Augusto dos Anjos - 089 - Mãos





Augusto dos Anjos - 089 - Mãos


Há mãos que fazem medo

Feias agregaçõs pentagonais,

Umas, em sangue, a delinqüentes natos,

Assinalados pelo mancinismo,


Pertencentes talvez...

Outras, negras, a farpas de rochedo

Completamente iguais...

Mãos de linhas análogas e anfratos


Que a Natureza onicriadora fez

Em contraposição e antagonismo

Às da estrela, às da neve, às dos cristais.

Mãos que adquiriram olhos, pituitárias


Olfativas, tentáculos sutis,

E à noite, vão cheirar, quebrando portas

O azul gasofiláceo silencioso

Dos tálamos cristãos.


Mãos adúlteras, mãos mais sangüinárias

E estupradoras do que os bisturis

Cortando a carne em flor das crianças mortas.

Monstruosíssimas mãos,

Que apalpam e olham com lascívia e gozo

A pureza dos corpos infantis.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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