Augusto dos Anjos - 086 - Minha árvore





Augusto dos Anjos - 086 - Minha árvore


Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada!

Como que a erva tem dor... Roem-na amarguras

Talvez humanas, e entre rochas duras

Mostra ao Cosmos a face degradada!


Entre os pedrouços maus dessa morada

É que, às apalpadelas e às escuras,

Hão de encontrar as gerações futuras

Só, minha árvore humana desfolhada!


Mulher nenhuma afagará meu tronco!

Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco

Do furacão que, rábido, remoinha...


Folhas e frutos, sobre a terra ardente

Hão de encher outras árvores! Somente

Minha desgraça há de ficar sozinha!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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