Augusto dos Anjos - 107 - Soneto





Augusto dos Anjos - 107 - Soneto


N’augusta solidão dos cemitérios,

Resvalando nas sombras dos ciprestes,

Passam meus sonhos sepultados nestes

Brancos sepulcros, pálidos, funéreos.


São minhas crenças divinais, ardentes

-- Alvos fantasmas pelos merencórios

Túmulos tristes, soturnais, silentes,

Hoje rolando nos umbrais marmóreos,


Quando da vida, no eternal soluço,

Eu choro e gemo e triste me debruço

Na laje fria dos meus sonhos pulcros,


Desliza então a lúgubre cooorte.

E rompe a orquestra sepulcral da morte,

Quebrando a paz suprema dos sepulcros.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 107 - Soneto

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