Augusto dos Anjos - 172 - Treva e luz





Augusto dos Anjos - 172 - Treva e luz


Neste pélago escuro em que te afundas,

Longe das sombras aurorais e amadas,

Sentes o peito em ânsias revoltadas,

Diluis teu peito em sensações profundas.


Mas, eis que emerges, luminosa, às fundas

Águas do mar das glórias obumbradas,

E, ante o branco estendal das madrugadas,

Nua, em banho ideal de amor te inundas.


Agora, à luz das alvoradas santas

Ungem-te o corpo redolências tantas,

Que, ao ver-te nua, o Mundo se concentre,


E a lua, a Virgem Mãe dos céus escampos,

Que beija a terra e que abençoa os campos,

Beije-te o seio e te abençoe o ventre!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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