Augusto dos Anjos - 087 - Anseio





Augusto dos Anjos - 087 - Anseio


Quem sou eu, neste ergástulo das vidas

Danadamente, a soluçar de dor?!

-- Trinta trilhões de células vencidas,

Nutrindo uma efeméride interior.


Branda, entanto, a afagar tantas feridas,

A áurea mão taumatúrgica do Amor

Traça, nas minhas formas carcomidas,

A estrutura de um mundo superior!


Alta noite, esse mundo incoerente

Essa elementaríssima semente

Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal...


Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,

E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto

Não poder dar-lhe vida material!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 087 - Anseio

Conteúdo correspondente: