Augusto dos Anjos - 126 - Martir da fome





Augusto dos Anjos - 126 - Martir da fome


Nesta da vida lúgubre caverna

De ossos e frios funerais que eu sinto

Como um chacal saciando o eterno instinto

Vou saciando a minha Fome Eterna.


-- Fomoe de sangue de um Passado extinto,

De extintas crenças -- bacanal superna,

Horrível assim como a Hidra de Lerna

E muda como o bronze de Corinto!


Ânsias de sonhos, desespero fundo!

E a alma que sonha no marnel do Mundo,

Morre de Fome pelas noites belas...


E como o Cristo -- o Mártir do Calvário

Morre. E no entanto vai para o estelário

Matar a Fome num festim de estrelas!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 126 - Martir da fome

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