Augusto dos Anjos - 115 - Soneto





Augusto dos Anjos - 115 - Soneto


Gênio das trevas lúgubres, acolhe-me,

Leva-me o esp’rito dessa luz que mata,

E a alma me ofusca e o peito me maltrata,

E o viver calmo e sossegado tolhe-me!


Leva-me, obumbra-me em teu seio, acolhe-me

N’asa da Morte redentora, e à ingrata

Luz deste mundo em breve me arrebata

E num pallium de tênebras recolhe-me!


Aqui há muita luz e muita aurora,

Há perfumes d’amor -- venenos d’alma --

E eu busco a plaga onde o repouso mora,


E as trevas moram, e, onde d’água raso

O olhar não trago, nem me turba a calma

A aurora deste amor que é o meu ocaso!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 115 - Soneto

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