Augusto dos Anjos - 019 - Último credo





Augusto dos Anjos - 019 - Último credo


Como ama o homem adúltero o adultério

E o ébrio a garrafa tóxica de rum,

Amo o coveiro — este ladrão comum

Que arrasta a gente para o cemitério!


É o transcendentalíssimo mistério!

É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,

É a morte, é esse danado número Um

Que matou Cristo e que matou Tibério!


Creio, como o filósofo mais crente,

Na generalidade decrescente

Com que a substância cósmica evolui...


Creio, perante a evolução imensa,

Que o homem universal de amanhã vença

O homem particular que eu ontem fui!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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