Augusto dos Anjos - 174 - A peste





Augusto dos Anjos - 174 - A peste


Filha da raiva de Jeová -- a Peste

N’um insano ceifar que aterra e espanta,

De espaço a espaço sepulturas planta

E em cada coração planta um cipreste!


Exulta o Eterno e... tudo chora, tudo!

Quando Ela passa, semeando a Morte,

Todos dizem co’os olhos para a Sorte

-- É o castigo de Deus que passa mudo!


-- Fúlgido foco de escaldantes brasas

-- O sol a segue, e a Peste ri-se, enquanto

Vai devastando o coração das casas...


E como o sol que a segue e deixa um rastro

De luz em tudo, ela, como o sol -- o astro --

Deixa um rastro de luto em cada canto!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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