Augusto dos Anjos - 109 - Soneto





Augusto dos Anjos - 109 - Soneto


No meu peito arde em chamas abrasada

A pira da vingança reprimida,

E em centelhas de raiva ensurdecida

A vingança suprema e concentrada


E espuma e ruge a cólera entranhada,

Como no mar a vaga embravecida

Vai bater-se na rocha empedernida,

Espumando e rugindo em marulhada


Mas se das minhas dores ao calvário,

Eu subo na altitude dolorida

De um Cristo a redimir um mundo vário,


Em luta co’a natura sempiterna,

Já que do mundo não vinguei-me em vida,

A morte me será vingança eterna.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 109 - Soneto

Conteúdo correspondente: