Augusto dos Anjos - 173 - Soneto





Augusto dos Anjos - 173 - Soneto


O Templo da Descrença -- ei-lo que avisto. A imensa

Cruz da Dor está serena como um lírio!

E vejo o pedestal que sustenta o Martírio;

E vejo o pedestal que sustenta a Descrença!


-- A colunata êxul do Sonho Morto -- o círio

Da Quimera Falaz, o túmulo da Crença,

Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa

N’uma fúria assombral de feras em delírio!


Penetro louco enfim o abismo funerário,

E a rasgar, a rasgar o lúrido sacrário,

Em mim como no Templo a Angústia se condensa,


E em mim como no Templo, urnas de Sonho; e, em bando,

Flores mortas da Aurora, e, eu sombrio chorando

Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 173 - Soneto

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