Augusto dos Anjos - 169 - O bandolim





Augusto dos Anjos - 169 - O bandolim


Cantas, soluças, bandolim do Fado

E de Saudade o peito meu transbordas;

Choras, e eu julgo que nas tuas cordas

Choram todas as cordas do Passado!


Guardas a alma talvez d’um desgraçado,

Um dia morto da Ilusão às bordas,

Tanto que cantas, e ilusões acordas,

Tanto que gemes, bandolim do Fado.


Quando alta noute, a lua é triste e calma,

Teu canto, vindo de produndas fráguas,

É como as nênias do Coveiro d’alma!


Tudo eterizas num coral de endeixas...

E vais aos poucos soluçando mágoas,

E vais aos poucos soluçando queixas!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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