Augusto dos Anjos - 165 - Ave dolorosa





Augusto dos Anjos - 165 - Ave dolorosa


Ave perdida para sempre -- crença

Perdida -- segue a trilha que te traça

O Destino, ave negra da Desgraça,

Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença!


Dos sonhos meus na Catedral imensa

Que nunca pouses. Lá, na névoa baça,

Onde o teu vulto lúrido esvoaça,

Seja-te a vida uma agonia intensa!


Vives de crenças mortas e te nutres,

Empenhada na sanha dos abutres,

Num desespero rábido, assassino...


E hás de tombar um dia em mágoas lentas,

Negrejada das asas lutulentas

Que te emprestar o corvo do Destino!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 165 - Ave dolorosa

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