele pode pensar que chega, vê e vence. Suponhamos nós que é assim mesmo; que as calamidades do tempo e o espírito da rebelião se dão as mãos para entregar a vitória ao chefe da seita dos Canudos. Canudos é, como sabeis, o lugar onde ele e o seu exército estão agora entrincheirados. Isto suposto, que será o dia de amanhã?

Lealmente, não sei. Eu não sou profeta. Se fosse, talvez estivesse agora no sertão, com outros três mil sequazes, e uma seita fundada. E faria o contrário daquele fundador. Não viria aos centros povoados, onde a corrupção dos homens torna difícil qualquer organização sólida, e o espírito de rebelião vive latente, à espera de oportunidade. Não, meus amigos, era lá mesmo no sertão, onde os bichos ainda não jogam nem são jogados; era no mais fechado, áspero e deserto que eu levantaria a minha cidade e a minha igreja.

Antônio Conselheiro não compreende essa vantagem de fazer obra nova em sítio devoluto. Quer vir aqui, quer governar perto da rua do Ouvidor. Naturalmente, não nos dará uma Constituição liberal, no sentido anárquico deste termo. Talvez nem nos dê cópia ou imitação de nenhuma outra, mas alguma coisa inédita e inesperada. O governo será decerto pessoal; ninguém gasta paciência e anos no mato para conquistar um poder e entregá-lo aos que ficaram em suas casas. O exemplo de Orélie-Antoine I (e único), rei dos Araucânios, não o seduzirá a pôr uma coroa na cabeça. Cônsul e Protetor são títulos usados. Palpita-me que ele se fará intitular simplesmente Conselheiro, e, sem alterar o nome, dividi-lo-á por uma vírgula: “Antônio, Conselheiro, por ordem de Deus e obediência do povo”... Terá um conselho, câmara única e pequena, não incumbida de votar as leis, mas de as examinar somente, pelo lado ortográfico e sintático, pelo número de letras consoantes em relação às vogais, idade das palavras, energia dos verbos, harmonia dos períodos, etc., tudo exposto em relatórios longos, minuciosos, ilegíveis e inéditos.

Venerado como profeta, obedecido como chefe de Estado, investido de ambos os gládios, com as chaves do céu e da terra na gaveta, Antônio Conselheiro verá o seu poder definitivamente posto? Como tudo isto é sonho, sonhemos que sim; mas Oliveiro terá um Ricardo por sucessor, e a obra do primeiro perecerá nas mãos do segundo, sem outro resultado mais que haver o profeta governado perto da rua do Ouvidor. Ora, esta rua é o alçapão dos governos. Pela sua estreiteza, é a murmuração condensada, é o viveiro dos boatos, e mais faz um boato que dez artigos de fundo. Os artigos não se lêem, principalmente se o contribuinte percebe que tratam de orçamento e de imposto, matérias já de si aborrecíveis. O boato é leve, rápido, transparente, pouco menos que invisível. Eu, se tivesse voz no Conselho Municipal, antes de cuidar do saneamento da cidade, propunha o alargamento da rua do Ouvidor. Quando este beco for uma avenida larga em que as pessoas mal se conheçam de um lado para outro, terão cessado mil dificuldades políticas. Talvez então se popularizem os artigos sobre finanças, impostos e outras rudes necessidades do século.

13 de dezembro

O Senado deixou suspensa a questão do veto do prefeito acerca do imposto sobre companhias de teatro. Não falaria nisto se não se tratasse de arte em que a política não penetra, — ao menos que se veja. Se penetra, é pelos bastidores; ora, eu sou público, só me regulo pela sala.

Houve debate à última hora, esta semana, e debate, não direi encarniçado, para não gastar uma palavra que lhe pode servir em caso mais agudo... Não, eu não sou desses perdulários que, porque um homem diverge no corte do colete, chama-lhe logo bandido; eu poupo as palavras. Digamos que o debate foi vigoroso.

