Augusto dos Anjos - 170 - Ara maldita





Augusto dos Anjos - 170 - Ara maldita


Como um’ave, cindindo os céus risonhos,

Meiga, tu vinhas a cindir os ares,

E, qual hóstia, caindo dos altares,

Foste caindo n’ara dos meus sonhos.


E eu vi os seios teus virem inconhos

-- Esses teus seios que os cerúleos lares

Branquejaram de eternos nenufares,

Para nunca tocarem negros sonhos!


Caíste enfim no meu sacrário ardente,

Quiseste-me beijar a ara do peito,

E eu quis beijar-te o lábio redolente.


E beijei-te, mas eis que neste enleio,

Tocando n’ara negra o níveo seio,

Caíste morta ao celestial preceito.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 170 - Ara maldita

Conteúdo correspondente: