Augusto dos Anjos - 171 - Soneto





Augusto dos Anjos - 171 - Soneto


Na etérea limpidez de um sonho branco,

Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta,

E a procela chorou n’um fundo arranco

De mágoa triste e de paixão violenta.


E Lúcia disse à bruma lutulenta:

-- Foge, senão co’o o meu olhar te espanco!

E eu vi que, à voz de Lúcia, grave e lenta,

O céu tremia em seu trevoso flanco.


Fulgia a bruma para sempre. A vida

Despontava na aurora amortecida

À rutilância mágica do dia.


Aquele riso despertava a aurora!

E tudo riu-se, e como Lúcia, agora,

O sol, alegre e rubro, também ria!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 171 - Soneto

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