Augusto dos Anjos - 120 - Plenilúnio





Augusto dos Anjos - 120 - Plenilúnio


Desmaia o plenilúnio. A gaze pálida

Que lhe serve de alvíssimo sudário

Respira essências raras, toda a cáida

Mística essência desse alampadário.


E a lua é como um pálido sacrário,

Onde as almas das virgens em crisálida

De seios alvos e de fronte pálida,

Derramam a urna dum perfume vário.


Voga a lua na etérea imensidade!

Ela, eterna noctâmbula do Amor,

Eu, noctâmbulo da Dor e da Saudade.


Ah! Como a branca e merencória lua,

Também envolta num sudário -- a Dor,

Minh’alma triste pelos céus flutua!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 120 - Plenilúnio

Conteúdo correspondente: