Augusto dos Anjos - 160 - A aeronave





Augusto dos Anjos - 160 - A aeronave


Cindindo a vastidão do Azul profundo,

Sulcando o espaço, devassando a terra,

A Aeronave que um mistério encerra

Vai pelo espaço acompanhando o mundo.


E na esteira sem fim da azúlea esfera

Ei-la embalada n’amplidão dos ares,

Fitando o abismo sepulcral dos mares

Vencendo o azul que ante si s’erguera.


Voa, se eleva em busca do Infinito,

É como um despertar de estranho mito,

Auroreando a humana consciência.


Cheia da luz do cintilar de um astro,

Deixa ver na fulgência do seu rastro

A trajetória augusta da Ciência.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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