Augusto dos Anjos - 044 - Alucinação à beira-mar





Augusto dos Anjos - 044 - Alucinação à beira-mar


Um medo de morrer meus pés esfriava.

Noite alta. Ante o telúrico recorte,

Na diuturna discórdia, a equórea coorte

Atordoadoramente ribombava!


Eu, ególatra céptico, cismava

Em meu destino!... O vento estava forte

E aquela matemática da Morte

Com os seus números negros, me assombrava!


Mas a alga usufrutuária dos oceanos

E os malacopterígios subraquianos

Que um castigo de espécie emudeceu,


No eterno horror das convulsões marítimas,

Pareciam também corpos de vítimas

Condenadas à Morte, assim como eu!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 044 - Alucinação à beira-mar

Conteúdo correspondente: