Augusto dos Anjos - 181 - Soneto





Augusto dos Anjos - 181 - Soneto


E o mar gemeu a funda melopéia

À luz feral que a tarde morta instila,

Triste como um soluço de Dalila,

Fria como um crepúsculo da Judéia.


Já Vésper, no Alto, a lânquida, cintila!

Naquela hora morria para a Idéia

A minha branca e desgraçada Déa,

Qual rosa branca que ao tufão vacila.


E o mar chamou-a para o fundo abismo!

E o céu chamou-a para o Misticismo.

Nesse momento a Lua vinha calma


E céu e mar num desespero mudo

Não viram que num halo de veludo

À alma de Déa se evolava est’alma.


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 181 - Soneto

Conteúdo correspondente: