Augusto dos Anjos - 119 - Cravo de noiva





Augusto dos Anjos - 119 - Cravo de noiva


Ao Dias Paredes


Cravo de noiva. A nívea cor de cera

Que o seu seio branqueja, é como os prantos

Níveos, que a virgem chora, entre os encantos

Dum noivado risonho em primavera.


Flor de mistérios d’alma, sacrossantos,

Guarda segredos divinais que eu dera

Duas vidas, se duas eu tivera

Pra desvendar os seus segredos santos.


E tudo quer que nessa flor se enleve

O poeta. É que dessa concha armínea,

Da lactescência angélica da neve,


Se evolam castos, virginais aromas

De essência estranha; olências de virgínea

Carne fremindo num langor de pomas.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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