Augusto dos Anjos - 027 - Uma noite no Cairo





Augusto dos Anjos - 027 - Uma noite no Cairo


Noite no Egito. O céu claro e profundo

Fulgura. A rua é triste. A Lua Cheia

Está sinistra, e sobre a paz do mundo

A alma dos Faraós anda e vagueia.


Os mastins negros vão ladrando à lua...

O Cairo é de uma formosura arcaica.

No ângulo mais recôndito da rua

Passa cantando uma mulher hebraica.


O Egito é sempre assim quando anoitece!

Às vezes, das pirâmides o quedo

E atro perfil, exposto ao luar, parece

Uma sombria interjeição de medo!


Como um contraste àqueles misereres,

Num quiosque em festa alegre turba grita

E dentro dançam homens e mulheres

Numa aglomeração cosmopolita.


Tonto de vinho, um saltimbanco da Ásia,

Convulso e roto, no apogeu da fúria,

Executando evoluções de razzia

Solta um brado epilético de injúria!


Em derredor duma ampla mesa preta

— Última nota do conúbio infando —

Vêem-se dez jogadores de roleta

Fumando, discutindo, conversando.


Resplandece a celeste superfície.

Dorme soturna a natureza sábia...

Embaixo, na mais próxima planície,

Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.


Vaga no espaço um silfo solitário.

Troam kinnors! Depois tudo é tranqüilo...

Apenas como um velho estradivário,

Soluça toda a noite a água do Nilo!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 027 - Uma noite no Cairo

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