Augusto dos Anjos - 167 - No campo





Augusto dos Anjos - 167 - No campo


Tarde. Um arroio canta pela umbrosa

Estrada; as águas límpidas alvejam

Como cristais. Aragem suspirosa

Agita os roseirias que ali vicejam.


No Alto, entretanto, os astros rumorejam

Um presságio de noute luminosa

E ei-la que assoma -- a Louca Tenebrosa,

Branca, emergindo às trevas que a negrejam.


Chora a corrente múrmura, e, à dolente

Unção da noute, as flores também choram

Num chuveiro de pétalas, nitente,


Pendem e caem -- os roseirais descoram

E elas bóiam no pranto da corrente

Que as rosas, ao luar, chorando enfloram.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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