Não sei se conheceis o negócio. O que eu pude alcançar é que havia uma lei taxando fortemente as companhias estrangeiras; esta lei foi revogada por outra que manda igualar as taxas das estrangeiras e das nacionais; mas logo depois resolveu o conselho municipal que fosse cumprida uma lei anterior à primeira... Aqui é que eu não sei bem que a lei restaurada apenas levanta as taxas sem desigualá-las, ou se a tornam outra vez desiguais. Além de não estar claro no debate, sucede que na publicação do discurso há o uso de imprimir entre parêntesis a palavra lê quando o orador lê alguma coisa. Para as pessoas que estão na galeria, (ao contrário!) a conseqüência é que a maior parte fica sem saber o que é que leu, e portanto sem perceber a força da argumentação, isto com prejuízo dos próprios oradores. Por exemplo, um orador, X..., refuta a outro, Y...:

“X... E pergunto eu, Vossa Excelência pode admitir que o documento de que se

trata afirme o que o governo do Estado alega? Ouça Vossa Excelência. Aqui está o primeiro trecho, o trecho célebre. (Lê) Não há aqui o menor vestígio de afirmação...

Y... Perdão, leia o trecho seguinte.

X... O seguinte? Ainda menos. (Lê) Não há nada mais vago. O governador expedira o decreto, cujo art. 4º não oferece a menor dúvida; basta lê-lo. (Lê) Depois disto, que concluir, senão que o governador tinha o plano feito? Querem argumentar, Sr. presidente, com o § 7º do art. 6º; mas essa disposição é um absurdo jurídico. Ouça a Câmara. (Lê)

Vozes: Oh! Oh!”

Não há dúvida que esse uso economiza papel de impressão e tempo de copiar; mas eu, contribuinte e eleitor, não gosto de economias na publicação dos debates. Uma vez que estes se imprimem é indispensável que saiam completos para que eu os entenda. Posso ser para preguiçoso, morar fora, e tenho direito de saber o que é que se lê nas Câmaras. Se algum membro ou ex-membro do congresso me lê, espero que providenciará de modo que, para o ano, eu possa ler o que se ler, sem ir passar os meus dia na galeria do congresso.

Como ia dizendo, não tenho certeza do que é a lei municipal restaurada; mas para

o que eu vou dizer é indiferente. O que deduzi do debate é que há duas opiniões: uma que entende deverem ser as companhias estrangeiras fortemente taxadas, ao contrário das nacionais, outra que quer a igualdade dos impostos. A primeira funda-se na conveniência de desenvolver a arte brasileira, animando os artistas nacionais que aqui labutam todo ano, seja de inverno, seja de verão. A segunda, entendendo que a arte não tem pátria, alega que as companhias estrangeiras, além de nos dar o que as outras não dão, têm de fazer grandes despesas de transporte, pagar ordenados altos e não convém carregar mais as respectivas taxas. Tal é o conflito que ficou suspenso.

Eu de mim creio que ambas as opiniões erram. Não erram nos fundamentos teóricos; tanto se pode defender a universalidade da arte como sua nacionalidade; erram no que toca aos fatos. Com efeito, é difícil, por mais que a alma se sinta levada pelo princípio da universalidade da arte, não hesitar quando nos falam da necessidade de defender a arte nacional; mas é justamente este o ponto em que a visão do Conselho Municipal, do prefeito e do Senado me parece algo perturbada.

Posto não freqüente teatros há muito tempo, sei que há aí uma arte especial, que eu já deixei em botão. Essa arte (salvo alguns esforços louváveis) não é propriamente brasileira, nem estritamente francesa; é o que podemos chamar, por um vocábulo composto, a arte franco-brasileira. A língua de que usa dizem-me que não se pode atribuir exclusivamente a Voltaria, nem inteiramente a Alencar; é uma língua feita com partes de ambas, formando um terceiro organismo, em que a polidez de uma e o mimo de outra produzem nova e não menos doce prosódia.

Este fenômeno não é único. O teuto-brasileiro é um produto do Sul, onde o alemão nascido no território nacional não fica bem alemão nem bem brasileiro, mas um misto, a que lá dão aquele nome. Ignoro se a língua daquele nosso meio patrício e inteiro colaborador é um organismo igual ao franco-brasileiro; mas se as escolas das antigas colônias continuam a só ensinar alemão, é provável que domine esta língua. Nisto estou com La Palisse.

