Augusto dos Anjos - 146 - Pecadora





Augusto dos Anjos - 146 - Pecadora


Tinha no olhar cetíneo, aveludado,

A chama cruel que arrasta os corações,

Os seios rijos eram dois brasões

Onde fulgia o simb’lo do pecado.


Bela, divina, o porte emoldurado

No mármore sublime dos contornos,

Os seios brancos, palpitantes, mornos,

Dançavam-lhe no colo perfumado.


No entanto, esta mulher de grã beleza,

Moldada pela mão da Natureza,

Tornou-se a pecadora vil. Do fado


Do destino fatal, presa, morria,

Uma noite entre as vascas da agonia,

Tendo no corpo o verme do pecado!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 146 - Pecadora

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