Augusto dos Anjos - 128 - Noturno





Augusto dos Anjos - 128 - Noturno


Chove. Lá fora os lampiões escuros

Semelham monjas a morrer... Os ventos,

Desencadeados, vão bater, violentos,

De encontro às torres e de encontro aos muros.


Saio de casa. Os passos mal seguros

Trêmulo movo, mas meus movimentos

Susto, diante do vulto dos conventos,

Negro, ameaçando os séculos futuros!


De São Francisco no plangente bronze

Em badaladas compassadas onze

Horas soaram... Surge agora a Lua.


E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos

Enquanto a chuva cai nos cemitérios

E o vento apaga os lampiões da rua!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 128 - Noturno

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