Não é pelo nascimento dos artistas que a arte franco-brasileira existe, mas por uma combinação do Rio com Paris ou Bordéus. Essa arte, que as finadas Mmes. Doche e D. Estela não reconheceriam por não trazer a fisionomia particular de um ou de outro dos respectivos idiomas, tem a legitimidade do acordo e da fusão nos elementos de ambas as origens. Quando nasceu? É difícil dizer quando uma arte nasce; mas basta que haja nascido, tenha crescido e viva. Vive, não lhe peço outra certidão.

Acode-me, entretanto, uma idéia que pode combinar muito bem as duas correntes de opinião e satisfazer os intuitos de ambas as partes. Essa idéia é lançar uma taxa moderada às companhias estrangeiras e libertar de todo imposto as nacionais. Deste modo, aquelas virão trazer-nos todos os invernos algum regalo novo, e as nacionais poderão viver desabafadas de uma imposição onerosa, por mais leve que seja. Creio que assim se cumprirá o dever de animar as artes, sem distinção de origens, ao mesmo tempo protegerá a arte nacional. Que importa que, ao lado dela, seja protegida a arte franco-brasileira? Esta é um fruto local; se merece menos que a outra, não deixa de fazer algum jus à eqüidade. Aí fica a idéia; é exeqüível. Não a dou por dinheiro, mas de graça e a sério.

Não me arguam de prestar tanta atenção à língua de uma arte e à meia língua de outra. Grande coisa é a língua. Aquele diplomata venezuelano que acaba de atordoar os espíritos dos seus compatriotas pela revelação de que o tratado celebrado com a Inglaterra, graças aos bons ofícios dos Estados Unidos, serve ao interesse destes dois países com perda para Venezuela, pode não ter razão (e creio que não tenha), mas dá prova certa do que vale a língua. Os outros dois são ingleses, falam inglês; foi o pai que ensinou esta língua ao filho. Venezuela é uma das muitas filhas e netas de Espanha que se deixaram ficar por este mundo. A língua castelhana é rica; mas é menos falada. Se o diplomata tivesse razão, em Caracas, que é o Rio de Janeiro de Venezuela, as companhias nacionais é que agüentariam os maiores impostos, enquanto que as de Londres e New York representariam sem pagar nada. Mas é um desvario, decerto; esperemos outros telegramas.

Relevem o estilo e as idéias; a minha dor de cabeça não dá para mais.

20 de dezembro

É minha opinião que não se deve dizer mal de ninguém, e ainda menos da polícia. A polícia é uma instituição necessária à ordem e à vida de uma cidade.

Nos melhores tempos da nossa bela Guanabara, como lhe chamam poetas, tínhamos o Vidigal e o Aragão. Esse Aragão, que eu não conheci, vinha ainda falar aos de minha geração pela boca do sino de São Francisco de Paula, às 10 horas da noite, — hora de recolher, fazendo lembrar aquilo da ópera: — Abitanti di Parigi, è ora di riposar.

Ó tempos! tempos! Os escravos corriam para casa dos senhores, e todo o cidadão, por mais livre que fosse, tinha obrigação de se deixar apalpar, a ver se trazia navalha na algibeira. Era primitivo, mas tiradas as navalhas aos malfeitores, poupava-se a vida à gente pacífica.

Não se deve dizer mal da polícia. Ela pode não ser boa, pode não ter sagacidade, nem habilidade, nem método, nem pessoal; mas, com tudo isso, ou sem tudo isso, é instituição necessária. Os tempos vão suprindo as lacunas, emendando os defeitos. Para falar de nós, já começamos a perder a idéia de uma polícia eleitoral ou de um canapé destinado a alguém que passa de um cargo a outro e descansa um mês para tomar fôlego. O pessoal secreto é difícil de escolher; outrora, nem sequer era secreto. Quem se não lembra daquele famoso assassinato da Rua Uruguaiana, há anos, cujo autor fugia perseguido por pessoas do povo que bradavam: “Pega! é secreta!” Duas lições houve nesse acontecimento: 1º, o crime praticado pela virtude; 2º, o secreto conhecido de toda gente. Não obstante, repito, a instituição é necessária, e antes medíocre que nenhuma.

