Augusto dos Anjos - 166 - Nimbus





Augusto dos Anjos - 166 - Nimbus


Nimbos de bronze que empanais escuros

O santuário azul da Natureza,

Quando vos vejo negros palinuros

Da tempestade negra e da tristeza,


Abismados na bruma enegrecida,

Julgo ver nos reflexos da minh’alma

As mesmas nuvens deslizando em calma,

Os nimbos das procelas desta vida;


Mas quando céu é límpido, sem bruma

Que a transparência tolda, sem nenhuma

Nuvem sequer, então, num mar de esp’rança,


Que o céu reflete, a vida é qual risonho

Batel, e a alma é a flâmula do sonho,

Que o guia e leva ao porto da bonança.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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