Augusto dos Anjos - 138 - A vitória do espírito





Augusto dos Anjos - 138 - A vitória do espírito


Era uma preta, funeral mesquita,

Abandonada aos lobos e aos leopardos

Numa floresta lúgubre e esquisita.

Engalanava-lhe as paredes frias

Uma coroa de urzes e de cardos

Coberta em pálio pelas laçarias.

Uma vez, aos lampejos derradeiros

Das irisadas vespertinas velas,


Feras rompiam tojos e balseiros.

E pelas catacumbas desprezadas,

Mochos vagavam como sentinelas,

Em atalaia às gerações passadas!

Um crepúsculo imenso, nunca visto

Tauxiava o Céu de grandes roxos

Da mesma cor da túnica de Cristo.

Fulgia em tudo uma estriação violeta


E um violáceo clarão banhava os mochos

Quem em torno estavam da mesquita preta.

Já na eminência da amplidão sidérea

Como uma umbela, se desenrolava

A esteira astral da retração etérea.

Os astros mortos refulgiam vivos

E a noite, ampla e brilhante, rutilava

Lantejoulada de opalinos crivos.


Súbito alguém, o passo constrangendo,

Parou em frente da mesquita morta...

-- Um vento frio começou gemendo.

Era uma viúva, e o olhar errante, a viúva,

Em passo lento, foi transpondo a porta,

Eternamente aberta ao sol e à chuva.

A Lua encheu o espaço sem limites

E, dentro, nos altares esboroados,


Foram caindo como estalactites.

Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas

Um dilúvio de fósforos prateados

E uma chuva doirada de faíscas.

Fora, entretanto, por um chão de onagras

Vinha passeando como numa viagem

Um grupo feio de panteras magras.

E havia no atro olhar dessas panteras


Essa alegria doida da carnagem

Que é a alegria única das feras.

E ardendo na impulsão das ânsias doidas

E em sevas fúrias, infernais ardendo

Todas as feras, as panteras todas

Avançam para a viúva desvalida.

E raivosas, contra ela, arremetendo,

Tiram-lhe todas ali mesmo a vida.


Morria a noite. As flâmulas altivas

Do sol nascente erguiam-se vermelhas,

Comouma exposição de carnes vivas.

E iam cair em pérolas de sangue

Sobre as asas doiradas das abelhas,

E sobre o corpo da viúva exangue.

A Natureza celebrava a festa

Do astro glorioso em cantos e baladas


-- O próprio Deus cantava na floresta!

Nos arvoredos rejuvenescidos,

Estrugiam canções desesperadas

De misereres e de sustenidos.

Além, entanto, na redoma clara

Que envolve a porta da região etérea,

O espírito da viúva se quedara

Ao contemplar dessa fulgente porta

E dessa clara e alva redoma aérea,

No desfilar de sua carne morta

A transitoriedade da matéria!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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