Augusto dos Anjos - 123 - Afetos





Augusto dos Anjos - 123 - Afetos


Bendito o amor que infiltra n’alma o enleio

E santifica da existência o cado,

-- Amor que é mirra e que é sagrado nardo,

Turificando a languidez dum seio!


O amor, porém, que da Desgraça veio

Maldito seja, seja como o fardo

Desta descrença funeral em que ardo

E com que o fogo da paixão ateio!


Funambulescamente a alma se atira

À luta das paixões, e, como a Aurora

Que ao beijo vesperal anseia e expira,


Desce para a alma o ocaso da Carícia

Ora em sonhos de Dor, supremos, e ora

Em contorções supremas de Delícia!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 123 - Afetos

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