Augusto dos Anjos - 114 - A esmola de Dulce





Augusto dos Anjos - 114 - A esmola de Dulce


Ao Alfredo A.


E todo o dia eu vou como um perdido

De dor, por entre a dolorosa estrada,

Pedir a Dulce, a minha bem amada

A esmola dum carinho apetecido.


E ela fita-me, o olhar enlanguescido,

E eu balbucio trêmula balada:

-- Senhora dai-me u’ma esmola -- e estertorada

A minha voz soluça num gemido.


Morre-me a voz, e eu gemo o último arpejo,

Estendendo à Dulce a mão, a fé perdida,

E dos lábios de Dulce cai um beijo.


Depois, como este beijo me consola!

Bendita seja a Dulce! A minha vida

Estava unicamente nessa esmola.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 114 - A esmola de Dulce

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