Agora mesmo, se nada se tem encontrado acerca da dinamite tirada de um depósito, é porque os ladrões de dinamite não são como os de simples lenços pendurados às portas das lojas. Estes são obrigados a furtar de dia, à vista do dono e dos passantes, correm, são perseguidos pelo clamor público, e afinal pegados. Eu, apesar do gosto que tenho a psicologia, ainda não pude descobrir o móvel secreto das pessoas que perseguem neste caso a um gatuno. É o simples impulso da virtude? É o desejo de perseguir um homem hábil que quer escapar à lei? Mistério insondável. A virtude é, decerto, um grande e nobre motivo, e se pudesse haver deliberação no ato, não há dúvida que ela seria o motivo único; mas, não se pode deliberar quando alguém furta um lenço e foge; o ato da corrida é imediato. Se os perseguidores fossem outros lojistas, não há dúvida que, por aquele seguro mútuo natural entre pessoas interessadas, cada um trataria de capturar e fazer punir o que defraudou o vizinho, e pode amanhã vir defraudá-lo a ele. Mas, em geral, os perseguidores são pessoas que nada têm com aquilo. Nenhum deles levaria nunca o lenço de ninguém; não contesto que um ou outro, posto em corredor escuro e solitário, diante de um relógio de ouro, regulando bem, longe dos homens, dificilmente sairá sem o relógio no bolso. É, por outra maneira, o problema de Diderot. Não vades crer que eu condeno a perseguição dos delinqüentes; ao contrário, aplaudo o espírito de solidariedade que deve prender o cidadão à autoridade e à lei; mas não falo em tese, falo em hipótese.

Portanto, não admira que a dinamite continue encoberta. Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. É velho este pensamento de Hamlet; mas nem por velho perde. Eu não peço às verdades que usem sempre cabelos brancos, todas servem, ainda que os tragam brancos ou grisalhos. Ora, se há muita coisa entre o céu e a terra, dinamite pode lá estar; é muita, convenho, mas o espaço é vasto de sobra. Como iremos buscá-la tão alto? A polícia, — a própria polícia inglesa, que dizem ser a melhor aparelhada, ainda não possui agentes aéreos. Ouço que há agora dois homens em Paris que tencionam ir em balão descobrir... o que? descobrir o pólo; mas pólo não é dinamite, que faz voar casas e túneis de estradas de ferro. Pólo não vive escondido; deixa-se estar à espera. Notemos que os interrogados até agora não disseram nada que esclareça sobre o paradeiro da matéria roubada; ou são inocentes, ou estão ligados por juramentos terríveis, a não ser que o próprio interesse lhes tape a boca; explicação esta muito natural. Não havendo meios de tortura, — o látego ao menos, — como fazer falar as pessoas mudas?

Mas, tudo isso me tem desviado do ponto a que queria ir. Vamos a ele. Não se deixem levar por aparências; não cuidem que faço aqui um noticiário criminal. A boa regra para quem empunha uma pena tratar do que pode dar de si algum suco,

— uma idéia uma descoberta, uma conclusão. Não dando nada, não vale a pena gastar papel e tinta; melhor é abrir as janelas e ouvir o passaredo que canta no arvoredo, para rimarem juntos, e os insetos que zumbem, o trem da linha do Corcovado que sobe e ver o sol que desce por estas montanhas abaixo, garrido e cálido, como um rapaz de vinte anos. Grande sol, quando esfriarás tu? em que século apagarás o facho com que andas pela escuridão do infinito? Talvez a Terra já não exista, com todas as suas cidades, policiadas ou não.

Um amigo meu teve um roubo em casa, um cofre de jóias. Quando, ignoro; pode ter sido agora, pode ter sido antes de 13 de maio, antes da guerra do Paraguai, antes da guerra dos Farrapos, antes da guerra de Tróia. Afinal, que valem datas! Suponhamos que é da ópera:

C’est à la cour du roi Henri, Messieurs, que se passait ceci.

Furtadas as jóias, o meu amigo conseguiu dar com elas, dentro do cofre, e o cofre escondido em uma chácara à espera talvez da noite seguinte, para poder ser levado, com o grande peso que tinha. Já estava aberto, com dois relógios de menos. No trabalho a que ele se deu foi acompanhado por uma praça de polícia, a fim de capturar o ladrão, se fosse achado; mas o ladrão não apareceu.

