Augusto dos Anjos - 134 - Ilusão





Augusto dos Anjos - 134 - Ilusão


Dizes que sou feliz. Não mentes. Dizes

Tudo que sentes. A infelicidade

Parece às vezes com a felicidade

E os infelizes mostram ser felizes!


Assim, em Tebas -- a tumbal cidade,

A múmia de um herói do tempo de Ísis,

Ostenta ainda as mesmas cicatrizes

Que eternizaram sua heroicidade!


Quem vê o herói, inda com o braço altivo,

Diz que ele não morreu, diz que ele é vivo,

E, persuadido fica do que diz...


Bem como tu, que nessa crença infinda

Feliz me viste no Passado, e a inda

Te persuades de que sou feliz!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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