Augusto dos Anjos - 140 - A luva





Augusto dos Anjos - 140 - A luva


Para o Augusto Belmont

Pansa na glória! Arfa-lhe o peito, opresso.

-- O pensamento é uma locomotiva --

Tem a grandeza duma força viva

Correndo sem cessar para o Progresso.

Que importa que, contra ele, horrendo e preto

O áspide bjeto do Pesar se mova!...

E só, no quadrilátero da alcova,


Vem-lhe à imaginação este soneto:

“A princípio escrevia simplesmente

Para entreter o espírito... Escrevia

Mais por impulso de idiossincrasia

Do que por uma propulsão consciente.

Entendi, depois disso, que devia,

Como Vulcano, sobre a forja ardente

Da Ilha de Lemnos, trabalhar contente,


Durante as vinte e quatro horas do dia!

Riam de mim, os monstros zombeteiros,

Trabalharei assim dias inteiros,

Sem ter uma alma só que me idolatre...

Tenha a sorte de Cícero proscrito

Ou morra embora, trágico e maldito,

Como Camões morrendo sobre um catre!”

Nisto, abre, em ânsias, a tumbal janela


E diz, olhando o céu que além se expande:

“-- A maldade do mundo é muito grande,

Mas meu orgulho ainda é maior do que ela!

Ruja a boca danada da profana

Coorte dos homens, com o seu grande grito,

Que meu orgulho do alto do Infinito

Suplantará a própria espécie humana!

Quebro montanhas e aos tufões resisto


Numa absoluta impassibilidade”,

E como um desafio à eternidade

Atira a luva para o próprio Cristo!

Chove. Sobre a cidade geme a chuva,

Batem-lhe os nervos, sacudindo-o todo,

E na suprema convulsão o doudo

Parece aos astros atirar a luva!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 140 - A luva

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