Augusto dos Anjos - 101 - Vox victimae





Augusto dos Anjos - 101 - Vox victimae


Morto! Consciência quieta haja o assassino

Que me acabou, dando-me ao corpo vão

Esta volúpia de ficar no chão

Fruindo na tabidez sabor divino!


Espiando o meu cadáver ressupino,

No mar da humana proliferação,

Outras cabe;as aparecerão

Para compartilhar do meu destino!


Na festa genetlíaca do Nada,

Abraço-me com a terra atormentada

Em contubérnio convulsionador...


E ai! Como é boa esta volúpia obscura

Que une os ossos cansados da criatura

Ao corpo ubiqüitário do Criador!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 101 - Vox victimae

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