Augusto dos Anjos - 136 - Dolências





Augusto dos Anjos - 136 - Dolências


Oh! Lua morta de minha vida,

Os sonhos meus

Em vão te buscam, andas perdida

E eu ando em busca dos rastos teus...


Vago sem crenças, vagas sem norte,

Cheia de brumas e enegrecida,

Ah! Se morreste pra minha vida!

Vive, consolo de minha morte!


Baixa, portanto, coração ermo

De lua fria

À plaga triste, plaga sombria

Dessa dor lenta que não tem termo.


Tu que tombaste no caos extremo

Da Noite imensa do meu Passado,

Sabes da angústia do torturado...

Ah! Tu bem sabes por que é que eu gemo!


Instilo mágoas saudoso, e enquanto

Planto saudades num campo morto,

Ninguém ao menos dá-me um conforto,

Um só ao menos! E no entretanto


Ninguém me chora! Ah! Se eu tombar

Cedo na lida...

Oh! Lua fria vem me chorar

Oh! Lua morta da minha vida!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 136 - Dolências

Conteúdo correspondente: