Augusto dos Anjos - 176 - Sombra imortal





Augusto dos Anjos - 176 - Sombra imortal


-- E tu elas, a sós, no pó da fulgurância

Como uma velha cruz vela na sombra morta!

Fora, a noute é tumbal... e a saudade da infância,

Como um’alma de mãe, me acalenta e conforta!


Noute! E somente tu velas a rutilância...

Lua que já passou e que hoje ainda corta

O penetral que guia à derradeira estância,

O penetral que leva à derradeira porta!


Revejo em ti, mulher, num lânguido smorzando

A sombra virginal qu’eu adoro chorando

E há de um dia amparar-me na luta correndo...


Ah! que um dia da Vida, estes dardos acúleos

Caíam, também da Dor, lá dos braços hercúleos,

Domados pela meiga Ônfale a que me rendo!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




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