Augusto dos Anjos - 143 - Ceticismo





Augusto dos Anjos - 143 - Ceticismo


Desci um dia ao tenebroso abismo,

Onde a Dúvida ergueu altar profano;

Cansado de lutar no mundo insano

Fraco que sou volvi ao ceticismo.


Da Igreja -- a Grande Mãe -- o exorcismo

Terrível me feriu, e então sereno

De joelhos aos pés do Nazareno

Baixo rezei em fundo misticismo:


-- Oh! Deus, eu creio em ti, mas me perdoa!

Se esta dúvida cruel qual me magoa

Me torna ínfimo, desgraçado réu.


Ah, entre o medo que o meu ser aterra,

Não sei se viva pra morrer na terra,

Não sei se morra p’ra viver no céu!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 143 - Ceticismo

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