Este meu amigo é advogado. Qualquer profano, descoberto o cofre, levá-lo-ia para casa, dando graças a Deus por só haver perdido os relógios. O meu amigo, antes de tudo cuidou no corpo de delito. Fez-me lembrar aquele coronel inglês, Melvil, que ao saber dos ferimentos do irmão da bela Colomba, admira-se de não terem ainda apresentado queixa e um magistrado. “Falara do inquérito pelo coroner e de muitas outras coisas desconhecidas na Córsega”, narra finalmente Mérimée. O meu amigo queria por força que se fizesse corpo de delito, e foi à polícia uma vez, duas, três, penso que quatro, mas não afirmo. O intervalo foi sempre, mais ou menos, de duas horas; mas não achou nunca autoridade disponível. Não era preciso ouvir que voltasse depois; ele voltaria, ele voltou e (vede o prêmio da tenacidade!) tanto voltou que achou uma. Então contou-lhe o caso, e acabou pedindo corpo de delito.

— Bem, responderam-lhe; vai-se fazer, mas onde está o ferido?

A alma do meu amigo não lhe caiu ao chão, porque ele, depois de tantas idas e vindas, já não tinha alma. Perdeu a fala, isso sim; não soube que responder. Essa noção tão particular do corpo de delito fez voltar ao coração todas as belas coisas que preparara. Para ser exato, não afirmo que saísse calado; pode ser que afinal apresentasse algumas explicações, vagas, tortas, vexadas, apenas suspiradas, ao canto da boca. E tornou para casa, dando mentalmente os dois relógios ao ladrão, para que ele não fosse para o inferno com esse pecado às costas; irá com outros. Enfim, o meu amigo quis gratificar a praça que o acompanhou nas pesquisas; a praça recusou, dizendo haver estado ali cumprindo a sua obrigação. Eis aí uma boa nota policial, e não faltarão outras, como a do assalto às tavolagens, em que nunca as mãos lhe doam.

E a conclusão? A conclusão é que nem todas as palavras têm o mesmo eco em todas as cabeças, e há muitas noções diversas para um só e triste vocábulo. Ergo bigamus.

27 de dezembro

Leitor, aproveitemos esta rara ocasião que os deuses nos deparam. Só dois fôlegos vivos não são candidatos ao governo da cidade, tu e eu. E ainda assim não respondo por ti; neste século de maravilhas pode dar-se que um candidato tenha alma bastante para ler, ao café, uma coluna de sensaborias, e ir depois pleitear a palma de combate. Tudo é possível. Já se vêem ossos através da carne; dizem que Édison medita dar vista aos cegos. É o que faz na Bahia, sem outro instrumento mais que a sugestão, o nosso grande taumaturgo Antônio Conselheiro.

Mas em que é que aproveitaremos esta ocasião rara? Em dizer das letras e da poesia. Aqui temos Valentim Magalhães com o romance Flor de Sangue; aqui temos Lúcio de Mendonça, com as Canções do Outono. Iremos votar, decerto, tu e eu, mas há de ser depois de me haveres lido e bebido a chávena de café. O meu título de eleitor não é dos que ficara devolutos para um cidadão anônimo pegasse deles e os oferecesse a outros. Francamente, como é que esse cavalheiro não viu que não se fazem distribuições tais senão a pessoas seguras, já apalavradas, de olho fino? Em que estava pensando quando entregou os títulos a desconhecidos que o foram denunciar? Não é que eu condene o ato. Um dos eleitores defraudados confessou que não vota há muitos anos. Pois se não vota, como é que admira de que lhe tirem o título? A verdadeira teoria política é que não há eleitores, há títulos. Um eleitor que é? Um simples homem, não diverso de outro homem que não seja eleitor; a mesma figura, os mesmos órgãos, as mesmas necessidades, a mesma origem, o mesmo destino; às vezes, o mesmo alfaiate; outras, a mesma dama. Que é que os faz diferentes? Esse pedaço de papel que leva em si um pedaço de soberania. O homem pode ser banqueiro, agricultor, operário, comerciante, advogado, médico, pode ser tudo; eleitoralmente é como se não existisse: sem título de eleitor, não é eleitor.

