Augusto dos Anjos - 152 - Soneto





Augusto dos Anjos - 152 - Soneto


Senhora, eu trajo o luto do Passado,

Este luto sem fim que é o meu Calvário

E ansio e choro, delirante e vário,

Sonâmbulo da dor angustiado.


Quantas venturas que me acalentaram!

Meu peito túm’lo do prazer finado

Foi outrora do riso abençoado,

O berço onde as venturas se embalaram.


Mas não queiras saber nunca risonha

O mistério d’um peito que estertora

E o segredo d’um’alma que não sonha!


Não, não busques saber porque, Senhora,

É minha sina perenal, tristonha

-- Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 152 - Soneto

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