Augusto dos Anjos - 024 - Insânia de um simples





Augusto dos Anjos - 024 - Insânia de um simples


Em cismas patológicas insanas,

É-me grato adstringir-me, na hierarquia

Das formas vivas, à categoria

Das organizações liliputianas;


Ser semelhante aos zoófitos e às lianas,

Ter o destino de uma larva fria,

Deixar enfim na cloaca mais sombria

Este feixe de células humanas!


E enquanto arremedando Eolo iracundo,

Na orgia heliogabálica do mundo,

Ganem todos os vícios de uma vez,


Apraz-me, adstrito ao triângulo mesquinho

De um delta humilde, apodrecer sozinho

No silêncio de minha pequenez!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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