Augusto dos Anjos - 116 - O mar





Augusto dos Anjos - 116 - O mar


O mar é triste como um cemitério;

Cada rocha é uma eterna sepultura

Banhada pela imácula brancura

De ondas chorando num alvor etéreo.


Ah! dessas vagas no bramir funéreo

Jamais vibrou a sinfonia pura

Do Amor; lá, só descanta, dentre a escura

Treva do oceano, a voz do meu saltério!


Quando a cândida espuma dessas vagas,

Banhando a fria solidão das fragas,

Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma,


Reflete a luz do sol que já não arde,

Treme na treva a púrpura da tarde,

Chora a Saudade envolta nesta espuma!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 116 - O mar

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