Augusto dos Anjos - 142 - Abandonada





Augusto dos Anjos - 142 - Abandonada


Bem depressa sumiu-se a vaporosa

Nuvem de amores, de ilusões tão bela;

O brilho se pagou daquela estrela

Que a vida lhe tornava venturosa!


Sombras que passam, sombras cor-de-rosa

-- Todas se foram num festivo bando,

Fugazes sonhos, gárrulos voando

-- Resta somente um’alma tristurosa.


Coitada! o gozo lhe fugiu correndo,

Hoje ela habita a erma soledade,

Em que vive e em que aos poucos vai morrendo!


Seu rosto triste, seu olhar magoado,

Fazem lembrar em noute de saudade

A luz mortiça d’um olhar nublado.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 142 - Abandonada

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