Augusto dos Anjos - 131 - Senectude precoce





Augusto dos Anjos - 131 - Senectude precoce


Envelheci. A cal da sepultura

Caiu por sobre a minha mocidade...

E eu que julgava em minha idealidade

Ver inda toda a geração futura!


Eu que julgava! Pois não é verdade?!

Hoje estou velho. Olha essa neve pura!

-- Foi saudade? Foi dor? -- Foi tanta agrura

Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade!


Sei que durante toda a travessia

Da minha infância trágica, vivia,

Assim como uma casa abandonada.


Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas...

Sei que na infância nunca tive auroras,

E afora disto, eu já nem sei mais nada!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 131 - Senectude precoce

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