Augusto dos Anjos - 158 - Soneto





Augusto dos Anjos - 158 - Soneto


Na rua em funeral ei-la que passa

A romaria eterna dos aflitos,

A procissão dos tristes, dos proscritos,

Dos romeiros saudosos da desgraça.


E na choça a lamúria que traspassa

O coração, além, ânsias e gritos

De mães que arquejam sobre os pobrezitos

Filhos que a fome derrubou na praça.


Entre todos, porém, lânguida e bela,

Da juventude a virginal capela

A lhe cingir de luz a fronte baça,


Vai Corina mendiga e esfarrapada,

A alma saudosa pelo amor vibrada

-- A Stella Matutina da Desgraça.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 158 - Soneto

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