Augusto dos Anjos - 060 - Apóstrofe à carne





Augusto dos Anjos - 060 - Apóstrofe à carne


Quando eu pego nas carnes do meu rosto

Pressinto o fim da orgânica batalha:

-- Olhos que o húmus necrófago estracalha,

Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...


E o Homem -- negro heteróclito composto,

Onde a alva flama psíquica trabalha.

Desagrega-se e deixa na mortalha

O tato, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!


Carne, feixe de mônadas bastardas.

Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,

A dardejar relampejantes brilhos.


Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,

Em tua podridão a herança horrenda,

Que eu tenho de deixar para os meus filhos!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 060 - Apóstrofe à carne

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