Ora bem, dada a abstenção, descuido, esquecimento ou ignorância da parte dos donos dos títulos, devem ou podem estes papéis, estes direitos incorporados ficar como terrenos baldios, sem a cultura do voto? É claro que não. Uma lei de desapropriação com processo sumário que tirasse o título de eleitor remisso, três dias antes da votação, e o desse a quem mais desse, seria a forma legal de restituir àquele papel os seus efeitos. Mas, porque não temos uma lei dessas, devemos tratar direitos políticos, direitos constitucionais, como se fossem o lixo das praias, o capim das calçadas ou o palmo de pó que enche todas essas ruas, e que o vento, a carroça, o pé da besta levantam, que entra pelos nossos pulmões, cega-nos, suja-nos, irrita-nos, faz-nos mandar ao diabo o município e o seu governo? Não; seria quase um crime.

Portanto, o erro da pessoa que andou a oferecer títulos alheios foi a inabilidade. Alguns querem que o cidadão induzido a votar por outro, esteja a meio caminho de furtar um par de botas. É um erro; se o fato de votar por outro levasse alguém ao latrocínio, esta arte estaria em outro pé; ora, é sabido que não a pode haver mais rudimentária ou mais decadente. Já não há testamentos falsos. Salvo algum peculato, desfalque ou coisa assim, a maior parte dos roubos são verdadeiras misérias. Pouca audácia, nenhuma originalidade. Talvez por isso, mal os jornais dão notícia de um delito desses, o esquecimento absorve o criminoso. Não imprimam absolve; quem absolve é o júri, no caso de haver processo; eu digo que

o esquecimento absorve o criminoso, no sentido de se não falar mais nisso.

Mas deixemos criminologias e venhamos aos dois livros da quinzena. A Flor de Sangue pode dizer-se que é o sucesso do dia. Ninguém ignora que Valentim Magalhães é dos mais ativos espíritos da sua geração. Tem sido jornalista, cronista, contista, crítico, poeta, e, quando preciso, orador. Há vinte anos que escreve, dispersando-se por vários gêneros, com igual ardor e curiosidade. Quem sabe? Pode ser que a política o atraia também, e iremos vê-lo na tribuna, como no jornalismo, em atitude de combate, que é um dos característicos do seu estilo. Naturalmente nem tudo o que escreveu terá o mesmo valor. Quem compõe muito e sempre, deixa páginas somenos; mas é já grande vantagem dispor da facilidade de produção e do gosto de produzir.

Pelo que confessa no prefácio, Valentim Magalhães escreveu este romance para fazer uma obra de fôlego e satisfazer assim a crítica. No fim do prefácio, referindo-se ao romance e ao poema, como as duas principais formas literárias, conclui: “Tudo o mais, contos, odes, sonetos, peças teatrais são matizes, variações, gradações; motivos musicais, apenas porque as óperas são só eles”. Este juízo é por demais sumário e não é de todo verdadeiro. Parece-me erro pôr assim tão embaixo Otelo e Tartufo. Os sonetos de Petrarca formam uma bonita ópera. E Musset? Quantas obras de fôlego se escreveram no seu tempo que não valem as Noites e toda a juventude de seus versos, entre eles este, que vem ao nosso caso:

Mon verre n’est pas grand, mais je bois dans mon verre.

Taça pequena, mas de ouro fino, cheia de vinho puro, vinho de todas as uvas, gaulesa, espanhola, italiana e grega, com que ele se embriagou a si e ao seu século, e aí vai embriagar o século que desponta. Quanto às ficções em prosa, conto, novela, romance, não parece justo desterrar as de menores dimensões. Clarisse Harlowe tem um fôlego de oito volumes. Taine crê que poucos suportam hoje esse romance. Poucos é muito: eu acho que raros. Mas o mesmo Taine prevê que no ano 2000 ainda se lerá Partida de Gamão, uma novelinha de trinta páginas; e, falando das outras narrativas do autor de Carmem, todas de escasso tomo, faz esta observação verdadeira: “É que são construídas com pedras escolhidas, não com estuque e outros materiais da moda”.

Este é o ponto. Tudo é que as obras sejam feitas com o fôlego próprio de cada um, e com materiais que resistam. Que Valentim Magalhães pode compor obras de maior fôlego, é certo. Na Flor de Sangue o que o prejudicou foi querer fazer longo e depressa. A ação, aliás vulgar, não dava para tanto; mal chegaria a metade. Há muita coisa parasita, muita repetida, e muita que não valia a pena trazer da vida ao livro. Quanto à pressa, a que o autor nobremente atribui os defeitos de estilo e linguagem, é causa ainda de outras imperfeições. A maior destas é a psicologia do Dr. Paulino. O autor espiritualiza à vontade um homem que, a não ser a sua palavra, dá apenas a impressão do lúbrico; e não há admitir que, depois da temporada de adultério, ele se mate por motivos de tanta elevação nem ainda por supor não ser amado. Não tenho espaço para outros lances inadmissíveis, como a ida de Corina à casa da Rua de Santo Antônio (pág. 141). Os costumes não estão conservados. Já Lúcio Mendonça contestou que tal vida fosse a da nossa sociedade. O erotismo domina mais do que se devera esperar, ainda dado o plano do livro.

Não insisto; aí fica o bastante para mostrar o apreço em que tenho o talento de Valentim Magalhães, dizendo-lhe alguma coisa do que me parece bom e menos bom na Flor de Sangue. Que há no livro certo movimento, é fora de dúvida; e esta qualidade em romancista vale muito. Verdadeiramente os defeitos principais deste romance são dos que a vontade do autor pode corrigir nas outras obras que nos der, e que lhe peço sejam feitas sem nenhuma idéia de grande fôlego. Cada concepção traz virtualmente as proporções devidas; não se porá M. Bovary nas cem páginas de Adolfo, nem um conto de Voltaire nos volumes compactos de George Eliot.

Para que Valentim Magalhães veja bem a nota assaz aguda que deu a algumas partes da Flor de Sangue, leia o prefácio de Araripe Júnior nas Canções do Outono, comparado com o livro de Lúcio de Mendonça. O valente crítico fala longamente do amor, e sem biocos, pela doutrina que vai além de Mantegazza, segundo ele mesmo expõe; e definido o poeta das Canções do Outono, fala de um ou outro toque de sensualidade que se possa achar nos seus versos. Entretanto, é bem difícil ver no livro de Lúcio de Mendonça coisa que se possa dizer sensual. O Ideal é o título da primeira composição; ele amará em outras páginas com o ardor próprio da juventude; mas as sensações são apenas indicadas. Basta lembrar que

o livro (magnificamente impresso em Coimbra) é dedicado por ele à esposa, então noiva.

Vários são os versos deste volume, de vária data e vária inspiração. Não saem da pasta do poeta, para a luz do dia, como segredos guardados, até agora; são recolhidos de jornais e revistas, por onde Lúcio de Mendonça os foi deixando. O mérito não é igual em todos; a Flor do Ipê, a Tapera, a Ave-Maria, para só citar três páginas, são melhor inspiradas e bem compostas que outras, — versos de ocasião. Há também traduções feitas com apuro. Por que fatalidade acho aqui vertido em nossa língua o soneto Analyse, de Richepin? Nunca pude ir com esta página do autor de Fleurs du Mal. Essa análise da lágrima, que só deixa no crisol água, sal, soda, muco e fosfato de cal, em que é que diminui a intensidade ou altera a espiritualidade dos sentimentos que a produzem? É o próprio poeta que, na Charogne, anunciando à amante que será cadáver um dia, canta as suas emoções passadas:

Alors, ô ma beauté! dites à la vermine Qui vous mangera de baisers, Que j'ai gardé la forme et l’essence divine De mes amours décomposés!

Pois a lágrima é isso, é a essência divina, seja da dor, seja do prazer, seja ainda da cólera das pobres criaturas humanas. Felizmente, no mesmo volume o poeta nos dá a tradução do famoso soneto de Arvers e de outras composições de mérito. Eu ainda não disse que tive o gosto de prefaciar o primeiro volume de Lúcio de Mendonça, e não o disse, não só para falar de mim, — que é mau costume, — mas para não dar razão aos que me argúem de entrar pelo inverno da vida. Em verdade, esse rapaz, que eu vi balbuciar os primeiros cantos, é hoje magistrado e alto magistrado, e o tempo não terá andado só para ele. Mas isso mesmo me faz relembrar aquela circunstância. Ei-nos aqui os dois, após tantos anos, sem haver descrido das letras, e achando nelas um pouco de descanso e um pouco de consolo. Muita coisa passou depois das Névoas Matutinas; não passou a fé nas musas, e basta.


* * *




Machado de Assis - Crônica - Links para os Livros

Conteúdo correspondente: