Augusto dos Anjos - 117 - Soneto





Augusto dos Anjos - 117 - Soneto


Aurora morta, foge! Eu busco a virgem loura

Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte

E Ela era a minha estrela, o meu único Norte,

O grande Sol de afeto -- o Sol que as almas doura!


Fugiu... E em si levou a Luz consoladora

Do amor -- esse clarão eterno d’alma forte --

Astro da minha Paz, Sírius da minha Sorte

E da Noite da vida a Vênus redentora.


Agora, oh! minha Mágoa, agita as tuas asas,

Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas

E, num pálio auroral de Luz deslumbradora,


Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro,

Dia do meu Passado! Irrompe, meu Futuro;

Aurora morta, foge -- eu busco a virgem loura!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 117 - Soneto

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