Augusto dos Anjos - 153 - Sofredora





Augusto dos Anjos - 153 - Sofredora


Cobre-lhe a fria palidez do rosto

O sendal da tristeza que a desola;

Chora -- o orvalho do pranto lhe perola

As faces maceradas de desgosto.


Quando o rosário de seu pranto rola,

Das brancas rosas do seu triste rosto

Que rolam murchas como um sol já posto

Um perfume de lágrimas se evola.


Tenta às vezes, porém, nervosa e louca

Esquecer por momento a mágoa intensa

Arrancando um sorriso à flor da boca.


Mas volta logo um negro desconforto,

Bela na Dor, sublime na Descrença,

Como Jesus a soluçar no Horto.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 153 - Sofredora

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