Augusto dos Anjos - 178 - Noturno





Augusto dos Anjos - 178 - Noturno


Para o vale noital da eterna gaza

Rolou o Sol -- imenso moribundo --

E a noute veio na negrura d’asa,

Santificada pela Dor do Mundo!


U’a luz, entanto, no negror me abrasa,

E um canto vai morrer no vale fundo...

Que luz é esta que das brumas vasa,

Que canto é este, virginal, profundo?!


Rumores santos... e no santo arpejo,

Somente tristes os teus olhos veho,

Para o Infinito e para o Céu voltados!


Cantas, e é noute de fatais abrolhos...

Choras, e no meu peito estes teus olhos

Como que cravam dois punhais gelados!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 178 - Noturno

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